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sábado, 13 de janeiro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «O HOMEM DE AÇO»


  Nesta aclamada reinterpretação da sua origem com o cunho de John Byrne, o Último Filho de Krypton surgiu mais humanizado do que nunca. Uma visão dessacralizadora  de um mito intemporal que aliciou toda uma nova safra de leitores. Mas que, mesmo expurgada das propostas mais arrojadas do seu autor, não escapou à controvérsia.

Título original: The Man of Steel
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Outubro a dezembro de 1986
Argumento e arte: John Byrne
Categoria: Minissérie em 6 edições quinzenais
Protagonistas: Clark Kent/Superman, Lana Lang, Lois Lane e Lex Luthor 
Coadjuvantes: Jor-El, Lara Lor-Van, Jonathan Kent, Martha Kent, Batman, Bizarro, Perry White, Jimmy Olsen, Lucy Lane, Magpie, Kelex e Kelor
Cenários: Krypton, Smallville, Metrópolis, Gotham City e Hong Kong


Nos EUA, The Man of Steel nº1 foi lançado
 com duas capas variantes com rácios de distribuição equivalentes.

Edições em Português

A primeira versão traduzida para a língua de Camões (embora com sotaque tropical) de The Man of Steel foi lançada pela brasileira Abril. Entre agosto de 1987 e janeiro de 1988, as seis partes da minissérie foram publicadas mensalmente nos números 38 a 43 da primeira série de Super-Homem. Volvidos quatro anos, em maio de 1992, a mesma editora republicaria a saga num único volume em Clássicos DC nº1, usando pela primeira vez uma das capas variantes de Man of Steel nº1.
Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século, contabilizam-se já quatro reedições da saga sob os auspícios de três editoras diferentes. A saber: Super-Homem - O Homem de Aço (Mythos, dezembro de 2006); Coleção DC 70 Anos nº1 e Coleção DC 75 Anos nº4 (ambas editadas pela Panini Comics em 2008 e 2011, respetivamente); por fim, em dezembro de 2015, seria a vez da Eaglemoss republicar a versão integral de The Man of Steel no oitavo volume de DC Comics - Coleção de Graphic Novels .
Deste lado do Atlântico, The Man of Steel foi compilada pela primeira vez no início de 2013, inserida na segunda série de Super-Heróis DC lançada nesse ano pela Levoir. Com a originalidade de a capa escolhida ter sido desenhada não por John Byrne, mas por Jerry Ordway.




De cima para baixo:
dois dos volumes antológicos editados no Brasil
 com os selos da Abril e da Mythos
e a antologia lançada pela Levoir portuguesa (com capa de Jerry Ordway).

Antecedentes e contexto

Produto da imaginação de dois jovens estudantes do secundário residentes em Cleveland - Jerry Siegel e Joe Shuster - o Superman foi criado em meados de 1933 para ser o protagonista de uma tira de banda desenhada a ser publicada diariamente num jornal. Em vez disso, porém, o herói só seria apresentado ao mundo cinco anos depois, em junho de 1938, nas páginas de Action Comics nº1.
Nessa edição histórica com a chancela da National Allied Publications - antepassada da DC -, os leitores ficaram a conhecer de forma pouco detalhada a origem do Último Filho de Krypton, resumida numa só página.
Apesar dessa abordagem de raspão às suas raízes kryptonianas, o Homem de Aço (assim alcunhado devido à sua invulnerabilidade) granjeou de imediato enorme popularidade. No verão de 1939 tornar-se-ia mesmo a primeira personagem a sustentar dois títulos em simultâneo - a Action Comics somou-se entretanto Superman.
Ao longo das décadas seguintes, a história do Superman foi sendo expandida de molde a acomodar novas tramas e personagens. Após a saída dos seus criadores, outros autores foram adicionando sucessivamente novos elementos à mitologia daquele que é considerado o primeiro dos super-heróis, e cujo debute sinalizou o dealbar da chamada Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950).

A estreia de Superman em Action Comics nº1 sinalizou também
 o início da chamada Idade de Ouro da banda desenhada.
No início de 1945, por exemplo, foram introduzidas as aventuras de Superboy em Smallville, apresentando assim uma versão adolescente do  Homem de Aço com as suas capacidades totalmente desenvolvidas. Com o surgimento da Supergirl, em 1959, o Superman deixou, objetivamente, de ser o último dos kryptonianos.
Inevitavelmente, estes elementos inovadores não tardaram a tornar-se conflituantes com outros que haviam sido explorados em histórias anteriores, sobretudo naquelas que coincidiram com a transição da Idade do Ouro para a Idade da Prata.
Nessa fase surgiram novos heróis e versões modernizadas de outros preexistentes (casos, por exemplo, de Jay Garrick e Barry Allen, os dois homens a adotar a persona do Flash no período citado), aos quais o Homem de Aço se associou para fundar a Liga da Justiça da América.
Sucede que, a par do Batman e da Mulher-Maravilha, o Superman era uma das três personagens da DC cuja publicação permanecia ininterrupta desde a Idade do Ouro. Por conseguinte, a sua participação nas histórias da Sociedade da Justiça da América ambientadas nessa época expunham uma série de incoerências. Para as quais os editores da DC encontrariam uma solução engenhosa mas que, a médio prazo, se revelaria um autêntico quebra-cabeças.
Em setembro de 1961, o número 123 de The Flash incluía no seu alinhamento uma história que, além de emblemática nos anais da 9ª Arte, mudaria para sempre a continuidade da Editora das Lendas. Sugestivamente intitulada Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos), mostrava o primeiro encontro entre o Flash da Idade do Ouro e a sua contraparte da Idade da Prata.
A narrativa protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras distintas mais não era, no fundo, do que a representação ficcional do postulado da mecânica quântica que propõe a existência de universos paralelos. Com base nessa premissa, estabeleceu-se que as personagens surgidas durante a Idade do Ouro habitariam, de ora em diante, uma segunda Terra em tudo idêntica àquela que servia de lar às suas versões modernas.

A história protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras
 que esteve na origem do intrincado Multiverso DC.
Estavam assim lançadas as bases do Multiverso DC que, além de ilimitados exercícios de imaginação, possibilitaria a coexistência editorial e cronológica de personagens de épocas diferentes. Era, no entanto, imperativo esclarecer quais as histórias que pertenciam ao cânone estabelecido para cada uma delas. A título exemplificativo, em 1969 os leitores ficaram a saber que o Superman surgido em Action Comics nº1 era na verdade Kal-L, uma personagem distinta do Kal-El da Terra 1.
Embora inicialmente bem recebido pelos leitores, com o tempo o Multiverso tornar-se-ia demasiado confuso, a ponto de afastá-los das publicações da Editora das Lendas.
Perante este impacto negativo nas suas tiragens, a DC entendeu por bem tomar medidas drásticas para reverter a situação. Medidas que, grosso modo, se resumiram à concentração de todos os seus títulos e conceitos num único universo coeso e compartilhado. Para que isso fosse possível, seria no entanto necessário encerrar tudo o que vinha sendo publicado e voltar ao ponto de partida.
No encalço desse objetivo, em 1985 - ano em que a DC comemorava meio século de existência - foi lançada Crisis on Infinite Earths (Crise nas Infinitas Terras)*, evento de amplas e duradouras repercussões que culminou com a obliteração do Multiverso, abrindo assim espaço para a emergência de uma nova continuidade.

Um dos dramáticos  capítulos da saga que revolucionou
 a continuidade da Editora das Lendas.
Em vez de múltiplas Terras paralelas habitadas, não raro, por declinações do mesmo conceito, passaria doravante a existir somente uma Nova Terra e uma versão unívoca de cada personagem.
Na esteira dessa ambiciosa iniciativa, as figuras de proa da Editora das Lendas tiveram as suas origens recontadas à luz dos tempos modernos. Foi, pois, nesse contexto de revitalização que, em concomitância com outras obras análogas como Batman: Year One ou Green Lantern: Emerald Dawn, foi lançado The Man of Steel. Projeto igualmente ambicioso que vinha, contudo, sendo cogitado há vários anos, e cuja produção encerra até hoje alguns segredos sobre os quais procurarei derramar alguma luz no texto seguinte.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/10/do-fundo-do-bau-crise-nas-infinitas.html

Produção

A acentuar-se, de mês para mês, a curva descendente no gráfico de vendas dos títulos estrelados pelo Homem de Aço, nos anos que precederam Crise nas Infinitas Terras os editores da DC começaram a discutir entre si a possibilidade de levar a cabo uma profunda reformulação da personagem. Convidando, para esse efeito, vários escritores consagrados a apresentarem as suas propostas com vista à revitalização daquele que era o maior ativo da companhia. Alan Moore, Frank Miller e Marv Wolfman* foram alguns dos pesos-pesados que aceitaram o repto.

Evolução das vendas da revista Superman entre 1965 e 1987.

