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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

RETROSPETIVA: «X-MEN - DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO»


 Mutantes de duas épocas entrelaçadas procuram desesperadamente reescrever a História a fim de prevenir um distópico porvir. Missão, ainda assim, menos complicada do que o reajustamento da cronologia de uma franquia que faz gala dos seus paradoxos. Mesmo tendo falhado esse objetivo, o filme - vagamente inspirado no clássico epónimo e o primeiro dos X-Men indicado para um Óscar - arrebatou a crítica e os fãs.

Título original: X-Men: Days of Future Past
Ano: 2014
País: EUA
Duração: 131 minutos
Género: Ação/Fantasia/Super-heróis
Produção: 20th Century Fox, Marvel Entertainment e The Donners' Company
Realização: Bryan Singer
Argumento: Simon Kinberg (baseado na obra homónima de Chris Claremont e John Byrne)
Distribuição: 20th Century Fox
Elenco: Hugh Jackman (Logan/Wolverine); James McAvoy e Patrick Stewart (Professor Charles Xavier), Michael Fassbender e Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto); Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística);  Nicholas Hoult e Kelsey Gremmer (Dr. Hank McCoy/Fera); Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade); Ellen Page (Kitty Pryde/Lince Negro); Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo); Peter Dinklage (Bolivar Trask); Evan Peters (Peter Maximoff/Mercúrio); Josh Helman (Major William Stryker); Omar Sy (Bishop); Daniel Cudmore (Piotr Rasputin/Colossus); Fan Bingbing (Blink); Adan Canto (Mancha Solar); Booboo Stewart (Apache); Anna Paquin (Marie/Vampira); Famke Janssen (Jean Grey) e James Marsden (Scott Summers/Ciclope)
Orçamento: 200 milhões de dólares
Receitas globais: 747,9 milhões de dólares


Pré- produção e desenvolvimento

Face aos resultados dececionantes de X-Men 3: The Final Stand (2006), a 20th Century Fox , mesmo sem o assumir publicamente, perspetivou X-Men: First Class (2011) como o capítulo inaugural de uma nova trilogia baseada nos heróis mutantes criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby.
As primeiras informações veiculadas apontavam para os regressos de Matthew Vaughn e Bryan Singer. Ao primeiro, que dirigira X-Men: First Class, ficaria novamente reservada a cadeira de realizador. Ao passo que Singer, realizador de X-Men e X-Men 2, vestiria agora a pele de produtor.
Simon Kinberg, coargumentista de X-Men 3 e coprodutor de X-Men: First Class, foi contratado, em novembro de 2011, para escrever o enredo do novo filme. Tendo, para esse efeito, estudado vários clássicos da 7ª Arte que abordavam as viagens no tempo. Casos, por exemplo, de The Terminator ou Back to the Future.
Quando, em outubro de 2012, Vaughn trocou a direção do projeto pela de Kingsman, Singer perfilou-se como a escolha natural para o substituir.


Dança de cadeiras:
Bryan Singer substituiu Matthew Vaughn (cima) na direção do projeto.
Já depois de ter anunciado a data de estreia da película, em agosto de 2012 a Fox confirmou oficialmente o respetivo título: X-Men: Days of Future Past.
Com um orçamento de 200 milhões de dólares, Days of Future Past começou a ser rodado em abril de 2013. Cumprindo o cronograma estipulado, as filmagens ficaram concluídas cinco meses depois, em setembro do mesmo ano. A Cité du Cinema e outras localizações da cidade canadiana de Montreal - como o seu icónico Estado Olímpico - serviram de cenário às gravações. Chris Claremont, coautor da saga original, foi contratado como consultor.
Além de ter sido a segunda produção mais dispendiosa da Fox depois de Avatar (2009), Days of Future Past foi também a primeira longa-metragem dos X-Men filmada em 3D.
A 10 de maio de 2014, o Centro de Convenções Jacob Javits, em Nova Iorque, foi o palco escolhido para acolher a antestreia mundial de X-Men: Days of Future Past. Onze dias depois o filme chegaria às salas de cinema de todo o mundo.

Caça aos mutantes.

Enredo: Em 2023, robôs Sentinelas são programados para identificar e exterminar mutantes e seus aliados humanos. Durante um raide na Rússia que praticamente erradica a população local de Homo superiores, Kitty Pryde faz a consciência de Bishop retroceder alguns meses de modo a prevenir a chacina. Apesar de bem-sucedido, o expediente tem eficácia e alcance limitados devido ao seu impacto na fisiologia do viajante temporal.
Após ser contactada telepaticamente pelo Professor Xavier, Kitty reúne-se aos mutantes sobreviventes acantonados num remoto templo chinês. É lá que fica a conhecer a origem dos Sentinelas. Projetados por Bolivar Trask - assassinado por Mística em 1973 - os robôs tornaram-se virtualmente invencíveis graças a uma amostra do ADN da mutante.

Num futuro não muito distante,
 os Homo superiores encaram a ameaça de extinção.
Kitty sugere usar a sua habilidade para enviar alguém ao passado por forma a impedir o assassinato de Trask e, desse modo, alterar o curso da História. Xavier pondera ser ele a viajar no tempo, mas Wolverine voluntaria-se, alegando que o seu fator de cura lhe garantiria maiores hipóteses de sobreviver ao processo.
Logo depois de ter acordado em 1973, Wolverine visita a Mansão X, onde quase já não existem vestígios da Escola para Jovens Sobredotados fundada por Charles Xavier. É lá também que o herói canadiano encontra o seu antigo mentor, com notórios sintomas de alcoolismo e depressão.
Graças a um soro especial desenvolvido pelo Dr. Henry McCoy (o Fera), Xavier recuperou a capacidade de andar. Em contrapartida, os seus poderes psíquicos foram desabilitados pela substância.
Na esperança de que isso lhe permita reencontrar Mística, Xavier concorda em auxiliar Wolverine a resgatar Magneto da prisão especial localizada no subsolo do Pentágono. O que, contudo, só é possível graças à supervelocidade de Mercúrio, o jovem mutante entretanto recrutado para a operação.

Magneto prestes a ser resgatado da prisão especial
onde passara os últimos meses.
Mística descobre que Trask tem vindo a usar mutantes como cobaias para as suas sinistras experiências científicas e resolve matá-lo durante a cerimónia dos Acordos de Paz de Paris que serviriam para  pôr fim à Guerra do Vietname. Sendo, no entanto, impedida de consumar os seus desígnios por Xavier e Magneto. Este resolve matar a ex-amante por forma a certificar-se que o futuro apocalíptico descrito por Wolverine jamais terá lugar.
Ao intervir para salvar a vida de Mística, o Fera acaba por expor-se a si e aos seus companheiros como mutantes.
Tirando proveito da histeria anti-mutante potenciada pelo incidente, Trask consegue persuadir o Presidente Nixon a autorizar o Programa Sentinela. Entretanto, Magneto assume em segredo o controlo dos Sentinelas já construídos.

"Mutantes são o inimigo", clama um cartaz das Indústrias Trask.
Novamente confinado a uma cadeira de rodas depois de abandonar o soro que suprimia os seus talentos psíquicos, Xavier socorre-se deles para comunicar com o seu eu mais velho. Que o inspira a manter vivo o seu sonho de uma coexistência harmoniosa entre humanos e mutantes.
Depois de usar Cérebro (o supercomputador que permite a deteção remota de portadores do gene X) para localizar Mística, Xavier e seus aliados rumam a Washington D.C. com o propósito de fazerem abortar os planos da mutante transmorfa para assassinar Trask.
Enquanto Nixon apresenta, com pompa e circunstância, os Sentinelas, Xavier, Fera e Wolverine procuram Mística. Que, disfarçada de agente dos Serviços Secretos, se encontra perigosamente perto do Presidente e de Bolivar Trask.
Antes que Mística consiga agir, Magneto entra em cena controlando os Sentinelas e fazendo levitar um estádio de basebol acima da Casa Branca. Wolverine ataca o mestre do magnetismo mas é prontamente rechaçado, acabando atirado para as águas do rio Potomac.
No meio da confusão instalada, Nixon, Trask e Mística (ainda disfarçada de agente dos Serviços Secretos) procuram abrigo num bunker subterrâneo instalado sob a Sala Oval. O qual é arrancado por Magneto para fora da Casa Branca com a intenção de matar todos os seus ocupantes.