A despeito dos diferentes ângulos de abordagem, todos eles concordavam na necessidade de uma reestruturação da continuidade do Superman. A única voz dissonante era a de Cary Bates. Aquele que era na altura o principal argumentista do Último Filho de Krypton preconizava, ao invés, uma evolução na continuidade.
A revolução de veludo sugerida por Bates colidia, no entanto, com as teses radicais perfilhadas por Marv Wolfman. Habituado a sacudir o status quo, o arquiteto de Crise nas Infinitas Terras considerava premente eliminar Superboy, reclicar Lex Luthor, diminuir os poderes do Superman e fazer dele o último dos kryptonianos.
Ao inteirar-se da saída iminente de John Byrne** da arquirrival Marvel Comics, Marv Wolfman tê-lo-á incentivado a apresentar a sua visão do Superman. Contudo, o envolvimento do versátil autor britânico naturalizado canadiano no projeto não é totalmente claro.
Anos mais tarde - já depois de se ter incompatibilizado com Wolfman - Byrne afirmou ter partido de Dick Giordano - um dos editores da DC e arte-finalista de The Man of Steel - o convite para a sua participação no processo de revitalização do Homem de Aço.
Certo é que, num primeiro momento, a sintonia de ideias e objetivos entre Byrne e Wolfman era quase total. Divergindo ambos apenas na redefinição de Lex Luthor, com a visão do primeiro a prevalecer sobre a do segundo (ver Mitologia Retocada).

Recém-saído da Marvel,
 John Byrne foi o eleito para reformular o maior ícone da DC.
Com a irreverência que sempre o caracterizou, Byrne apresentou à DC aquilo a que chamou "Lista de Exigências Indispensáveis", espécie de caderno de encargos onde elencava quais as idiossincrasias do Superman que ele entendia carecerem de revisão. A saber: desconsiderar a existência de outros sobreviventes de Krypton - Supergirl, Krypto, etc. - e de elementos excessivamente fantásticos, como a Fortaleza da Solidão ou a cidade engarrafada de Kandor.
Apesar de arrojadas, as propostas de Byrne foram quase integralmente avalizadas pela cúpula da Editora das Lendas. Segundo consta, apenas uma delas terá sido deixada de fora.
Numa entrevista realizada em 2002, o autor de The Man of Steel revelou qual foi a única exceção: «Um dos problemas que percebi que a minha versão do "único sobrevivente de Krypton" suscitaria era como ficaríamos a saber que a kryptonita poderia matar o Superman? Quero dizer, claro que todos nós sabemos que  a kryptonita pode matá-lo, mas como tornar isso uma evidência naquele contexto específico? A minha solução passaria por colocar Lara, grávida de Kal-El, na nave em direção à Terra. Ao chegar, ela daria à luz e o seu bebé ganharia gradualmente os seus poderes. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, em consequência da sua exposição a ele, morreria vítima de envenenamento radioativo.»
Jenette Khan, à época presidente-executiva da DC, vetaria essa ideia por considerá-la excessivamente afastada do conceito primordial. Em alternativa, Khan propôs que a kryptonita fosse descrita como sendo um elemento radioativo responsável pela morte de kryptonianos antes mesmo da explosão do planeta. Byrne acabaria por reconhecer que essa sugestão era melhor do que sua ideia original e implementá-la-ia na minissérie.
A acreditar no relato de Jim Shooter, antigo editor da Marvel e uma das primeiras pessoas a quem Byrne deu a conhecer as linhas-mestras do seu plano de revitalização do Superman, esta não terá sido, porém, a única proposta controversa rejeitada pela DC. Segundo Shooter, Byrne pretendia igualmente retratar Lois Lane como a concubina de Lex Luthor a quem trocaria pelo Homem de Aço.
Ademais, a caracterização de Krypton como um planeta frio e estéril fora sugerida por Dick Giordano (muito provavelmente influenciado pela estética de Superman, The Movie), por forma  a que os leitores percebessem desde a primeira página que tudo seria diferente.

Em The Man of Steel, Krypton surge como um mundo inóspito
 onde pontifica uma sociedade intelectualizada e estéril.

Muito longe, portanto, do local aprazível descrito no passado.
Inicialmente, Byrne não pretendia reconfigurar tanto a morfologia de Krypton e a têmpera dos pais biológicos do Superman; apenas retratá-los de forma mais futurista. Mas, ao questionar-se acerca dos elementos kryptonianos que mais o incomodavam, percebeu que aquilo que lhe parecia mais prejudicial à história era o carinho (se não mesmo um exacerbado patriotismo) com o que o Superman se referia ao seu planeta natal. Razão pela qual Byrne se empenhou em retratar Krypton como um local pouco acolhedor. Nas suas palavras, "um sítio que, no final das contas, o Superman ficaria feliz em deixar."
O estatuto de imigrante de Byrne e a sua identificação com a cultura do respetivo país de acolhimento foi determinante para a sua reinterpretação da origem do Superman. O escritor defendia que esta deveria ser contada como uma típica história americana de sucesso; a do imigrante que triunfou numa terra que não era a sua, contribuindo dessa forma para o seu engrandecimento.
Em linha com esta abordagem, Byrne percebeu que teria de rever também a relação de Clark Kent com Smallville. O que implicaria uma nova dinâmica com Lana Lang, a primeira namorada do herói. Byrne tinha a intenção de manter Lana como interesse romântico do Homem de Aço, mesmo após o seu estabelecimento em Metrópolis. Porém, o "triângulo amoroso" entre Clark, Lois e o Superman era tido como inviolável pela DC.
Assim, para justificar a posição de maior destaque que Lana assumia na vida e na mitologia do herói, Byrne tornou-a conhecedora dos superpoderes de Clark antes da sua transformação em Superman (vide texto seguinte).

Primeiro amor de Clark Kent, em The Man of Steel Lana Lang
 foi também uma das poucas pessoas conhecedoras do seu segredo.
*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Enredo

A milhares de anos-luz da Terra, Krypton - um planeta tecnologicamente evoluído mas emocionalmente estéril onde a reprodução por métodos naturais faz parte de um passado remoto -enfrenta uma ameaça existencial. Jor-El, um dos seus mais proeminentes cientistas, descobriu enfim a origem de uma misteriosa moléstia que dizimara já milhares dos seus compatriotas.
Devido à enorme pressão exercida sobre o núcleo do planeta, vários elementos químicos preexistentes tinham-se fundido num novo metal altamente radioativo. A exposição à kryptonita era, pois,  potencialmente fatal para os kryptonianos.
Havia, contudo, uma maior fonte de angústia para Jor-El: o aumento exponencial da pressão tornara o núcleo de Krypton instável ao ponto de poder a qualquer momento desencadear uma reação geológica em cadeia que resultaria na implosão do planeta.
Os desesperados alertas de Jor-El junto do Conselho Científico haviam sido no entanto acolhidos com ceticismo e desdém.
Ciente de que a contagem decrescente para o desastre era imparável, Jor-El pesquisara durante meses um planeta que pudesse abrigar o seu filho ainda em gestação. De entre as várias opções estudadas, a Terra prefigurava-se como a mais viável. Opinião que não era partilhada pela sua esposa, Lara Lor-Van, para quem a Terra era um mundo primitivo e hostil.
No entanto, seria mesmo para o nosso mundo que, minutos após a destruição de Krypton, Kal-El foi enviado a bordo de uma pequena espaçonave que o seu pai construíra em segredo.

Jor-El e Lara, os pais biológicos de Kal-El.
Dezoito anos mais tarde, em Smallville, pequena comunidade rural do Kansas, o jovem Clark Kent é o astro da equipa de futebol americano da sua escola. No final de mais um jogo ganho graças à sua extraordinária prestação dentro de campo, Clark é levado pelo seu pai de volta à quinta da família.
Lá chegados, Jonathan Kent revela ao filho o foguete espacial onde ele e a sua esposa, Martha, o haviam encontrado ainda bebé, e que permanecera escondido durante todo aquele tempo no celeiro da quinta.
Perante a incredulidade do filho, Jonathan explica também como, graças a um feliz acaso, naquele mesmo dia toda a região fora fustigada por uma violenta nevasca que isolou os três na quinta durante meses. Contingência que, uma vez dissipada a intempérie, permitiu que Clark fosse anunciado como o filho recém-nascido do casal.

Jonathan e Martha Kent, o casal de agricultores do Kansas
 que perfilharam um bebé vindo das estrelas.
À medida que, com o passar dos anos, Clark vai desenvolvendo poderes e habilidades sobre-humanos, a revelação da sua verdadeira origem fá-lo questionar o seu papel num mundo que, afinal, não é o dele.
Clark decide então abandonar Smallville para viajar ao redor do globo ao longo de sete anos. Período durante o qual interfere discretamente para prevenir vários crimes e catástrofes. Apesar dos relatos que começam a circular dando conta dos avistamentos de uma misteriosa figura voadora, Clark consegue preservar  o seu anonimato.
Tudo muda quando, durante as comemorações do 250º aniversário de Metrópolis, o vaivém espacial Constitution é abalroado em pleno voo por um pequeno avião. Perante a iminência do desastre, Clark  - misturado com a multidão que assistia ao pouso do vaivém - vê-se obrigado a alçar voo e a fazer uso da sua superforça para evitar o pior.
Assustado com a reação emotiva da multidão, Clark apressa-se a regressar à quinta da sua família. Onde, com a ajuda da mãe, elabora um vistoso traje que lhe servirá de disfarce sempre que precisar ajudar alguém. Escolhendo para pseudónimo a alcunha que lhe havia sido dada pela imprensa após a sua primeira aparição pública: Superman.

A confeção do traje e a escolha do símbolo do Superman.

Nas semanas seguintes o Superman realiza diversas intervenções espetaculares em Metrópolis, deixando os seus habitantes boquiabertos com as suas proezas.
Após "conseguir" a primeira entrevista exclusiva com o herói, Clark Kent é contratado como jornalista do Daily Planet. Aquela que é considerada a notícia do século rende-lhe a admiração dos colegas de redação e a rivalidade de Lois Lane, uma das mais respeitadas repórteres a nível nacional.
De visita a Gotham com a intenção de capturar o vigilante mascarado conhecido como Batman, o Superman acaba, todavia, surpreendido pela astúcia do Homem-Morcego. Após um tenso frente a frente, os dois concordam em deixar temporariamente de lado as suas divergências para deter Magpie, uma ladra excêntrica cujas ações haviam colocado dezenas de inocentes em perigo. Debelada a ameaça, o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas seguem rumos diferentes.
Certa noite, Clark e Lois comparecem a uma festa a bordo do iate de Lex Luthor, o empresário mais poderoso de Metrópolis e um dos três homens mais ricos do mundo. Durante o evento um grupo de terroristas toma de assalto a embarcação fazendo reféns todos os convivas.
Apesar do conhecimento prévio que tinha do ataque, Luthor, interessado em aferir as capacidades do Superman, ordenara à sua equipa de segurança que nada fizesse, a menos que o herói não aparecesse.
Como Luthor previra, o Superman surge no local e neutraliza rapidamente os terroristas. Quando o magnata, impressionado pela eficiência do herói, faz menção de entregar-lhe um cheque de 25 mil dólares, revela perante todos os presentes que sabia do ataque mas que nada fizera para impedi-lo por forma a poder testemunhar a ação da nova maravilha de Metrópolis.
Indignado com tamanha prepotência, o mayor da cidade - um dos convidados de honra da festa - nomeia o Superman "agente especial da Polícia" e ordena-lhe que prenda Luthor.
Libertado da prisão poucas horas volvidas, Luthor, humilhado e ressentido, confronta o Homem de Aço declarando-lhe a sua inimizade e jurando tudo fazer para o desacreditar e destruir. Promessa que quase consegue materializar quando, a seu pedido, um dos seus cientistas logra produzir um clone aparentemente perfeito do Superman a parti de uma amostra do ADN do herói.

Luthor jura vingança pela humilhação
 sofrida às mãos do Homem de Aço.
O plano só fracassa porque o processo de clonagem não levou em consideração a biologia extraterrestre do Superman. Em consequência dessa falha, a sua cópia genética é vítima de degeneração celular acelerada, convertendo-se numa monstruosidade irracional com um nível de poder equivalente ao do original.
Segue-se uma acirrada peleja entre o Superman e o seu bizarro oponente, que termina com este último reduzido a uma nuvem de partículas. Miraculosamente, essa chuva de partículas cura a cegueira de Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois por quem o monstro se enamorara.

Superman surpreendido pela força de Bizarro.
Clark regressa uma vez mais a Smallville após uma longa temporada em Metrópolis. Certa noite, é assombrado pelo "fantasma" de Jor-El (na verdade, um sofisticado holograma) que com ele tenta comunicar num idioma desconhecido. É através dessa perturbadora experiência que Clark toma finalmente consciência da sua origem kryptoniana. Revelação que deixa igualmente aturdidos os seus pais adotivos.
Esse não é, porém, o único choque a marcar o regresso de Clark à cidade onde cresceu. Lana Lang, a sua namorada dos tempos do liceu a quem revelara os seus poderes na véspera de partir para Metrópolis, exprime-lhe a sua mágoa por esse abandono e pelo fardo que carrega desde então.
Ambos os episódios levam Clark a abraçar ainda mais a sua humanidade sem, contudo, desvalorizar o seu legado kryptoniano. Carregando desse modo o peso de dois mundos sem que sinta verdadeiramente pertencer a qualquer um deles.

Filho de dois mundos,
 o Superman procura honrar ambos os legados que carrega.

.Mitologia retocada

O Homem de Aço não foi o único a ter a sua origem e personalidade retocadas por Byrne. O mesmo sucedeu com algumas das personagens clássicas das suas histórias. Esses novos elementos seriam, por sua vez, objeto de sucessivos revisionismos até perderem o seu estatuto canónico.
Recordemos, por isso, aquelas que foram as principais alterações inicialmente introduzidas à mitologia do Superman.

Clark Kent: No início da história é apresentado como um estudante do secundário totalmente alheado da sua origem extraterrestre e cuja popularidade resulta das suas proezas desportivas, em especial no futebol americano. Byrne inverteu desse modo a caracterização da personagem, fazendo com que Clark deixasse de ser o disfarce adotado pelo Superman aquando da sua mudança para Metrópolis. Significando isto que é agora o Superman quem serve de disfarce a Clark Kent para que este possa usar os seus poderes em público sem ser reconhecido. Poderes esses que foram consideravelmente diminuídos por Byrne, em especial a sua invulnerabilidade agora explicada pelo campo bioelétrico que envolve o corpo do herói. Byrne detalhou também a forma como o Sol amarelo da Terra lhe proporcionava superpoderes e como Clark recorria a um espelho e à sua visão de calor para se barbear;

Graças à minúcia de Byrne, ficámos pela primeira vez a conhecer
 o método usado pelo Superman para escanhoar o rosto.

Jonathan e Martha Kent: Por contraponto ao antigo cânone do herói, nesta nova versão os seus pais adotivos permanecem vivos quando ele atinge a idade adulta e principia a sua carreira como Superman, cujo uniforme é aliás costurado pela própria mãe;

Smallville: Byrne estabeleceu que a pequena cidade rural onde Clark passou a infância e juventude ficaria no estado do Kansas, e que Lana Lang - a sua primeira namorada - tinha conhecimento de que ele e o Superman eram a mesma pessoa;

Superboy: Em virtude de os poderes de Clark se terem desenvolvido por completo apenas no final da puberdade, a versão juvenil do Homem de Aço foi apagada da existência. Originando assim um paradoxo, uma vez que a formação da Legião dos Super-Heróis do século 30 fora inspirada pelas façanhas do Superboy (ver Impacto cultural);

Lois Lane: Definitivamente afastada do arquétipo de "donzela em apuros" (do qual se vinha, aliás, demarcando ainda durante o período pré-Crise nas Infinitas Terras), Lois é caracterizada como uma jornalista experiente e uma mulher independente dotada de grande carisma e inteligência;

Lois Lane,
uma mulher emancipada dos tempos modernos.

Lex Luthor: Despindo as roupagens de cientista louco que vinha usando há meio século, o eterno némesis do Homem de Aço foi redefinido como um poderoso e inescrupuloso magnata. Cujo enorme ascendente sobre o povo de Metrópolis é eclipsado pelo surgimento do Superman. Justificando-se desse modo a sua visceral animosidade em relação ao herói. Nas palavras de Byrne, este novo Luthor - cujo visual parece decalcado da sua contraparte cinematográfica interpretada, à época, por Gene Hackman - "é uma mistura de Ted Turner, Donald Trump e talvez até Satanás". Muito longe, portanto do vilão inconsequente da Idade da Prata e do Bronze que Byrne desprezava;

Batman: Uma das alterações mais significativas decorrentes de The Man of Steel consiste precisamente no relacionamento entre o guardião de Gotham e a maravilha de Metrópolis. Até então retratados como amigos, desde a Idade do Ouro que os dois heróis partilhavam uma revista mensal - World's Finest. No entanto, por conta dos seus métodos de trabalho distintos, passaram a encarar-se quase como adversários que se respeitavam mutuamente mas que se olhavam com desconfiança.

Impacto cultural

De 1986 a 2003 (ano em que foi lançado o arco Superman: Birthright), The Man of Steel foi a origem canónica do Homem de Aço. A reboque do seu apreciável sucesso, Byrne produziu três minisséries especiais que exploravam de forma mais aprofundada a nova mitologia do herói: The World of Krypton, The World of Smallville e The World of Metropolis foram originalmente publicadas entre dezembro de 1987 e novembro de 1988, assumindo-se como apêndices da narrativa original.
Paralelamente, a DC apostou em três títulos mensais protagonizadas pelo novo Homem de Aço: Superman, Action Comics e Adventures of Superman (este último com Marv Wolfman como argumentista). Neles, Byrne e Wolfman explanaram as alterações ao cânone do Superman decorrentes de The Man of Steel. As mais importantes das quais consistiam, nunca é demais recordar, no restabelecimento de Kal-El como único sobrevivente de Krypton e a supressão da sua carreira como Superboy.
Estas alterações tiveram, contudo, um forte impacto na Legião dos Super-Heróis, na medida em que fora o Superboy a inspirar a formação da equipa no século 30. Acrescia a isto o facto de, no período pré-Crise, a Supergirl ter sido também uma legionária. A eliminação das duas personagens tinha, por isso, originado um paradoxo que Byrne, de forma algo inábil, tentou corrigir.