A cerimónia de apresentação dos Sentinelas presidida por Nixon.
No futuro, os Sentinelas invadem o templo que dá guarida aos mutantes, matando vários deles, incluindo Tempestade. Também Magneto é gravemente ferido durante o ataque e a capitulação parece iminente.
Entretanto, no passado, Mística impede Magneto de assassinar Nixon mas não desiste da sua intenção de liquidar Trask. No último instante Xavier consegue demovê-la de o fazer, explicando-lhe que isso apagará os Sentinelas da existência, poupando assim muitas vidas inocentes.
Mística parte com Magneto e Trask é posto atrás das grades por ter tentado vender segredos militares norte-americanos a dignitários vietnamitas.
No presente, Wolverine desperta na Mansão X e encontra todos os outros X-Men vivos e de boa saúde. Sendo, contudo, o único a estar ciente das alterações ocorridas na História.
Numa cena pós-créditos, uma multidão em transe venera com os seus cânticos En Sabah Nur (nome de batismo de Apocalipse) enquanto este faz flutuar pelo ar enormes blocos de pedra que servem para construir uma antiga pirâmide egípcia. Proeza testemunhada à distância pelos seus quatro Cavaleiros.

Trailer:



Versão alternativa

A 14 de julho de 2015, data em que a franquia dos X-Men cumpria o seu 15º aniversário, a 20th Century Fox Home lançou uma versão alternativa de Days of Future Past. Sob o título genérico The Rogue Cut, incluía 17 minutos de cenas cortadas e uma subtrama envolvendo Vampira (Rogue, no original), cuja participação no filme, recorde-se, se resumira a um brevíssimo cameo de poucos segundos.
Em Rogue Cut a narrativa é mais complexa e o papel desempenhado nela por Vampira menos inconsequente. Quando, devido à ação de William Stryker, a consciência de Wolverine balança entre o passado e o futuro - levando-o a ferir acidentalmente Kitty Pryde com as suas garras - o Professor X chama a atenção para a necessidade de Logan dispor de mais tempo no passado. O Homem de Gelo propõe então invadir a antiga Escola Xavier para Jovens Sobredotados, onde Vampira se encontra confinada sob a apertada vigilância dos Sentinelas.
Levada a cabo pelo Professor X, Magneto e Homem de Gelo, a operação de resgate é coroada de êxito, mas apenas os dois primeiros escapam com vida.
A partir do baluarte da resistência mutante, Vampira, embora devastada pela perda do namorado, assume o lugar de Kitty Pryde durante o tempo necessário para que, em 1973, Wolverine consiga alterar o curso da História.

Em Rogue Cut, é Vampira a assegurar
 o sucesso da missão de Wolverine.
Os Sentinelas conseguem, porém, encontrar o esconderijo dos mutantes graças a um dispositivo de localização que um dos robôs havia conseguido colocar no Pássaro Negro (o sofisticado jato dos X-Men) no momento da fuga do comando mutante da Mansão X.
A versão alternativa inclui ainda duas outras cenas: a primeira mostra Mística a visitar a Mansão X enquanto Xavier e Logan dormiam o sono dos justos. Após uma tórrida noite de amor com o Fera, Mística sai furtivamente antes do alvorecer, não sem antes sabotar Cérebro, de modo a evitar que Xavier lhe siga o rasto. Já a segunda mostra como a prisão especial do Pentágono está a ser reparada enquanto recebe um novo recluso. Ninguém menos do que Bolivar Trask.

Fera e Mística: paixão em tons de azul.

Prémios e nomeações

Além da inédita indicação para um Óscar na categoria de Melhores Efeitos Visuais, Days of Future Past recebeu nomeações para dezenas de outros prémios. Arrecadaria, no entanto, apenas quatro. A saber: um Empire Award para Melhor Filme de Ficção Científica, um Saturn Award para Melhor Edição Especial em DVD e dois Visual Effects Society Awards para Melhor Fotografia e Melhores Efeitos Especiais.

Curiosidades

*Quando Wolverine acorda em 1973, a mulher deitada ao seu lado na cama chama-lhe Jimmy. Algumas revisitações recentes da origem do mutante canadiano estabeleceram James Howlett como seu nome de batismo. Logan, por seu turno, corresponde ao apelido herdado do seu pai biológico, Thomas Logan. Originalmente, nessa mesma cena, Logan deveria usar boxers ao sair da cama. Alegando que, na sua Austrália natal, nenhum homem a sério acorda vestido ao lado de uma mulher bonita, Hugh Jackman vetou essa diretriz e brindou a plateia com uma visão do seu traseiro desnudo;
*Halle Berry teve o seu papel como Tempestade substancialmente reduzido em consequência da sua gravidez. Não obstante, o seu nome surge em destaque nos créditos do filme;
*Com o intuito de assegurar a verosimilhança e a exequibilidade do conceito de viagens no tempo na película cuja direção assumiu após a saída de Matthew Vaughn, Bryan Singer discutiu durante duas horas com James Cameron (Exterminador Implacável, Avatar) alguns teoremas da física quântica, mormente a complexa Teoria das Cordas. Singer resumiu desta forma aquela que é a pedra angular do enredo de Days of Future Past: "Até um objeto ser observado, ele é inexistente. Ao viajante do tempo, cuja consciência retrocede até a uma determinada época, eu chamo, portanto, Observador. Enquanto o Observador não regressar ao seu ponto de partida, esse futuro será apenas um cenário em aberto. É por isso que, em teoria, seria possível alterá-lo. No filme, Wolverine é o Observador a quem compete reescrever cirurgicamente o passado para precaver um Amanhã de pesadelo.";
*Na sua audiência no Senado norte-americano, Bolivar Trask lê em voz alta alguns excertos de uma dissertação académica que explica como a emergência do Homo sapiens induziu a extinção do Homem de Neandertal, seu antepassado na escala evolutiva. A referida dissertação fora elaborada por Charles Xavier que, em X-Men: First Class, também lera as mesmas passagens a Mística. Len Wein (cocriador de Wolverine, recentemente falecido) e Chris Claremont (o autor da saga original) são dois dos congressistas que assistem à preleção de Trask;
*Desde The Dark Knight Rises (2012) que nenhum filme de super-heróis reunia um elenco tão sumptuoso. Além de três atrizes oscarizadas (Anna Paquin, Halle Berry e Jennifer Lawrence), Days of Future Past contabilizou ainda cinco nomeados pela Academia de Hollywood: Hugh Jackman, Michael Fassbender, Ellen Page, Michael Lerner e Ian McKellen;

Um elenco que era uma verdadeira constelação.
*Quando aos comandos do projeto estava ainda Matthew Vaughn, caberia ao Fanático a missão de resgatar Magneto da prisão. Escalado para o papel que, em X-Men 3: The Final Stand (2006), pertencera ao britânico Vinnie Jones, Josh Helman acabaria por encarnar o jovem William Stryker depois de Bryan Singer ter decidido colocar Mercúrio no lugar do Fanático. Troca que, curiosamente, só se verificou após a confirmação de que o filho de Magneto também marcaria presença em Vingadores: Era de Ultron (2015). Especula-se que esse poderá ter sido o estratagema encontrado pela Fox para salvaguardar os seus os direitos sobre a personagem;
*Enquanto Magneto faz levitar um estádio inteiro sobre Washington D.C., é possível ver uma pequena Jean Grey de olhos postos no céu, indiferente à multidão espavorida que a rodeia.

Uma Jean Grey de palmo e meio
assiste às proezas de Magneto.

Diferenças em relação à BD

Obra capital no repertório dos Filhos do Átomo, Days of Future Past granjeou há muito o estatuto de clássico da 9ª Arte de leitura obrigatória para qualquer "bedéfilo".
Publicada originalmente em janeiro e fevereiro de 1981, nos números 141 e 142 de The Uncanny X-Men, a história teve o cunho de Chris Claremont* e John Byrne**, o binómio criativo responsável  por aquela que é quase unanimemente considerada a fase áurea dos heróis mutantes.
Antes da sua transposição ao grande ecrã, Days of Future Past tivera já direito a duas adaptações televisivas em outras tantas séries animadas dos X-Men: X-Men (1992-97) e Wolverine and the X-Men (2009).
No entanto, se essas adaptações prévias tiveram na fidelidade ao conceito original o seu eixo comum, o mesmo não se poderá dizer da sua versão cinematográfica.
Tantas são, de facto, as discrepâncias relativamente à saga original que, quanto muito, poderá considerar-se que o filme é vagamente inspirado nela.
De tão extensa que é a lista, limito-me, por isso, a identificar apenas algumas das diferenças fundamentais relacionadas com o protagonista, a trama e o desfecho desta.