No período pré-Crise, Superboy - e também Supergirl - eram
 membros de pleno direito da Legião dos Super-Heróis.
Para explicar o presumível desaparecimento do Superboy, Byrne escreveu uma história na qual introduziu o conceito de "universo compacto" (pocket universe, em inglês). Os leitores ficaram assim a saber que era, afinal, para essa espécie de realidade alternativa criada pelo Senhor do Tempo (um dos inimigos jurados da Legião dos Super-Heróis) que o grupo viajava sempre que regressava ao passado. O mesmo acontecendo quando o Superboy visitava o futuro. Servindo a existência desse "universo compacto" para explicar também a existência de uma variante da Supergirl. Que, em vez da prima kryptoniana do Superman, ressurgiu como uma criatura de protoplasma capaz de assumir diferentes formas.
Com a confusão instalada, em 1999, altura em que Eddie Berganza assumiu as funções de editor responsável pelas histórias do Superman, diversas personagens e conceitos que haviam sido suprimidos em The Man of Steel foram reincorporados na continuidade do herói, sem que contudo a obra de Byrne fosse desconsiderada. Entre as personagens resgatadas, incluía-se a verdadeira Supergirl.
Apesar destes imbróglios e controvérsias, o impacto de The Man of Steel fez-se sentir também noutros segmentos culturais. Em 1988, dois anos após a sua publicação, o estúdio Ruby-Spears produziu a série animada Superman aproveitando vários dos conceitos estabelecidos pela história de Byrne.
Também a série televisiva Lois and Clark: The New Adventures of Superman, estreada em 1993, incorporou no enredo muitos elementos emanados de The Man of Steel. A localização de Smallville no Kansas e o facto de os pais adotivos de Clark continuarem presentes na vida adulta do filho são alguns dos exemplos mais evidentes.

A série televisiva do Homem de Aço
 que fez furor nos anos 90
 foi fortemente influenciada por The Man of Steel.
Quase 30 anos após o seu lançamento, em 2013 os ecos de The Man of Steel também chegaram ao cinema. No filme epónimo dirigido por Zack Snyder, são detetáveis diversas influências da obra de Byrne, sobretudo no que ao legado kryptoniano do herói diz respeito.
Apesar da forte aclamação com que foi recebida, The Man of Steel arregimentou ferozes detratores. Os quais acusavam Byrne de não compreender a quinta-essência do Superman, desvirtuando-o ao ponto de deixá-lo irreconhecível.
Críticas que em nada beliscaram o valor de uma obra, cujo primeiro número vendeu meio milhão de exemplares (cifras que o Homem de Aço não alcançava desde a Idade do Ouro) e que, em 2012, os usuários da plataforma digital Comic Book Resources elegeram como uma das 25 melhores histórias do Superman de todos os tempos.

Apontamentos

*A mascote de Clark Kent na adolescência era um Cocker Spaniel chamado Rusty;
*Na equipa de futebol americano do liceu de Smallville, Clark alinhava com a camisola nº15;
*Apesar de ter sido concebido em Krypton através de métodos naturais, o nascimento de Kal-El coincidiu com a sua chegada à Terra. Este elemento, per si, constitui uma rutura com o cânone da personagem. Em todas as suas versões pregressas, o herói fora sempre enviado em bebé para o nosso planeta;
A chegada do bebé Kal-El à Terra
no interior de uma câmara de gestação kryptoniana.
*A data da destruição de Krypton pretendia coincidir com a da estreia do Superman em Action Comics nº1 (junho de 1938). Pormenor que só seria oficialmente estabelecido em Action Comics nº600 (maio de 1988);
*Em The Man of Steel nº1, Metrópolis celebra o seu 250º aniversário. Esta efeméride é, contudo, inconsistente com a informação providenciada por outras fontes. Algumas das quais apontam 1634 como o ano do estabelecimento dos primeiros colonos europeus no território indígena onde seriam lançados os alicerces da Cidade do Amanhã. Sugerindo, assim, que a sua fundação teria ocorrido um século antes da data indicada por Byrne;
*Antes do seu lançamento oficial, a minissérie recebera The Legend of Superman (A Lenda do Superman) como título provisório;
*O encontro do Homem de Aço com o Batman no terceiro volume da minissérie sugere um Cavaleiro das Trevas ainda em início de carreia e a operar à margem da Lei. O Homem-Morcego também não dispunha ainda do seu icónico Batmobile, conduzindo em vez dele um potente e sofisticado bólide desportivo equipado com um laboratório forense portátil. Ainda na mesma edição, Magpie mata um dos seus comparsas colocando-lhe uma barra de dinamite acesa na boca. A rábula Happy Birthday, dos Looney Tunes, serviu de inspiração a esta sequência;
*A capa de The Man of Steel nº 5 é a única a não apresentar uma personagem que parece fitar diretamente o leitor. Com efeito, Bizarro - que em momento algum é referenciado dessa forma na história - caminha de costas voltadas para quem tem a revista em mãos. Byrne recorreu a esse subterfúgio visual para metaforizar a natureza invertida da criatura, desde sempre descrita como uma duplicata assimétrica do Superman. A história em questão é, aliás, vagamente inspirada naquela que em Superboy nº68 (novembro de 1958) introduziu o vilão na mitologia do Homem de Aço. Com a diferença de que, na história original, o objeto da afeição de Bizarro não era Lucy Lane (a irmã mais nova de Lois Lane) mas uma mulher chamada apenas Melissa;
*Somente na ponta final da história os pais adotivos de Clark descobrem a origem alienígena do filho que, até esse momento, tinham assumido tratar-se de um humano aprimorado a fim de participar no programa espacial  secreto de uma qualquer potência estrangeira.

As seis capas originais da minissérie
 seguiam um padrão visual quebrado apenas pela do nº5.
Vale a pena ler?

Analisando The Man of Steel com a perspetiva concedida por mais de três décadas, é inegável o caráter datado de alguns dos elementos presentes na obra. Porém, como qualquer clássico, ela conserva intocado o seu apelo atemporal.
O grande mérito da história reside, a meu ver, na intenção dessacralizadora que lhe subjaz.  Quem leu algumas histórias do Superman dadas à estampa durante a Idade da Prata sabe quão próximo ele estava da omnipotência divina. Apesar de menos poderoso, este novo Superman nem por isso é menos heroico. Muito pelo contrário.
Ao vincar a humanidade do Último Filho de Krypton, Byrne colocou em evidência as suas fraquezas mas também a sua força moral. Aquela que possui alguém que, agraciado com poderes semidivinos, os coloca abnegadamente ao serviço da comunidade, devolvendo, de caminho, a esperança a um mundo que não é o seu. Isto ao mesmo tempo que aprende a lidar com o peso do legado que carrega enquanto último representante de uma civilização condenada. Sem mencionar o impacto negativo que o seu segredo causa em alguns dos seus entes mais queridos.
Diga-se o que se disser acerca desta reformulação do Homem de Aço, nunca antes a sua origem fora contada com tanta minúcia. Circunstância que, só por si, me leva a considerar The Man of Steel a versão definitiva de uma história tantas vezes revisitada. Atrevo-me mesmo a dizer que será a pièce de résitance de Byrne. Sobre a qual, malgrado a natureza testamentária da presente análise, muito mais haveria ainda para dizer.
A minha singela evocação desta obra incontornável na memorabilia do Homem de Aço configura, de resto, o primeiro de vários tributos que tenciono render ao herói dos heróis, no ano em que se comemora o seu 80º aniversário.
Mantenham-se sintonizados porque não vão certamente querer perder pitada do que está na calha...

A vitalidade de um octogenário
que continua a ser o ídolo de multidões.







sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: PINGUIM


  Antagonista clássico do Homem-Morcego, mantém com ele uma relação singular devido à sua poderosa influência no submundo de Gotham. Mais do que a sua figura esdrúxula, é a racionalidade das suas ações que faz dele uma ave rara entre a exótica fauna criminosa que aterroriza a cidade.

Denominação original: The Penguin 
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Bill Finger (história) e Bob Kane (arte conceptual)
Estreia: Detective Comics nº58 (dezembro de 1941)
Identidade civil: Oswald Chesterfield Cobblepot 
Local de nascimento: Gotham City
Parentes conhecidos: Sir Nigel Cobblepot (antepassado, falecido); Theodore Cobblepot (bisavô, falecido); Tucker e Miranda Cobblepot (pais, falecidos); Jason, William e Robert Cobblepot (irmãos, falecidos) e Ethan Cobblepot (filho)
Ocupação: Empresário e barão do crime 
Base operacional: Atuando tradicionalmente a partir de um sem-número de covis disseminados por Gotham City, o Pinguim tem hoje no Casino Icebergue (do qual é proprietário e que serve de fachada às suas atividade ilícitas) o seu glamoroso quartel-general.
Afiliações: Crime organizado de Gotham City, Liga da Injustiça, Esquadrão Suicida, Sociedade Secreta de Supervilões. Além das organizações citadas, manteve também uma duradoura parceria com o Joker, iniciada no final da Idade do Ouro e que se prolongou por praticamente toda a Idade da Prata (ver  Duo Terrífico)
Armas, poderes e habilidades: Inquestionavelmente um dos mais inteligentes adversários do Batman, o Pinguim é um génio criminal com poderosas conexões no submundo de Gotham, que nele tem um dos seus mais proeminentes e temidos membros. É, aliás, essa sua influência nesses meandros obscuros que está na base da relação especial que mantém com o Homem-Morcego. A troco de informações acerca dos delinquentes que parasitam a cidade, o herói tolera as negociatas do seu velho inimigo, mesmo quando estas se revestem de dúbia legalidade.
Sob o disfarce de um próspero e respeitável homem de negócios, o Pinguim movimenta-se também com grande à-vontade entre a elite gothamita, a quem não perde oportunidade de impressionar com o seu faustoso estilo de vida.
Em virtude da sua baixa estatura e da sua aparência caricatural, o Pinguim tende a ser subestimado pelos seus oponentes. Que ignoram, todavia, ser ele um exímio combatente corpo a corpo, dada a sua proficiência em diversas artes marciais e técnicas de autodefesa. Ainda assim, o Cavalheiro do Crime prefere quase sempre delegar o trabalho sujo nos seus asseclas.
Possuindo uma ligação quase sobrenatural com os pássaros - em especial com aquele que lhe dá nome - o Pinguim consegue adestrá-los com invulgar facilidade, usando-os também frequentemente como instrumentos para os seus crimes. Extorsão, fraude, roubo, chantagem e, claro, homicídios são as suas principais especialidades.

O Morcego e o Pinguim.
Quem será, afinal, a presa?
Se há muito o Pinguim reformou a sua extravagante frota de veículos de inspiração aviária, o mesmo não se poderá dizer da sua impressionante coleção de guarda-chuvas. Fazendo jus ao epíteto de Homem dos Mil Guarda-chuvas, Oswald Cobblepot tem neste acessório a principal arma do seu arsenal, sendo um indefetível dos guarda-chuvas búlgaros.
Muito apreciados pelos Serviços Secretos da Bulgária para eliminar dissidentes durante a Guerra Fria, tratam-se de guarda-chuvas modificados com um mecanismo pneumático embutido que injeta minúsculos projéteis contendo rícino ou outros venenos.
Mais versáteis, os modelos usados pelo Pinguim podem conter metralhadoras, lâminas afiadas, lança-chamas e até lasers, proporcionando-lhe desse modo um impressionante poder de fogo. Por vezes são também convertíveis em mini-helicópteros, sendo os seus toldos quase sempre à prova de bala. Sobretudo nas histórias da Idade da Prata, era comum os guarda-chuvas do Pinguim possuírem padrões coloridos que ele usava para hipnotizar os seus adversários, o que motivou inclusivamente algumas paródias de cariz político (ver Trivialidades).
Mesmo não se tratando de uma habilidade meta-humana, a elevada tolerância do Pinguim às temperaturas negativas concede-lhe ocasionalmente uma vantagem estratégica sobre os seus oponentes em ambientes gelados.
Recursos a justificar plenamente o meritório 51º lugar que ocupa na lista dos cem melhores vilões da banda desenhada, organizada pelo site IGN. Paradoxalmente, aos olhos de muitos fãs do Batman o Pinguim afigura-se também como um dos seus inimigos menos convincentes.

Conceção e caracterização 

Conceito desenvolvido por Bill Finger e Bob Kane (criadores do Batman), o Pinguim fez a sua primeira aparição em dezembro de 1941, na histórica edição Detective Comics nº58.
Segundo Kane, o visual da personagem foi inspirado naquela que era, à época, a mascote da marca de cigarros Kool - um pinguim de bengala e cartola. Finger. por seu turno, considerava a imagem dos cavalheiros da alta sociedade aprumados nos seus elegantes fraques como reminiscências dos pinguins-imperadores, os espécimes de maior porte entre a  família dos pinguins.

Datada de dezembro de 1941,  Detective Comics nº58 marcou a estreia do Pinguim.
Em baixo, a mascote dos cigarros Kool que inspirou a sua criação.

Embora goste de autointitular-se um "cavalheiro do crime", o Pinguim não tem pruridos em empregar métodos violentos - não raro, com requintes de crueldade - para se afirmar tanto no mundo dos negócios como no submundo do crime organizado. Característica que vem, aliás, sendo acentuada nas suas versões mais recentes - em especial naquela que foi apresentada em Os Novos 52 -, e que em grande medida contribuiu para consolidar a sua reputação como um dos mais implacáveis gângsteres gothamitas.
A fazer lembrar o da ave que o alcunhou, o andar bamboleante do Pinguim deve-se à sua obesidade e à sua baixa estatura. Apesar de ter no seu nariz adunco - parecido com o bico de uma ave - outra das suas imagens de marca, é no entanto na sua (relativa) sanidade mental que Oswald Cobblepot tem a sua maior peculiaridade. Isto porque a racionalidade das suas ações o faz destoar na galeria de vilões do Homem-Morcego, essa verdadeira montra de maníacos.
A par da sua obsessão avícola (que, no passado, o levava frequentemente a roubar itens valiosos relacionados com aves), é na ambição desmedida que o Pinguim tem outro dos seus mais distintos traços de personalidade. Por mais fortuna que acumule, inveja sempre os outros magnatas que considera serem mais ricos do que ele. Essa ambição desenfreada estendeu-se também à política. Por diversas vezes Oswald Cobblepot concorreu a cargos públicos, chegando mesmo a fazer-se eleger mayor de Gotham City - proeza, de resto, recentemente reeditada na série Gotham (ver Noutros media).

Origem 

Nascido no seio de uma família aristocrática com raízes britânicas, em criança Oswald Cobblepot foi vítima de bullying por parte dos seus colegas de escola por causa da sua figura atarracada e desengonçada.
São muitas as histórias que relatam também como a sua superprotetora mãe o obrigava a andar sempre munido de um guarda-chuva - mesmo em dias ensolarados - após uma pneumonia lhe ter matado o marido.
À medida que crescia isolado na mansão da sua família, o pequeno Oswald tinha nos pássaros de estimação da sua progenitora os seus únicos amigos. Circunstância que despertou a sua paixão por aves e que, anos mais tarde, o levaria a estudar ornitologia na universidade.

Pássaros e guarda-chuvas são
 as duas grandes obsessões do Pinguim.
Em algumas versões da sua história, Oswald envereda por uma vida à margem da Lei após a morte da sua mãe e da consequente penhora das suas aves para liquidar as muitas dívidas que ela contraíra em vida. Noutras, ele é retratado como um aleijão que, devido às suas deformidades físicas, se vê rejeitado pela própria família. Estando essa rejeição familiar na origem do criminoso de sangue frio em que viria a transformar-se.
Apesar destas leves discrepâncias em torno do seu passado, o Pinguim, fiel às suas raízes aristocráticas, cultivou sempre uma imagem de classe e requinte. Daí a sua preferência por um guarda-roupa formal em que, além do fraque, a cartola, a bengala e o monóculo são acessórios indispensáveis.

Evolução

Identificado apenas pelo seu pseudónimo criminal, o Pinguim começou por ser apresentado na Idade do Ouro como um astuto ladrão de obras de arte. Logo na sua primeira aparição em Gotham City, conseguiu, para assombro geral, roubar uma pintura valiosa de um museu. Proeza que lhe valeria a admissão na máfia local, organização que pouco tempo depois passaria a chefiar e cujos recursos usou para executar uma série de engenhosas golpadas antes de ser detido pelo Duo Dinâmico.
Depressa transformado num dos antagonistas mais recorrentes do Cruzado Encapuzado e do Menino-Prodígio, o Pinguim ora agia por conta própria ora associado a outros vilões, como o Joker.
Entre 1956 e 1963, o Pinguim esteve inexplicavelmente ausente das histórias do Duo Dinâmico. Assim sentenciado ao ostracismo durante quase toda a Idade da Prata, o vilão recuperou parte da sua popularidade junto dos leitores graças à sua contraparte televisiva interpretada por Burgess Meredith (ver Noutros media). Não obstante, seria a intermitência a caracterizar as suas participações no Universo DC até meados dos anos 1980.