A capa de Uncanny X-Men nº141 (1981)
 ocupa lugar de relevo na iconografia da 9ª Arte.
Comecemos então pelo protagonista. Na história original, esse posto cabe a Kitty Pryde. É a sua consciência que é enviada para o passado com a missão de alertar os X-Men para o lúgubre futuro que os espera. O facto de ela ser, à época, a novata da equipa foi preponderante para a escolha de Kitty. Ademais, a ausência de bloqueios mentais facilitaria a leitura dos seus pensamentos por parte do Professor X, fornecendo ao líder dos X-Men uma visão mais nítida do porvir.
No filme, como sabemos, é Wolverine a viajar ao passado. E há uma boa razão para isso: o seu fator de cura torna-o o único capaz de suportar os danos cerebrais decorrentes de passar longos períodos de tempo com a consciência numa época diferente.
No que à trama diz respeito, na história original Kitty Pryde regressa aos anos 1980 (e não a 1973) para prevenir os X-Men para as consequências catastróficas do assassinato do Senador Robert Kelly, o promotor político de uma virulenta campanha anti-mutante.  Crime cometido por Sina, da Irmandade de Mutantes, e que motivaria o Governo dos EUA a autorizar a produção em massa dos Sentinelas, já velhos conhecidos dos X-Men.
Apesar da premissa comum, no filme é a morte do Major William Stryker às mãos de Mística  a pôr em marcha essa trágica cadeia de eventos.
Também o tratamento aplicado pelos Sentinelas aos mutantes é um aspeto pouco explorado na película. Na BD os robôs de Trask promovem uma segregação entre humanos que podem procriar, humanos portadores do gene X latente (proibidos de se reproduzirem) e Homo superiores. A estes últimos restam duas opções: o extermínio ou o confinamento em campos de concentração onde são obrigados a usar colares inibidores de poder. Sendo este o único elemento presente no filme, no qual pouco mais é revelado acerca do destino dado aos mutantes capturados.

Lápides com os nomes de X-Men
 testemunham o genocídio mutante na saga original.
Previsivelmente, todas estas divergências conduzem a desfechos distintos para as duas versões da mesma história. Enquanto na BD os X-Men chegam a tempo de evitar o assassinato do Senador Kelly - daí resultando um acirrado conflito com a Irmandade de Mutantes - no filme é Mística quem, ironicamente, impede Magneto de cometer uma chacina.
Todas estas licenças poéticas não deturpam, ainda assim, a essência e o escopo da saga que serviu de base ao enredo da película. Algo que por si só é digno de louvor, atendendo ao ror de adaptações que, de tão heterodoxas, deixam irreconhecíveis as respetivas matrizes.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/search?q=chris+claremont
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Veredito: 70%

Ironia das ironias: Days of Future Past foi escolhido pelos mandachuvas da Fox porque a história permitiria atar as muitas pontas soltas na cronologia de uma franquia que, recorde-se, além dos X-Men integra também Wolverine e Deadpool.
Ora, o filme não só falhou redondamente em resolver este ponto problemático como ainda acrescentou mais uns quantos fios emaranhados a um novelo que poucos se atreverão a tentar desembaraçar. Alguns exemplos: além de ficar intangível, Kitty Pryde parece ter descoberto da noite para o dia possuir a habilidade de enviar consciências alheias de volta no tempo; o Professor X regressou do além-túmulo depois de ter sido assassinado por Jean Grey em X-Men 3; e também Wolverine recuperou as suas garras de adamantium perdidas no seu segundo filme a solo.
Para nenhuma destas inconsistências é aventada qualquer justificação. O que não deixa de causar estranheza se consideramos que o enredo de Days of Future Past ambicionava conectar a trilogia original dos X-Men, os dois filmes de Wolverine e ainda X-Men: First Class.
Se fizermos vista grossa a estes pecadilhos cronológicos e nos focarmos na trama, o núcleo futurista é uma das suas mais-valias. O peso dramático de um mundo pós-apocalíptico é sentido perfeitamente pelo espectador e as cenas de combate com os Sentinelas são soberbas.
Perante essa atmosfera sufocante, é mais do que bem-vindo o alívio cómico proporcionado pelas sequências protagonizadas por Mercúrio. Sendo, de resto, muito interessante a forma como as duas perceções - do próprio e dos outros - da sua supervelocidade foram mostradas. Curioso notar, a este propósito, como Evan Peters emprestou o seu carisma a uma personagem que nunca o possuiu na BD.

O impagável Mercúrio em ação.
Apesar do natural destaque concedido a Wolverine na trama, ele é um falso protagonista. Pela primeira vez na franquia, Charles Xavier é o coração e a alma da história. E o resultado é sensacional, muito por conta da magistral representação de James McAvoy.
Quase sempre retratado como um rochedo inabalável nas suas convicções, desta feita o mentor dos X-Men debate-se com uma crise de fé. Ficando bem patente o quanto esse seu estado de alma se reflete na comunidade Homo superior e, por irradiação, no mundo inteiro.
Outro ponto positivo do filme é, aliás, a ausência de maniqueísmo: as retaliações de humanos e mutantes afiguram-se justificáveis e inevitáveis porque, no fundo, todos estão errados. Cabendo dessa forma a Charles Xavier a ingrata missão de se assumir como o fiel de uma balança que pende cada vez mais para o ódio inter-espécies.
Boa parte desses e de outros méritos da produção devem ser atribuídos a Bryan Singer, cineasta que já deu sobejas provas do seu amor ao género super-heroico e do seu profundo conhecimento do universo dos X-Men.
De facto, mais importante do que a estética ou a cronologia, é o conteúdo social, moral e filosófico que sempre esteve no cerne das melhores histórias dos Filhos do Átomo. E é por isso que as imperfeições de Days of Future Past merecem ser perdoadas.






sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: CAPITÃO MARVEL


  Nos anos de chumbo da guerra e da Grande Depressão, fulminou o desalento de uma geração com os seus relâmpagos de otimismo. Velha glória da Fawcett Comics, demoliu o mito da invencibilidade do Homem de Aço e foi o primeiro super-herói adaptado ao cinema. Mesmo sem o fulgor de outrora, continua a ser uma das personagens mais acarinhadas pelos fãs, e um garrido lembrete de uma época de maior simplicidade.


Nota prévia: Para uma melhor compreensão da génese do Capitão Marvel, do seu impacto cultural durante a Idade de Ouro da banda desenhada e das incidências do processo judicial em que se viu enredado, é altamente recomendável a leitura do meu artigo anterior.

Denominação original: Captain Marvel (renomeado oficialmente de Shazam em 2011)
Licenciadora: Fawcett Comics (1939-1953) e DC Comics (desde 1972)
Criadores: Bill Parker (história) e Charles Clarence "C.C." Beck (arte conceptual)
Estreia: Whiz Comics nº2 (Fevereiro de 1940)
Identidade civil: William Joseph "Billy" Batson
Local de nascimento: Fawcett City
Parentes conhecidos: C.C. e Marilyn Fawcett (pais, falecidos); Mary Batson/Mary Marvel (irmã gémea); Ebenezer Batson (tio) e Sinclair Batson (primo, falecido)
Ocupação: Repórter, locutor radiofónico e aventureiro
Base operacional: Fawcett City e Pedra da Eternidade (originalmente, o covil do Mago Shazam onde os 7 Pecados Mortais se encontravam aprisionados, é hoje descrita como um nexo interdimensional e um estação de poder para os portadores do relâmpago mágico)
Poderes, armas e habilidades: Acrónimo de Salomão, Hércules, Aquiles, Zeus, Atlas e Mercúrio, sempre que a palavra "Shazam" é proferida por Billy Batson, a entidade mística conhecida como Capitão Marvel é invocada.
Apesar desta conexão do herói com as figuras mitológicas enumeradas ter vindo a esbater-se em versões mais recentes, ele continua a extrair delas as suas assombrosas habilidades. Assim, o Capitão Marvel possui a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a coragem de Aquiles, o poder de Zeus, o vigor de Atlas e a velocidade de Mercúrio. Cujo somatório justifica plenamente o epíteto de Mortal Mais Poderoso da Terra.
A este impressionante catálogo clássico de poderes e habilidades foram acrescentados mais uns quantos recursos no âmbito da sua reformulação em Os Novos 52. Além de conseguir agora teletransportar-se, o Capitão Marvel adquiriu nesse contexto a capacidade de manipular o relâmpago mágico responsável pela sua transformação. Aporte que, entre outras proezas, lhe permite lançar rajadas elétricas pelas mãos.
Outra novidade consiste no facto de, uma vez proferida a palavra mágica, a metamorfose de Bill Batson só ocorrer se for esse o seu desejo.