Visual clássico do Pinguim
durante as Idades da Prata e do Bronze.
Situação que persistiu mesmo no período pós-Crise. Com efeito, até ser definitivamente regatado do oblívio pelo escritor Alan Grant (que já antes revisitara a sua origem) e pelo artista Norm Breyfogle, o Pinguim havia sido relegado a aparições esporádicas, quase sempre nas histórias do Batman. Pelas mãos da citada dupla criativa, o Cavalheiro do Crime regressaria, porém, mais ambicioso e mortífero do que nunca. Sem olhar a meios, rapidamente impôs o seu ascendente sobre o submundo de Gotham. Altura em que refinou também o seu modus operandi ao assumir-se como um respeitável homem de negócios, que tinha como joia da coroa o seu Casino Icebergue.
Um dos pontos altos da carreira do Pinguim durante esse período - demonstrativo do seu elevado quociente de inteligência.- aconteceu quando, durante a ausência de Bruce Wayne após os eventos de A Queda do Morcego, foi um dos poucos a deduzir que era outro homem a portar o manto do Cavaleiro das Trevas.
O vilão voltaria a estar em evidência em Terra de Ninguém (saga já aqui esmiuçada) ao contrabandear bens de primeira necessidade em falta numa Gotham City isolada do mundo depois de ter sido devastada por um terramoto de proporções bíblicas. Em adição a isso, ajudou Lex Luthor a apropriar-se dos registos de propriedade de muitos terrenos e imóveis cujos legítimos proprietários haviam perecido durante a catástrofe.
Entronizado Rei de Gotham em Os Novos 52, o Pinguim teve, contudo, de lidar  com a traição do seu antigo braço-direito, Ignatius Ogilvy (vulgo Pinguim-Imperador), que lhe usurpou temporariamente o trono.
Durante a saga Vilania Eterna, foi um dos malfeitores recrutados pelo Sindicato do Crime. Com boa parte dos heróis derrotados ou desaparecidos, Oswald Cobblepot teve finalmente oportunidade de realizar o seu velho sonho de ser mayor de Gotham City.
Já em Renascimento - a mais recente reestruturação cronológica da DC - o Pinguim, agora mancomunado com o Máscara Negra e o Grande Tubarão Branco, tem vindo a afirmar-se como um dos mais poderosos chefes do crime organizado de Gotham City. Certas coisas porém nunca mudam e, por isso, o Batman continua a ser a sua pedra no sapato.

A noite de Gotham é disputada
 por um rato alado e um pássaro desasado. 
Duo Terrífico 

Por oposição ao Duo Dinâmico, o Joker e o Pinguim  formaram, durante um significativo período de tempo, uma espécie de Duo Terrífico. A primeira vez que aqueles que são, indubitavelmente, os dois inimigos mais famosos do Homem-Morcego uniram forças para tentar levar a melhor sobre os heróis, aconteceu ainda nos alvores da Idade do Ouro. Mais precisamente, em outubro de 1944, numa história inclusa em Batman nº25.

Dou Dinâmico versus Duo Terrífico.
Essa aliança funesta seria reeditada vezes sem conta ao longo das décadas subsequentes, tendo sido transposta também ao pequeno ecrã. Na série televisiva do Batman exibida entre 1966 e 1968, era frequente o Pinguim e o Joker (interpretados por Burgess Meredith e César Romero, respetivamente) agirem em conjunto para porem Gotham City em polvorosa. 
Na BD como na TV, a relação entre ambos exorbitava, no entanto, a esfera criminal. Com os dois a demonstrarem, em diversas ocasiões, a sua afeição mútua. Numa antiga história do Batman, por exemplo, o Palhaço do Crime chegou mesmo a chorar a aparente morte do Pinguim. 

Trivialidades:

*A verdadeira identidade do Pinguim - que se tornaria canónica - foi revelada pela primeira vez numa tira de jornal publicada em 1946, cinco anos após a sua estreia nos quadradinhos. A tira em questão revelava ainda a existência de uma tia de Oswald Cobblepot chamada Miranda Cobblepot. Nome que, na continuidade pós-Crise da DC, seria atribuído à mãe do vilão;
*Oswald Cobblepot assassinou os seus três irmãos depois destes o terem atacado e aos seus pássaros de estimação. Crimes dos quais escapou impune uma vez que que foram cometidos sob a aparência de trágicos acidentes: Jason foi envenenado, William atropelado e Robert afogado;
*Em Super Friends (título epónimo da série animada exibida nos EUA a partir de 1973), o Pinguim liderava os Super Foes (Super-Inimigos, em tradução literal), equipa de vilões análoga à Legião do Mal (Legion of Doom) que, na TV, antagonizava os Superamigos. Recrutou também um comparsa juvenil, conhecido apenas como Chick, que trabalhou durante algum tempo como agente infiltrado no Hall da Justiça, o icónico edifício que, na série em causa, servia de quartel-general aos heróis;

Comandados pelo Pinguim, os Super-Inimigos
 eram presença assídua em Super Friends.
*O Cavalheiro do Crime, o Rei de Gotham, o Pássaro Negro do Banditismo e o Homem dos Mil Guarda-chuvas são alguns dos pomposos cognomes do Pinguim, também conhecido entre os seus rivais pela alcunha menos simpática de Hálito de Sardinha;
*À grotesca versão do Pinguim apresentada em Batman Returns (1992) foi acrescentada sindactilia  nos dedos das mãos ao seu catálogo de deformidades físicas. Trata-se de uma anomalia genética caracterizada pela existência de uma espécie de membrana interdigital que, quando afeta apenas os tecidos moles, pode ser cirurgicamente corrigida. Esta alteração anatómica da personagem seria reproduzida na primeira temporada de Batman: The Animated Series, lançada pouco tempo após a estreia do filme dirigido por Tim Burton. A dada altura, todos os protagonistas da série tiveram contudo os seus visuais reformulados e, sem qualquer explicação, o Pinguim recuperou a sua aparência clássica;
*Em maio de 2006, a DCI Group, uma empresa de Relações Públicas associada ao Partido Republicano, realizou um vídeo no YouTube a satirizar Uma Verdade Inconveniente, o polémico documentário do ex-Vice-Presidente dos EUA, Al Gore, lançado pouco tempo antes. Numa notória referência àquele que era um dos habituais expedientes do Pinguim durante a Idade da Prata, o vídeo em causa mostrava um pinguim a usar um guarda-chuva para hipnotizar os seus companheiros, induzindo-os dessa forma a acreditar no aquecimento global e nas alterações climáticas.

Noutros media

Em exibição na Fox desde 2014, Gotham tem num jovem Pinguim em início de carreira um dos seus protagonistas. A série vem acompanhando a sangrenta ascensão do vilão (interpretado por Robin Lord Taylor) na hierarquia do submundo gothamita. Graças à sua astúcia e ausência de escrúpulos, em pouco tempo Oswald Cobblepot passou de simples subordinado a um dos mais poderosos chefes do crime organizado de Gotham City. Estatuto que lhe permite reproduzir com o Tenente James Gordon, do Departamento de Polícia, a mesma relação que, na banda desenhada, mantém com o Batman. Ou seja, Gordon recorre frequentemente ao Pinguim para obter informações sobre as atividades clandestinas em curso na cidade e, em troca, faz vista grossa às obscuras negociatas de Cobblepot.
Foi, porém, em 1966 que o Pinguim saltou pela primeira vez dos quadradinhos para o pequeno ecrã, ganhando dessa forma notoriedade junto do grande público, depois de uma prolongada ausência das histórias do Homem-Morcego. Coube a Burgess Meredith (ator que, uma década depois, daria vida ao austero treinador de Rocky Balboa) emprestar classe e carisma a uma personagem cujo visual havia sido decalcado da BD. Notável, a interpretação de Meredith teve na sua gargalhada a imitar o grasnado de um pinguim o seu elemento mais memorável. O que poucos saberão é que o som da sua risada era, na verdade, resultante da irritação dos pulmões do ator (que era não fumador) causada pelos cigarros que era obrigado a manter acesos em todas as cenas em que participava.
Muito diferente desta versão janota e histriónica do Pinguim foi aquela que foi apresentada em 1992, no filme Batman Returns. Agora interpretado por Danny DeVito, o vilão teve a sua origem e aparência radicalmente modificadas, surgindo como um aleijão rejeitado pelos seus aristocráticos progenitores, e cujo corpo era tão deformado como a sua alma.



De cima para baixo:
 Burgess Meredith, Danny DeVito e Robin Lord Taylor,
  os 3 atores que representaram o Pinguim em outras tantas épocas.
Além destas encarnações televisivas e cinematográficas, há muito que o Pinguim é também um habitué nas animações da DC, designadamente naquelas que têm o Batman como astro principal. Nesse campo, a estreia do Cavalheiro do Crime remonta a 1968 através da sua participação em The Adventures of Batman, série produzida pela Filmation e que, ainda hoje, é cultuada pelos fãs do Cavaleiro das Trevas.
O Pinguim surge também como personagem jogável em diversos jogos de vídeo baseados no Universo DC. Em 1988, por exemplo, teve honras de capa em Batman: The Caped Crusader, jogo de computador desenvolvido pela Special FX Software que teve na qualidade dos seus gráficos o seu ponto forte.
Confirmada a existência do Pinguim no atual Universo Estendido da DC, depois de ter sido subtilmente referenciado num diálogo mantido entre Bruce Wayne e Alfred Pennyworth em Justice League, é possível que o vilão venha a marcar presença num dos próximos filmes da franquia.