Shazam: com 6 letrinhas apenas se escreve uma história de sucesso.

Vulnerabilidades: Apesar da sua elevada resistência à magia, o Capitão Marvel não lhe é completamente imune. Sendo, portanto, suscetível a ataques místicos de grande envergadura lançados por magos de primeira grandeza como o Senhor Destino ou Zatanna.
Originalmente, nas situações em que a Família Marvel atuava em conjunto, sobrevinha daí um fracionamento dos respetivos poderes. Se, por exemplo, três dos seus membros estivessem ativos em simultâneo, cada um deles dispunha apenas de um terço da magia de Shazam. Esse constrangimento foi, contudo, abolido após a reformulação do Capitão Marvel no âmbito dos Novos 52, passando dessa forma o herói a conservar a plenitude dos seus poderes mesmo quando secundado pela Família Marvel.
Por outro lado, o mesmo relâmpago mágico que transforma o pequeno Billy Batson no Mortal Mais Poderoso da Terra pode também ser usado para reverter o processo. Expediente ao alcance de poucos mas que, no passado, foi já utilizado por Adão Negro para sobrepujar o herói.
Criança em corpo de adulto, o Capitão Marvel (pelo menos na sua versão clássica) tende a ser excessivamente otimista, e até mesmo ingénuo. Se em determinados contextos isso o investe de uma certa superioridade moral, noutros representa uma fraqueza passível de ser explorada pelos seus adversários ou de o tornar alvo da condescendência dos seus pares.
De igual modo, também a inexperiência do herói condiciona muitas vezes a forma como emprega os seus poderes, cuja real extensão ele desconhece ainda.

A ingenuidade de Billy Batson
 é um dos pontos fracos do Capitão Marvel.
Conceção 

Ia já adiantado o ano de 1939 quando, em resposta ao enorme sucesso alcançado por Superman e Batman (ambos propriedade da National Comics, antepassada da atual DC), a Fawcett Publications  resolveu lançar a sua própria linha de super-heróis.
Escriba talentoso, Bill Parker foi cooptado para criar o naipe de personagens que deveriam abrilhantar o novo título periódico que sinalizaria o ingresso da Fawcett no cada vez mais apetecível mercado dos quadradinhos. Além de Spy Smasher, Dan Dare, Ibis the Invincible e Golden Arrow, Parker imaginou também um sexteto heroico em que cada um dos elementos que o compunham detinha um poder concedido por uma figura mitológica.
Quando Parker explanou esta última ideia a Ralph Daigh, o diretor-executivo da Fawcett Comics sugeriu-lhe que combinasse os seis poderes num só herói. Parker anuiu e, poucos dias depois, regressou ao gabinete de Daigh para lhe apresentar Captain Thunder. Personagem que, como mais adiante se perceberá, serviu de protótipo ao Capitão Marvel.
A tarefa de desenhar a história de Parker foi confiada a Charles Clarence Beck, artista veterano da Fawcett com um estilo fortemente influenciado pela estética dos cartunes. Esse traço quase caricatural tornar-se-ia, de resto, a imagem de marca das aventuras do Capitão Marvel ao longo da Idade do Ouro.

C.C. Beck (1910-1989),
um dos mais brilhantes iconoclastas da Idade do Ouro dos comics.
Anos mais tarde, Beck recordaria em entrevista como tudo se processou: "O chefe (Roscoe K. Fawcett, fundador da Fawcett Comics) queria um Superman que fosse também um menino.Quando eu e o Bill começámos a trabalhar nas histórias do Capitão Marvel, constatámos quão precárias eram a escrita e a arte da generalidade das publicações com super-heróis. Chegavam a ser medíocres! Decidimos, por isso, brindar os nossos leitores com material de qualidade. O que era sinónimo de histórias bem escritas, bem ilustradas e que não se limitassem a reproduzir as estafadas fórmulas narrativas da literatura pulp. Era isso que nos propúnhamos fazer. Porque, em boa verdade, ninguém o fizera ainda. E uma boa maneira de o conseguirmos seria revisitando conceitos retirados do folclore e da mitologia clássica."
Diferentes fontes de inspiração influenciaram a conceção do Capitão Marvel. Que teve, contudo, no ator Fred MacMurray (muito popular à época) o seu principal modelo anatómico. Pese embora sejam igualmente legítimas as comparações com outros galãs de Hollywood seus contemporâneos, como Cary Grant e Jake Oakie.

O Capitão Marvel foi tirado a papel químico
 do ator Fred MacMurray.
Na base da escolha do nome do alter ego do herói - um rapazote chamado Billy Batson - esteve a alcunha castrense através da qual o fundador da Fawcett Publications se notabilizara: Capitão Billy.
A estes elementos averbaram-se outros decalcados daquele que era então o super-heróis mais popular da Idade do Ouro. Tal como o Superman, também o Capitão Marvel possuía força descomunal, supervelocidade e um repórter como identidade secreta. Características comuns que lhe valeram a preferência dos leitores, mas, também, um danoso processo por plágio movido pela National Comics.

Histórico de publicação 

Apenas para fins de depósito legal e de divulgação, a primeira - e única - historieta de Captain Thunder foi dada à estampa no outono de 1939 e inclusa tanto em Flash Comics nº1 como em Thrill Comics nº1. Nenhum deles pôde, no entanto, ser registado dada a existência de conceitos homónimos já detidos por outras editoras.
Em virtude desses constrangimentos, e por sugestão do ilustrador Pete Costanza, Captain Thunder seria rebatizado de Captain Marvelous antes de ver o seu nome abreviado para Captain Marvel pelos editores da Fawcett. Quanto à série mensal destinada a acolhê-lo, teve o seu título alterado para Whiz Comics, em singela homenagem ao almanaque humorístico que, duas décadas antes, estivera na base da fundação da Fawcett Publications.
Datado de fevereiro de 1940, o segundo número de Whiz Comics não serviu, contudo, apenas de palco à estreia do Capitão Marvel. Também aquele que seria o seu arqui-inimigo - o diabólico cientista conhecido como Doutor Sivana - se deu a conhecer nessa edição histórica. Com meio milhão de exemplares vendidos, dificilmente a estreia da nova coqueluche da Fawcett poderia ter sido mais auspiciosa.

A trepidante estreia do Capitão Marvel
em Whiz Comics nº2 (1940).
De facto, inebriados pelo otimismo que infundia as histórias do Capitão Marvel, os leitores - que nelas encontravam uma escapatória a um opressivo quotidiano marcado pela guerra e pela incerteza - depressa fizeram dele o novo campeão de vendas, em detrimento do Superman.
Além do tom divertido das aventuras do Mortal Mais Poderoso da Terra - amiúde salpicadas por notas de surrealismo - , parte do seu sucesso poderá também ser explicado pela circunstância das histórias serem quase sempre narradas sob o ponto de vista de uma criança.
Era Billy Batson quem, ao microfone da estação de rádio WHIZ, ia relatando as façanhas da sua persona heroica. Conseguindo dessa forma estabelecer uma forte empatia com a sua audiência maioritariamente composta por pessoas de palmo e meio como ele.

Era o próprio Billy Batson quem muitas vezes
 servia de narrador às aventuras do Capitão Marvel.
Ano de glória para o Capitão Marvel, 1941 ficou marcado pela sua adaptação ao cinema (ver Noutros media) e pela sua ubiquidade nas publicações da Fawcett Comics. A Whiz Comics, o herói acrescentou um título em nome próprio - Captain Marvel Adventures - e participações regulares em Master Comics e Wow Comics. Ainda nesse ano seria lançado o primeiro spin-off. Capitão Marvel Jr. - que, ao contrário do original, não se transformava em adulto ao pronunciar "Shazam" - inaugurou uma igualmente bem-sucedida franquia.
Com efeito, entre 1945 e 1954, a Família Marvel (cujo núcleo duro incluía ainda Mary Marvel) teve as suas aventuras publicadas em The Marvel Family, outro dos títulos de charneira da Fawcett Comics, e um dos mais populares durante a Idade do Ouro. Mas que, à semelhança do restante catálogo super-heroico da editora, teria morte prematura em resultado do acordo extrajudicial negociado com a National Comics após longa e inconclusiva batalha travada na barra dos tribunais.

As aventuras da Família Marvel
encantaram toda uma geração de leitores.
Do purgatório onde se viu preso durante quase uma vintena de anos, o Capitão Marvel assistiu impotente ao desvanecimento da Idade do Ouro e à progressiva decadência dos super-heróis. Mas também a algumas tentativas frustradas de reabilitação.
Como aquela levada a cabo, logo em 1953, pela L. Miller and Son, pequena editora britânica que republicava histórias antigas de super-heróis em terras de Sua Majestade.
Ao ver-se subitamente privada do material original que lhe era fornecido pela Fawcett Comics, a L. Miller and Son requisitou uma versão genérica do Capitão Marvel ao escritor Mike Anglo.
Nascia assim Marvelman, galante herói com poderes idênticos aos do Capitão Marvel, obtidos sempre que ele vociferava "Kimota" ("Atomik" lido de trás para a frente). Até 1963, ano em que teve as suas histórias suspensas, Marvelman (atualmente conhecido como Miracleman) substituiu o Mortal Mais Poderoso da Terra no imaginário popular da Velha Albion. Tendo também aportado em Terras Tupiniquins, onde atendia pelo nome de Jack Marvel.
Em 1966, seria a vez da M.F. Enterprises (obscura editora nova-iorquina que cerraria portas no ano seguinte) lançar o seu pastiche do Capitão Marvel. Alegadamente baseado numa personagem criada por Carl Burgos ("pai" do Tocha Humana original), este herói com prazo de validade curto era um androide de origem extraterrestre cuja principal habilidade consistia em dividir o seu corpo em várias partes autónomas. Processo desencadeado sempre que ele gritava "Split" (palavra inglesa para "dividir") e revertido quando proferia "Xam"(sem tradução aplicável). Outra das suas originalidades residia no facto de ter um mentor humano chamado Billy Baxton.

Nasceu em terras de Sua Majestade
o primeiro genérico do Capitão Marvel.
No que muitos percecionarão como um ato de justiça poética (ou de inenarrável cinismo), em 1972, no rescaldo da chamada Idade de Prata da banda desenhada, a DC Comics, por iniciativa do seu editor-chefe, Carmine Infantino, adquiriu os direitos de licenciamento da quase totalidade das personagens da Fawcett Comics. Lote que incluía, obviamente, toda a Família Marvel, ou não tivesse sido esta a franquia que a Editora das Lendas mais cobiçara à antiga rival.
Assim resgatado do ostracismo por quem a ele o havia condenado, esperava-se um regresso triunfal do Capitão Marvel. Sucede que a sua incorporação na continuidade da DC foi seriamente dificultada por consecutivos percalços.
Começando pela impossibilidade de o Capitão Marvel dispor de um título em nome próprio. Isto porque, durante o seu longo exílio, a Marvel Comics havia patenteado uma personagem homónima, obrigando desse modo a titular de Shazam a nova série mensal do Mortal Mais Poderoso da Terra, que deveria ter servido para devolvê-lo à ribalta.

Cover
Em 1973, a estreia do Capitão Marvel
 no Universo DC foi apadrinhada pelo Superman.
No entanto, fruto de circunstâncias várias, em momento algum a antiga joia da coroa da Fawcett Comics conseguiu recuperar o seu fulgor de outrora. Tardando mesmo em afirmar-se no Universo DC, conforme demonstra o fracasso de todas as séries epónimas lançadas até à data.
Reduzido a uma espécie de coadjuvante de luxo e supletivo da Liga da Justiça, o Capitão Marvel foi oficialmente renomeado de Shazam em 2011. Ano a que remonta também, no contexto mais amplo dos Novos 52, a última tentativa de revitalização de que foi alvo. Além da mudança de nome, teve também a sua origem e visual retocados (mais pormenores no texto seguinte). Mas nem por isso os resultados foram mais satisfatórios.

Origem 

Na sua primeira aparição em Whiz Comics nº2 (fevereiro de 1940), Billy Batson era um pequeno órfão que sobrevivia graças ao seu trabalho como ardina e que tinha numa estação de metro abandonada o seu lar improvisado.
Conduzido, certo dia, por uma misteriosa figura ao covil subterrâneo do Mago Shazam, Billy ficou a saber como o ancião vinha usando os poderes das divindades cujas iniciais compunham o seu nome para combater o Mal nos últimos 3 mil anos.
Demasiado velho para prosseguir tão exigente missão, Shazam escolhera Billy para seu sucessor por causa do infortúnio do rapaz. Sendo nesse momento revelado que ele fora vítima da ganância de um tio que, após o falecimento dos seus pais, o expulsara de casa, para assim se poder assenhorar da sua herança. Apesar desta explicação, em revisitações posteriores da história acrescentar-se-ia que a escolha de Billy se ficara a dever também à sua pureza de coração.
Conforme profetizado, ao transmitir os seu poderes a Billy, o mago Shazam morreu esmagado por uma gigantesca pedra que, qual espada de Dâmocles, impendia sobre o seu o trono. Voltaria, no entanto, na forma de espírito, para servir de mentor ao seu novo campeão.

O Mago Shazam saúda o seu novo campeão.
Na sua primeira aventura como Capitão Marvel, Billy teve pela frente o Doutor Sivana. Com tanto de genial como de perverso, este cientista careca e de aspeto raquítico tornar-se-ia o arqui-inimigo do herói.
Foi também nessa história inaugural que Billy conseguiu o seu emprego como repórter e locutor da rádio WHIZ. Atividade que lhe permitia viajar e investigar o submundo do crime. Sempre que isso o metia em apuros, bastava-lhe gritar "Shazam" para assim convocar o seu poderoso alter ego.
Salvo por pequenas cambiantes introduzidas após a sua passagem para a DC (como a imputação da morte dos pais de Billy ao Adão Negro), a origem do Capitão Marvel permaneceu praticamente inalterada até aos Novos 52. Na nova versão que daí resultou, Billy Batson passou a ser retratado como um adolescente problemático e arrogante, num flagrante contraste com a docilidade do seu antecessor.
Quando o Doutor Sivana libertou o Adão Negro da sua tumba, o Mago Shazam convocou Billy para fazer dele o seu novo campeão. Apesar do jovem estar longe de ser o candidato ideal, Shazam, em desespero de causa, acabou mesmo por imbuí-lo do seu poder.
Depois de, num primeiro momento, usar as suas recém-adquiridas habilidades para ganhar dinheiro, o Capitão Marvel aprendeu lentamente o significado de ser um herói.

Agora rebatizado de Shazam, o Mortal Mais Poderoso da Terra
foi reimaginado nos Novos 52.

 Coadjuvantes

Nas suas histórias clássicas da Fawcett Comics, era comum o Capitão Marvel liderar a Família Marvel na sua interminável luta contra o Mal. Do grupo faziam parte também o Mago Shazam, Mary Marvel e Capitão Marvel Jr. (respetivamente, o mentor, a irmã gémea e o protegido do Mortal Mais Poderoso da Terra).
A este núcleo duro superpoderoso acrescia um conjunto de membros ocasionais destituídos de habilidades sobrenaturais. Eram eles o Tio Marvel, o Coelho Marvel e os Tenentes Marvel, reunindo estes últimos três homónimos de Billy Batson.
Ainda na categoria dos aliados tradicionais do Capitão Marvel, destacavam-se o tigre falante chamado Senhor Malhado e Beautia e Magnificus Sivana, os amáveis filhos do Doutor Sivana. Que, por sua vez, presidia ao índice de arqui-inimigos do Mortal Mais Poderoso da Terra onde pontificavam também Adão Negro ( Black Adam, o corrompido primeiro campeão do Mago Shazam), Capitão Nazi (Captain Nazi,supersoldado ao serviço do 3º Reich) e o Senhor Mente (Mister Mind, uma minhoca com talentos telepáticos).