As atuais gerações nunca compreenderão
 o charme deste tipo de jogos.





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ETERNOS: ALEX RAYMOND (1909-1956)


  Precursor da Idade de Ouro da BD,  o virtuosismo e a exuberância da sua obra - que teve Flash Gordon como expoente máximo - valeu-lhe o epíteto de "o artista dos artistas". Fazendo-lhe jus, antes e depois da sua morte prematura, influenciou alguns dos seus pares mais ilustres e até cineastas visionários.

Fundada em 1688 por expatriados huguenotes fugidos às perseguições religiosas de que eram vítimas na sua França natal, Nova Rochelle, pequena e próspera cidade no sudeste do estado de Nova Iorque, orgulha-se sobremaneira da sua história e do seu riquíssimo património cultural. Do qual faz parte, entre outras celebridades que lá tiveram o seu berço, Alex Raymond. Um dos mais insignes e incensados mestres da 9ª Arte, cuja magnífica obra conserva um apelo intemporal tanto para os aficionados dos quadradinhos como para os oficiais do mesmo ofício.
Primogénito de um casal aburguesado composto por um engenheiro civil e uma mãe em tempo integral que além dele trouxeram ao mundo mais quatro filhos, Alexander Gillespie "Alex" Raymond, mercê da ascendência irlandesa do ramo materno da sua árvore genealógica entrelaçado nas raízes escocesas do seu pai, foi educado em harmonia com os preceitos do catolicismo numa cidade erigida por protestantes do Velho Mundo.
Desde tenra idade evidenciando excecional aptidão para o desenho, o pequeno Alex foi incentivado pelo pai - de quem herdara o nome e a pertinácia - a sublimar o seu traço. À guisa de recompensa pelo afinco do gaiato, várias das suas primeiras produções artísticas forraram as paredes do escritório do seu ufano progenitor, incansável em exibi-las a todos quantos lá adentravam. E que, não raro, ficavam abismados com o admirável talento do artista de palmo e meio.
Este e outros episódios de uma infância idílica pareciam prenunciar um futuro radioso para Alex Raymond. Futuro esse que ficaria, porém, repentinamente mais sombrio, na esteira do inesperado falecimento do seu pai.

O charme histórico de Nova Rochelle,
a cidade que viu nascer Alex Raymond.
Então um rapazinho de apenas 12 anos de idade e de coração entrevado pela dolorosa perda do seu ídolo, Alex Raymond viu-se obrigado a estugar o passo na sinuosa charneca da puberdade e a repensar todo o seu projeto de vida.
Em virtude da sua precoce orfandade, Alex Raymond tornou-se descrente na possibilidade de vir a construir uma carreira ligada às artes plásticas. Feito adulto antes de tempo, considerou, por isso, prudente expandir os seus horizontes profissionais. Com esse desígnio em mente - e beneficiando de uma bolsa de estudo atlética -, ingressou pouco depois na Iona Preparatory School, prestigiadíssima escola católica frequentada pela prole da fina-flor de Nova Rochelle e com admissão reservada a alunos do sexo masculino.
Concluído, sem sobressaltos de maior, o ensino secundário, Alex Raymond, na antessala da maioridade, conseguiu o seu primeiro emprego como estafeta em Wall Street. No coração financeiro da América, durante os loucos anos 20, prometia-se fortuna fácil a todos quantos se dispusessem a apostar no grande casino bolsista.
Em 1930, quando, devido ao crash bolsista do ano anterior, do Sonho Americano já pouco mais restava além de uma mala de cartão e de um par de sapatos muito gastos, Alex Raymond garantia agora o seu sustento como solicitador numa corretora de hipotecas.
Sem nunca desistir de cumprir o sonho de, um dia, vir a ganhar a vida a desenhar, Alex Raymond encetara, em paralelo, os seus estudos de Arte e Ilustração na afamada Grand Central School of Art de Nova Iorque, onde a ninguém passou despercebida a invulgar destreza do seu lápis.
Seria, contudo, a preciosa ajuda de Russell Westover, cartunista veterano celebrizado pelo seu trabalho em Tillie the Toiler - uma das mais populares tiras diárias que, naqueles dias de desesperança, distraíam os leitores estadunidenses das deprimentes manchetes dos tabloides - a fazer a diferença na vida de Alex Raymond. Foi, pois, pela mão deste seu antigo vizinho que o jovem Alex deu os primeiros passos na cada vez mais dinâmica indústria dos quadradinhos.
Ao serviço do King Features Syndicate - o lendário consórcio que provia de ilustrações boa parte da imprensa da altura -, Alex Raymond começou por ser o artista "fantasma" de Tillie the Toiler, emulando o traço do próprio Russell Westover. De cujo irmão, Lyman, seria também assistente na série Tim Tyler's Luck cabendo-lhe, além das tiras diárias, a produção das respetivas páginas dominicais.

Foi como artista "fantasma" de Tillie the Toliler
 que Alex Raymond fez a sua estreia nos meandros da 9ª Arte.
Nesses convulsos alvores da década de 1930, quando corria pelo mundo uma aragem de mau agoiro, as tiras de banda desenhada dedicadas às trepidantes aventuras de arquétipos varonis como Buck Rogers, Dick Tracy e Tarzan estavam em franca ascensão.
Enquanto os leitores se embeveciam com a gesta dessas e de outras personagens romanescas aparentadas com os super-heróis modernos, estava em curso uma guerra surda entre os vários syndicates. Cada um deles estava apostado em apresentar a tira mais cativante e o herói mais carismático.
A única exceção parecia ser o King Features Syndicate, à primeira vista alheado dessa acesa disputa pela preferência do público. Na verdade, os seus editores esperavam apenas o momento certo para entrar na liça. Até aí fechada em copas, a companhia fundada em 1914 e por onde passariam também Fantasma, Mandrake e Popeye, preparava-se para lançar, de rajada, uma mão-cheia de trunfos que prometiam virar por completo o jogo a seu favor.
Com efeito, em finais de 1933, Alex Raymond foi incumbido de desenvolver uma nova página dominical protagonizada por um aventureiro interplanetário que deveria competir diretamente com Buck Rogers. Criado 5 anos antes pelo escritor Philip Francis Nowlan, o intrépido herói futurista fora coroado rei da ficção científica, arregimentando, intra e extramuros, uma legião de fãs de todas as idades. Um reinado absoluto que tinha, no entanto, os dias contados.
Em articulação com Don Moore, escritor consagrado da literatura pulp  - e, ao que consta, acolhendo a sugestão feita pelo então presidente do King Features Syndicate, Joe Connolly - , Alex Raymond produziu um épico da ficção científica marcado pela sumptuosidade visual e inspirado no visionarismo da obra literária de Júlio Verne. A protagonizá-lo Flash Gordon, um jogador de polo de fisionomia apolínea e com a coragem de um Aquiles dos tempos modernos. Coadjuvado por Dale Arden - a sua delicodoce namorada - e pelo Doutor Hans Zarkov - génio científico e o mais leal dos seus amigos - o herói desdobrava-se entre a Terra e Mongo, o exótico planeta governado com punho férreo pelo crudelíssimo Imperador Ming, desde logo alcandorado a seu arqui-inimigo.
Um universo onde existia, de facto, mais fantasia do que ficção científica. E que, em derradeira análise, servia para Alex Raymond exercitar a sua pródiga imaginação.


Um dos muitos duelos de Flash Gordon com o Imperador Ming
 e o seu romance com Dale Arden imortalizados pelo primoroso traço de Alex Raymond.
Finalmente resgatado ao anonimato, Alex Raymond ansiava por demonstrar o seu real valor enquanto artista. Imprimiu, por conseguinte, o seu estilo elegante e límpido nas historietas de Flash Gordon, virtuosamente buriladas pelo seu lápis e prenhes de referências mitológicas. Compensando com a sua magistral conceção plástica as debilidades das tramas nas quais se perpetuava um maniqueísmo denunciador dos princípios morais do autor.
A Alex Raymond fora concomitantemente confiada a missão de criar uma personagem capaz de ombrear com Tarzan, cujas tiras diárias o haviam elevado ao estatuto de ícone popular. Foi nesse contexto que despontou Jim das Selvas (Jungle Jim, no original), servindo as florestas luxuriantes do Extremo Oriente de cenário principal às suas aventuras.
Apesar de, por oposição a Flash Gordon, nunca ter logrado superar o seu rival, Jim das Selvas obteve apreciável sucesso. Graças, uma vez mais, ao requinte do traço de Alex Raymond, esta sua segunda criação teve o mérito de se afirmar como uma alternativa consistente ao Homem-Macaco saído da imaginação de Edgar Rice Burroughs.