Doutor Sivana (cima) e Adão Negro:
dois dos arqui-inimigos do Capitão Marvel.
Inicialmente incorporadas no Multiverso DC, algumas destas personagens tiveram contudo a sua existência apagada no período pós-Crise nas Infinitas Terras. Casos, por exemplo, do Tio Marvel e dos Tenentes Marvel.
Na realidade emanada dos Novos 52, Billy Batson possuía cinco irmãos adotivos, com os quais podia compartilhar os seus poderes. Mary Batson, Freddy Freeman, Pedro Peña, Eugene Choi e Darla Dudley formavam a nova (e multicultural) Família Marvel, cuja mascote era um tigre do zoológico de Fawcett City chamado Malhado.
Nos Novos 52 a Família Marvel ganhou novos membros.

Versões alternativas

Desde a sua migração para o Universo DC, o Capitão Marvel teve direito a um número significativo de sósias e versões alternativa. Tão significativo que me limitarei a elencar aqui os mais notórios.

Captain Thunder: Em Superman nº276 (junho de 1974), o Homem de Aço deparou-se com o formidável Captain Thunder. Crismado de Capitão Corisco no Brasil, era um super-herói procedente de uma dimensão paralela que obtinha os seus poderes ao esfregar um cinturão mágico enquanto gritava "Thunder" - acrónimo para Tornado, Hare, Uncas, Nature, Diamond, Eagle e Ram. O seu nome derivava daquele que fora originalmente atribuído ao Capitão Marvel.


Capitão Trovão foi o primeiro sósia
do Mortal Mais Poderoso da Terra no Universo DC.
Captain Thunder (2011): Na linha temporal divergente acidentalmente criada pelo Flash e apresentada na minissérie Flashpoint (Ponto de Ignição), a Terra tinha em Captain Thunder um dos seus maiores campeões. Esta contraparte do Capitão Marvel possuía não um mas seis alter egos. Seis crianças conhecidas coletivamente como S.H.A.Z.A.M., cada uma delas dispondo de um atributo mágico específico. A invocação do seu avatar só era possível quando os seis gritavam "Shazam" em uníssono.
Note-se que esta declinação remete para o conceito originalmente imaginado por Bill Parker quando foi incumbido da criação do Capitão Marvel.

Kingdom Come
: Em 1997, a minissérie Kingdom Come (Reino do Amanhã) apresentava um possível futuro distópico no qual os super-heróis tradicionais haviam sido substituídos por uma nova geração de justiceiros adeptos de métodos radicais e ultraviolentos.
Agora um adulto, Billy Batson mantivera-se durante vários anos na sombra devido à crescente hostilidade da opinião pública para com os meta-humanos. Seria, no entanto, descoberto por Lex Luthor que, com a ajuda dos filhos do Senhor Mente, o submeteu a uma lavagem cerebral.
Assim transformado num lacaio de Luthor, o Capitão Marvel acabaria por redimir-se ao sacrificar a própria vida para salvar milhões de inocentes. A sua capa serviria de símbolo para a nova era de harmonia entre humanos e meta-humanos imposta pelo Superman e seus aliados;

Corrompido por Luthor, o Capitão Marvel
 esteve do lado errado da história em Kingdom Come.
Mazahs: Introduzido em 2013 na minissérie Forever Evil (Vilania Eterna), este sósia maligno do Capitão Marvel foi trazido como prisioneiro para o nosso mundo pelo Sindicato do Crime - versão simétrica da Liga da Justiça originária da Terra-3. Tratava-se do alter ego superpoderoso de Alexander Luthor que, em conluio com a Superwoman (mescla da Mulher-Maravilha e Lois Lane), pretendia dominar o nosso mundo.
Assassinado pelo Luthor da Terra-1, deixou órfão o filho que a Superwoman lhe carregava no ventre.

Noutros media

Com forte penetração em praticamente todos os segmentos culturais, o Capitão Marvel foi o primeiro super-herói a ganhar vida no grande ecrã. Logo em 1941, a Republic Pictures produziu Adventures of Captain Marvel. Protagonizado por Tom Tyler (e com Frank Coghlan Jr. no papel de Billy Batson), este folhetim em 12 episódios a preto branco, epifenómeno de sucesso,  usou efeitos especiais que haviam sido desenvolvidos para uma produção idêntica do Superman que nunca saiu do papel.
A fazer fé nos inúmeros rumores postos a circular no ciberespaço, o Mortal Mais Poderoso da Terra deverá regressar ao cinema em 2019. Por ora são, contudo, mais as dúvidas do que as certezas em torno do projeto. Desde logo acerca do nome do ator escolhido para emprestar corpo ao herói. Isto apesar de Alan Ritchson ter recentemente confirmado, via Twitter, ser ele o eleito para o papel.
Fora dos quadradinhos, foi, porém, através de Shazam!, icónica série televisiva produzida pela Filmation e exibida pela CBS de 1974 a 1977, que o Capitão Marvel recuperou alguma da sua popularidade de outrora junto do grande público. Interpretado por Jackson Bostwick na primeira temporada e por John Davey nas duas seguintes, o herói praticava nela uma espécie de justiça itinerante ao viajar através dos EUA para defender os fracos e oprimidos.


Capa da edição DVD de Adventures of Captain Marvel (cima)
e os dois atores que encarnaram o herói na série televisiva
dos anos 70.
Ainda no pequeno ecrã, pouco tempo depois do cancelamento da sua série, o Capitão Marvel (agora encarnado por Garret Craig) seria um dos super-heróis da DC a participar em Legends of the Super-Heroes, paródia de baixo orçamento em dois episódios produzida em 1979 pelos estúdios Hanna-Barbera.
No campo da animação, além das suas numerosas participações em filmes e séries com a chancela da Warner, o Capitão Marvel teve em Shazam! um dos pontos mais altos da sua carreira audiovisual. Sob o selo da Filmation e emitida pela NBC entre 1981 e 1982, esta série animada representou uma fidelíssima adaptação do imaginário do herói, onde não faltaram personagens emblemáticas como a Família Marvel e o Doutor Sivana.

A Família Marvel reunida em Shazam! (1981-82).
Ao atribuir-lhe um módico 50º lugar na sua lista dos melhores super-heróis de todos os tempos, a equipa do site IGN classificou o Capitão Marvel como "um lembrete duradouro de uma época de maior simplicidade". Definição igualmente lisonjeira consta na plataforma de entretenimento UGO Networks: "No seu melhor, o Capitão Marvel foi sempre um Superman com um sentido de humor irresistível."
Irresistível continua a ser, de facto, o fascínio que este magnífico expoente da Idade do Ouro dos comics continua a exercer nos fãs. Sobretudo entre aqueles que, como eu, tiveram uma infância mais divertida por conta das  mirabolantes aventuras do "Capitão Fraldinha" - nas imortais palavras de Guy Gardner durante a fase cómica da Liga da Justiça.

Um herói à prova de bala e de melancolia.





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

FÁBRICA DE MITOS: FAWCETT COMICS



  Antes de ter a sua luz roubada pelas manigâncias de uma rival ofuscada, foi astro-rei na constelação de editoras cuja cintilação dourou os primórdios da indústria dos quadradinhos. Vítima do próprio sucesso e da cobiça alheia, a monumentalidade do seu espólio continua a fascinar os aficionados da 9ª Arte.

Preâmbulo

Por contraste com o panorama atual do mercado norte-americano de quadradinhos, sufocado pela hegemonia da Marvel e da DC, no excitante período que os historiadores da 9ª Arte convencionaram designar Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950), uma pletora de editoras disputavam entre si as preferências dos leitores. De igual modo, conquanto fosse o mais popular à época, o género super-heroico era tão-somente um dos muitos que, mês após mês, faziam as delícias de miúdos e graúdos.
Fiction House, Quality Comics*, Timely Comics e National Comics (estas últimas, antepassadas da Marvel e da DC, respetivamente) foram alguns dos expoentes criativos que, em contraciclo com a Grande Depressão, mais contribuíram para o desenvolvimento da incipiente indústria dos comics.
Nesse firmamento reluzente havia, no entanto, uma estrela a brilhar com maior intensidade do que as restantes, ao ponto de ofuscá-las. Se muitas das suas congéneres acabariam, eventualmente, por soçobrar nas borrascas de um mercado volátil, a Fawcett Comics foi, ironicamente, vítima do próprio sucesso.


Super-heróis, contos policiais e romances adolescentes
 eram três dos  géneros mais apreciados
 na Idade de Ouro da banda desenhada.
Como mais adiante se perceberá, essa não seria, porém, a única ironia a marcar a fulgurante trajetória dessa lendária companhia que conquistou uma legião de fãs e deu ao mundo um dos seus mais formidáveis e carismáticos heróis: o Capitão Marvel (vulgo Shazam).
Acusado de ser um plágio do Superman, o Mortal Mais Poderoso da Terra estaria no epicentro de uma longa e rocambolesca batalha jurídica cujo desfecho macularia indelevelmente essa página debruada a ouro da história da 9ª Arte. Uma página que encerra ainda inúmeros segredos e mistérios por desvelar. Sobre os quais, na minha qualidade de arqueólogo amador, aqui vou procurando derramar alguma luz.
Aperte o cinto, caro leitor, pois este artigo será o seu passaporte para mais uma emocionante jornada ao passado. Prepare-se para revisitar uma época de maior inocência e glamour em que as fábricas de mitos, alimentadas apenas pela imaginação dos seus obreiros, laboravam a todo o vapor, trucidando por vezes sonhos e sonhadores.

Reveses da fortuna

A fascinante história da Fawcett Comics começou a ser escrita quase um século atrás. Mais precisamente, em 1919. Nesse ano, um oficial veterano da I Guerra Mundial chamado Wilford Hamilton Fawcett (carinhosamente apodado de "Capitão Billy" pelos seus antigos camaradas de armas) regressou ao seu Minnesota natal para trabalhar como repórter policial num tabloide de Minneapolis. Biscate temporário que exerceu apenas até reunir as condições necessárias à abertura do próprio negócio.
Ambicioso, Wilford pretendia tirar proveito da sua experiência prévia com o boletim militar Stars and Stripes, no qual colaborara como redator durante os anos em que fora um G.I. Joe. Usando essa publicação como modelo, em outubro de 1919 o futuro patriarca do poderoso clã Fawcett lançou o icónico Captain Billy's Whiz Bang. Um almanaque humorístico recheado de anedotas e cartunes satíricos, cujo título combinava a alcunha castrense do seu autor com a designação informal de um projétil de artilharia de pequeno calibre muito utilizado pelo Exército estadunidense durante a Grande Guerra.
Destinado sobretudo a ex-combatentes e viajantes, Captain Billy's Whiz Bang depressa se converteria num fenómeno de sucesso a nível mundial. Chegando a ter, no seu auge, uma circulação mensal de 425 mil exemplares.


Wilford Fawcett (cima)
e o seu Captain Billy's Whiz Bang.
Estava assim colocada a primeira pedra de um vasto império editorial que abrangia revistas, magazines e livros de bolso. Ao longo das duas décadas subsequentes, a Fawcett Publications prosperaria,  fazendo do seu líder uma das personalidades mais abastadas e influentes da sociedade norte-americana.
O bom e velho Capitão Billy não viveria, contudo, tempo suficiente para testemunhar os reveses da fortuna da sua companhia.
Subsidiária da Fawcett Publications, a Fawcett Comics foi fundada em finais de 1940, escassos meses após o falecimento de Wilford, em fevereiro desse mesmo ano. Empenhados em honrar o legado paterno, os quatro filhos do fundador prosseguiram a estratégia de expansão por ele iniciada na década anterior, que, logo em 1934, motivara a transferência da sede do conglomerada do Minnesota para Nova Iorque.
Atento à onda de euforia em redor dos super-heróis que, por aqueles dias, varria os EUA de costa a costa, ainda em 1939, Roscoe Kent Fawcett confiara a dois dos seus colaboradores a missão de conceberem uma personagem com esse perfil. "Deem-me um Superman! Mas façam dele um garoto de 10 ou 12 anos!", exigiu o benjamim do clã, dando assim o mote para o ingresso da Fawcett Comics no fervilhante mercados dos quadradinhos.
Seguindo à risca as orientações fornecidas pelo patrão, o escritor Bill Parker e o ilustrador Charles Clarence Beck criaram um pastiche do Superman (lançado cerca de um ano antes pela National Comics), com essa notável originalidade que se revelaria crucial para o seu êxito: em vez de um adulto, o herói tinha como alter-ego um pré-adolescente chamado Billy Batson.
Surtindo o efeito desejado, esse elemento inovador fomentaria um sentimento de identificação entre os leitores desse segmento etário - que os estudos de mercado apontavam como predominante na audiência das histórias com super-heróis - e a novel personagem.

Em articulação com o escritor Bill Parker,
C.C. Beck foi um dos "pais" do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Não obstante a sua estreia oficial remontar a fevereiro de 1940, nas páginas de Whiz Comics nº2, o Capitão Marvel (Captain Marvel, no original) protagonizara, poucos meses antes, o único volume produzido de Thrill Comics. Ainda um protótipo, nessa sua primeira aparição oficiosa, o herói atendia pelo nome de Captain Thunder - nomenclatura que seria fugazmente recuperada em 1974, aquando da sua incorporação no Universo DC.
Humor e fantasia foram os dois principais ingredientes inclusos na receita para o sucesso quase instantâneo do Capitão Marvel. Divertidas, as suas historietas - mormente quando passaram a sair da genial pena de Otto Binder**- tinham o condão de cativar leitores de todas as idades. À medida que crescia a sua popularidade, um só título deixou de ser suficiente para acomodá-las. Assim, ao longo de toda a Idade do Ouro, o Mortal Mais Poderoso da Terra desdobrou-se por Captain Marvel Adventures, Master Comics, America's Greatest Comics e, claro, pela clássica Whiz Comics.


A estreia do Capitão Marvel deu-se em Whiz Comics nº2 (1940).
A reboque do retumbante êxito da sua personagem de charneira, a Fawcett Comics não demorou a lançar uma igualmente bem-sucedida franquia. Reunindo todos os heróis detentores dos poderes concedidos pelo Mago Shazam, a Família Marvel era composta por Capitão Marvel Jr. (que teve em Elvis Presley o seu fã nº1), Mary Marvel, Tio Marvel, Tenentes Marvel e até um patusco Coelho Marvel de sua graça Hoppy (batizado de Juca, no Brasil).

Família Marvel, um clã sob o signo do sucesso.
Pese embora tivesse no Capitão Marvel o seu indisputado campeão de vendas - em meados da década de 1940, Adventures of Captain Marvel tinha uma circulação média mensal de 1,4 milhões de exemplares - o contingente super-heroico da Fawcett Comics não se restringia à Família Marvel. Personagens como Captain Midnight, Bulletman, Nyoka, the Jungle Girl e Ibis, the Invincible granjearam também apreciável sucesso e notoriedade durante o mesmo período.
Era de, facto, no ecletismo do seu cardápio editorial que a Fawcett Comics tinha a sua pedra angular. Contrariamente ao que se verificou em algumas das suas concorrentes, a forte aposta nos super-heróis em momento algum foi feita em prejuízo de outros géneros igualmente populares à época.
Histórias de guerra, Westerns e contos de terror ajudaram também a alavancar as vendas da editora para patamares invejáveis. Proeza a que não foi decerto alheia a superior qualidade do seu capital humano.





Três outros títulos emblemáticos
da Fawcett Comics.
Até à extinção da Fawcett Comics em 1953 - ditada, em idêntica medida, pela sua derrota na batalha judicial que a vinha opondo à National Comics e pelo acentuado declínio do género super-heroico no pós-guerra - por lá desfilaram nomes que se tornariam lendas vivas da 9ª Arte. Além dos já citados Otto Binder e C.C. Beck, também Jack Kirby, Joe Simon e George Tuska fizeram parte do escol de escritores e artistas cujo virtuosismo ajudou a fazer da Fawcett Comics uma referência incontornável na história da banda desenhada.
Apesar da glória efémera da Fawcett Comics, o tempo e os fãs, esses juízes supremos, encarregaram-se de lhe fazer a justiça que os tribunais lhe sonegaram. O que não impediu, ainda assim, que algumas das suas criações mais admiráveis caíssem num imerecido esquecimento, ou que fossem parar às mãos de quem sempre as cobiçara.
Através da leitura do texto seguinte, ficarão a conhecer os meandros de um intrincado processo jurídico que ainda hoje suscita controvérsia. E que, pelas suas repercussões, se reveste de suma importância no estudo da Idade de Ouro dos quadradinhos.

«J'accuse!»

Menos de dois anos decorridos sobre o seu debute, o Capitão Marvel era, como já vimos, a coqueluche da Fawcett Comics. Estatuto tanto mais robustecido pelo facto de, logo em 1941, se ter tornado o primeiro super-herói a ser adaptado ao grande ecrã.
Protagonizado por Tom Tyler (que, anos mais tarde, interpretaria também o Fantasma) e produzido pela Republic Pictures, o folhetim de 12 episódios a preto branco Adventures of Captain Marvel atraiu milhões de espectadores às salas de cinema. Objeto de culto até aos dias de hoje, constitui também uma peça essencial na memorabilia da Idade do Ouro.
Mercê das suas cifras astronómicas, a meio da década de 1940, o Capitão Marvel era não apenas o Mortal Mais Poderoso da Terra mas também o super-herói mais popular em terras do Tio Sam. Façanha que fazia dele o epítome da pujança de uma indústria que parecia adejar sobre a conjuntura económica adversa decorrente da Grande Depressão.
De facto, à medida que a sombra do Capitão Marvel se agigantava, eram muitos os seus rivais que se eclipsavam. Entre eles, a pièce de résistance da National Comics. Mais forte do que uma locomotiva e mais rápido do que uma bala, nem o Superman conseguia travar a meteórica ascensão do Mortal Mais Poderoso da Terra. Acabando mesmo destronado por ele no pódio da popularidade.
O futuro adivinhava-se risonho
 para o Capitão Marvel e o pequeno Billy Batson.
Pondo em prática o velho aforismo de que o ataque é a melhor defesa, a National Comics intentou judicialmente contra a Fawcett Comics, acusando-a de ter plagiado o seu campeão de vendas.
Importa clarificar, a este propósito, que o Capitão Marvel não foi o primeiro super-herói (tão-pouco a primeira personagem da Fawcett Comics) a ser visado por uma acusação desse cariz por parte da National Comics.
Com efeito, em 1939 a Detective Comics e a sua associada Superman Inc. (de cuja fusão resultaria mais tarde a National Comics) haviam processado a Fox Publications por plágio. Em causa esteve Wonder Man, criação de Will Eisner nesse mesmo ano que, alegadamente, emulava o conceito desenvolvido por Jerry Siegel e Joe Shuster. Essa seria, aliás, a primeira infração de copyright documentada na história da 9ª Arte. À luz desse precedente, a National Comics levaria a cabo, daí em diante, uma vigorosa defesa das suas propriedades intelectuais.

Wonder Man foi o primeiro plágio reconhecido do Superman.
No ano seguinte seria a vez de Master Man - recém-licenciado pela Fawcett Comics - ter as suas aventuras prematuramente interrompidas por ordem judicial.  Num caso como no outro, os tribunais deram provimento às acusações de plágio apresentadas pela National Comics, obrigando desse modo as referidas editoras a suspenderem de imediato a publicação das personagens transgressoras.
Para isso muito contribuiu a circunstância de, em bom rigor, ninguém saber definir com precisão o conceito de super-herói. No limite, qualquer justiceiro fantasiado poderia ser considerado uma cópia deliberada do Superman, considerado, para todos os efeitos, o arquétipo super-heroico. Isto apesar de algumas das suas idiossincrasias definidoras serem preexistentes em diversas personagens emanadas da cultura pulp. À guisa de exemplo, tal como o Homem de Aço, também o Fantasma ou o Besouro Verde possuíam identidades secretas e usavam trajes coloridos para combater o crime e salvar inocentes.
Face à ausência de melhor critério, a aferição do original e da presumível contrafação consistiu simplesmente na comparação básica. Entre as similaridades detetadas entre o Superman e o Capitão Marvel destacava-se, por exemplo, o poder de voo comum a ambos.
Sucede que, na verdade, o Homem de Aço adquirira essa capacidade já após o início do processo - até aí, limitava-se a pular bem alto. Verificando-se o mesmo no que tangia à existência de um cientista careca como seu arqui-inimigo (o Doutor Sivana precedeu Lex Luthor), assim como à introdução do Superboy - contraparte juvenil do Superman surgida em resposta ao Capitão Marvel Jr.
A origem mágica dos poderes do Capitão Marvel e a ausência de um interesse amoroso nas suas histórias serviu, em contrapartida, para diferenciá-lo do Último Filho de Krypton. Que já por essa altura namoriscava com Lois Lane, a mais afoita das repórteres. Profissão comum, de resto, a Clark Kent e Billy Batson - identidades civis, respetivamente, do Superman e do Capitão Marvel.

Plágio ou mera semelhança?
Conforme se percebe, eram, pois, quase tantas as semelhanças quanto as diferenças entre as duas personagens. O que, num primeiro momento, motivaria uma sentença surpreendente.
Malgrado o zelo demonstrado relativamente à sua propriedade intelectual, a National Comics seria, ironicamente, vítima do seu descaso. Ficou comprovado em tribunal que várias publicações do Superman tinham sido lançadas sem acautelar os respetivos direitos de licenciamento.
Numa sentença da qual nem o próprio Rei Salomão desdenharia, o juiz considerou que o Capitão Marvel era, efetivamente, um plágio do Superman, mas que a National Comics também havia sido negligente na salvaguarda da sua personagem.
Ao não ser obrigada a cessar de imediato a publicação da sua personagem, a Fawcett Comics saiu, para todos os efeitos, vencedora da primeira batalha de uma guerra jurídica que se prolongaria por doze anos.
Inconformada com o veredito desfavorável, a National Comics recorreu para um tribunal de segunda instância. Após consecutivas reviravoltas, estipulou-se por fim que cada uma das editoras deveria proceder a uma meticulosa comparação.
No entendimento do juiz, só assim se poderia averiguar objetivamente o escopo do suposto plágio. Significando isto que, na prática, haveria necessidade de comparar e justapor cada quadradinho passível de corroborá-lo ou refutá-lo.

Capitão Marvel versus Superman:
um confronto titânico iniciado na barra dos tribunais
e que continua sem vencedor definido.
Antevendo uma longa e dispendiosa litigância - que, no melhor dos cenários, resultaria numa vitória pírrica para qualquer uma das partes envolvidas - a Fawcett Comics preferiu negociar um acordo extrajudicial com a National Comics. Na base dessa decisão esteve o significativo decréscimo de vendas dos títulos estrelados pelo Capitão Marvel. Consequência, essencialmente, da fracassada tentativa de conciliar as suas histórias com elementos retirados dos contos de terror, subtraindo dessa forma a diversão que as haviam tornado tão populares.
Fechados os termos do acordo entre as duas licenciadoras, a Fawcett Comics comprometeu-se a pagar uma choruda indemnização à rival - 400 mil dólares - e a extinguir a sua linha de super-heróis com efeitos imediatos. Ficando, contudo, desobrigada de assumir publicamente o plágio que de que era acusada.
Salvo pelo Coelho Marvel, cujos direitos de publicação haviam sido entretanto adquiridos pela Charlton Comics, as restantes personagens da Fawcett Comics ficaram presas num limbo. Situação da qual a Marvel Comics tiraria proveito em 1967 ao registar o seu próprio Capitão Marvel.
Quando, em 1972, a DC Comics adquiriu os direitos sobre as personagens outrora propriedade da Fawcett Comics, viu-se desse modo obrigada a renomear o Mortal Mais Poderoso da Terra. Após várias propostas que não colheram, em 1987 o herói passaria a ser oficialmente denominado Shazam. Sem, contudo, jamais conseguir recuperar o seu fulgor de outrora que fizera dele um ídolo de multidões e um ícone da cultura popular.
Mas isso são contas de outro rosário a serem desfiadas num próximo artigo da minha lavra...

In Memoriam: Fawcett Comics (1940-1953).


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/07/eternos-otto-binder-1911-1974.html


Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, executou a belíssima composição gráfica que serve de ilustração principal ao presente artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.