Jungle Jim, um rival à altura de Tarzan.
Cada vez mais aclamado pelos leitores, Alex Raymond depressa se tornou o artista mais requisitado pelos editores do King Features Syndicate. Que, no início, de 1934 (apenas duas semanas após a estreia de Flash Gordon e Jungle Jim), o cooptaram para ilustrar Secret Agent X-9, uma tira de espionagem escrita pelo famoso romancista Dashiell Hammett, e destinada a concorrer com as aventuras de Dick Tracy.
Obrigado a trabalhar a um ritmo infernal para conseguir produzir todas as tiras diárias e respetivas páginas dominicais, Alex Raymond, à beira do esgotamento, aproveitou a saída de Hammett, nos primeiros meses de 1935, para também ele abandonar as histórias do Agente X-9. Deixando para trás um trabalho que não é consensual entre os críticos da 9ª Arte. Entre os que o reverenciam como a melhor arte interior da época e os que lhe apontam algumas falhas narrativas, as opiniões dividem-se.

O menos consensual dos trabalhos de Alex Raymond
 primou, ainda assim, pelo brilhantismo.
A passagem de testemunho nas histórias do Agente X-9 permitiu a Alex Raymond concentrar-se nas suas duas criações - Flash Gordon e Jim das Selvas. Enquanto o fazia, os anos seguintes trouxeram o dealbar da Idade de Ouro dos comics estadunidenses e o cortejo de horrores da II Guerra Mundial. Duas realidades perpendiculares, na medida em que, ao arrepio da neutralidade inicialmente declarada pelos EUA, muitos foram os ilustradores nascidos em terras do Tio Sam a assumirem desde cedo uma posição beligerante, passando a refletir o momento histórico nos seus trabalhos. Basta observar o material publicado à época para constatar essa evidência.
Ao mesmo tempo que Tarzan, Fantasma e outros heróis clássicos enfrentavam nas respetivas tiras a ameaça totalitária que nos anos vindouros colocaria o mundo à beira do precipício, Alex Raymond, por seu turno, fez das histórias de Flash Gordon parábolas do expansionismo nipónico.
Numa época em que o País do Sol Nascente já havia invadido a Manchúria chinesa, não foi fortuita a atribuição de feições vincadamente orientais ao Imperador Ming. Tampouco foi obra do acaso o seu Exército Imperial evocar a claque nazi-fascista que, por esses dias, marchava imparável sobre  o Velho Continente, esmagando a esperança e a liberdade dos povos sob as suas pesadas botifarras.
Quando o ignóbil ataque japonês a Pearl Harbor precipitou a entrada dos EUA num conflito no qual tinha até aí relutado em envolver-se, muitos desenhadores americanos já estavam preparados para  dar o seu contributo à causa aliada. E se a maior parte desse apoio se quedou pelas páginas de banda desenhada, alguns deles transferiram-no mesmo para o campo de batalha.
Entre o contingente de artistas que trocou temporariamente os lápis e os pincéis pelas espingardas e baionetas, incluía-se Alex Raymond. No entanto, como mais adiante se verá, esse seu fervor patriótico render-lhe-ia alguns amargos de boca.
O último dos irmãos Raymond a tornar-se um G.I. Joe, em fevereiro de 1944 Alex Raymond alistou-se nos Fuzileiros Navais norte-americanos, sendo acolhido como uma celebridade pelos seus companheiros de armas - muitos dos quais tinham crescido a ler as histórias de Flash Gordon. À deferência daqueles com quem se relacionava, correspondeu sempre Alex Raymond com a fleuma de um cavalheiro que recusou todos os pedestais em que quiseram colocá-lo.
Integrado no departamento de Relações Públicas da Marinha dos EUA, Alex Raymond produziu cartazes e outra imagética de cunho patriótico que serviam fins propagandísticos. Duas dessas obras - datadas ambas de 1944 - tornar-se-iam icónicas: Marines at Prayer (ilustração para o boletim oficial da tropa, que retratava um grupo de fuzileiros em oração em pleno campo de batalha) e o postal de Natal dos Marines, cuja receita de vendas servia para ajudar ao esforço de guerra.

A icónica ilustração Marines at Prayer serviu de capa ao boletim oficial dos Marines.

Desejoso de desempenhar um papel mais ativo no conflito, Alex Raymond requereu transferência, no início de 1945, para o teatro de operações do Pacífico. A bordo do porta-aviões U.S.S. Gilbert Islands, pôde dessa forma testemunhar in loco a lendária batalha de Okinawa, ainda hoje considerada a maior operação militar marítimo-aeroterrestre da História - vencida, a duras penas, pelas forças aliadas sob comando norte-americano.
Desmobilizado no início de 1946 com a patente de major, o regresso de Alex Raymond à vida civil começou por ficar marcado por um dissabor. Isto porque a sua vontade em retomar o seu trabalho com Flash Gordon esbarrou na intransigência do King Features Syndicate em afastar Austin Briggs, o artista que, com assinável mérito, o substituíra quando ele partira voluntariamente para a guerra.
Apesar de nunca se ter pronunciado publicamente sobre este assunto, familiares e amigos de Alex Raymond asseverariam mais tarde que ele ficara deveras ressentido com aquilo que considerava ter sido um tratamento desrespeitoso por parte dos seus empregadores. Porventura à laia de ressarcimento por tal descortesia, o King Features Syndicate ofereceu-lhe, no entanto, a oportunidade de criar uma nova tira.
Estreada em março de 1946, Rip Kirby - série que, 3 anos depois, valeria a Raymond um Reuben Award, o mais importante galardão com que foi laureado em vida - apresentava as aventuras de um ex-oficial da Marinha que, depois da guerra, se lançara numa carreira como detetive particular. Além das evidentes notas autobiográficas incutidas por Alex Raymond, as estórias tinham como pano de fundo os bastidores da alta burguesia nova-iorquina, nostálgica de um mundo aristocrático em vias de extinção.

Apesar de Flash Gordon ter sido a sua criação suprema,
 Rip Kirby é por muitos considerado a obra-prima de Alex Raymond.
Na tradição das novelas noir, as tramas de Rip Kirby mostravam como a podridão moral enquista amiúde as classes mais abastadas. Suprimindo o maniqueísmo quase pueril que caracterizara as narrativas de Flash Gordon, Alex Raymond explorava agora pontos de vista mais complexos. Deixando claro, por exemplo, que o crime é frequentemente produto de um sistema económico iníquo que gera hordas de excluídos.
Complementarmente à incrível evolução na construção psicológica das suas personagens, Alex Raymond, eterno perfecionista, desenvolveu um método de trabalho que envolvia fotografia, pesquisa exaustiva de ambientes, vestuários e costumes, bem como a utilização de modelos de carne e osso. Este último um expediente a que, de resto, já havia deitado mão quando fora ilustrador de revistas como a Blue Book, Esquire e Cosmopolitan.
A este propósito, diria Alex Raymond o seguinte: «Estou sinceramente convencido de que a banda desenhada é uma forma de arte autónoma. Reflete a sua época e a vida em geral com maior realismo e, graças à sua natureza criativa, é artisticamente mais válida do que uma simples ilustração. O ilustrador trabalha com uma máquina fotográfica e modelos; o artista de BD começa sempre por uma folha de papel em branco e inventa sozinho uma história inteira. É ao mesmo tempo escritor, diretor de cinema, editor e desenhador.»
Alex Raymond foi, de facto, muito mais do que um simples ilustrador ou desenhador. Consagrado ainda em vida como "o artista dos artistas", assumia-se mais como um esteta cuja sofisticação de estilo serviu de bitola a muitos dos seus pares. Bob Kane, Joe Shuster e Jack Kirby, seus contemporâneos, foram apenas alguns dos grandes vultos da 9ª Arte a reconhecerem a influência do criador de Flash Gordon no seu desenvolvimento artístico. Influência que não diminuiu após a morte prematura de Raymond, estendendo-se também ao cinema.
Admirador confesso do trabalho de Alex Raymond, George Lucas nunca fez segredo da inspiração que foi beber a Flash Gordon para idealizar o panteão de Star Wars - saga que, ironicamente, influenciaria a estética e a dinâmica narrativa do filme de Flash Gordon de 1980.


Star Wars e Flash Gordon: um círculo de influências
 que teve em Alex Raymond o seu eixo comum.
Há quem defenda que os artistas atingem o seu zénite criativo aos 50 anos, por ser nessa idade que o talento e a experiência se equilibram de forma harmoniosa. A existir algum vestígio de verdade nesse aforismo, Alex Raymond foi roubado ao mundo quando tinha ainda muito para oferecer-lhe.
Naquele fatídico dia 6 de setembro de 1956, a menos de um mês de cumprir o seu 47º aniversário, o criador de Flash Gordon, que tinha nos automóveis outra das suas paixões, seguia ao volante do elegante Corvette descapotável do seu amigo e colega de ofício Stan Drake. Segundo consta, para tentar fugir à chuva que começara entretanto a cair, circulava duas vezes acima do limite de velocidade estabelecido numa estrada de Westport, no estado norte-americano do Connecticut, quando se despistou e colidiu violentamente com uma árvore. Ao contrário de Drake, salvo pelo cinto de segurança que levava colocado, Raymond teve morte imediata.
Durante algum tempo as circunstâncias em que se deu o despiste fatal suscitaram especulações. Com o próprio Drake a dizer-se firmemente convencido que Raymond teria querido suicidar-se, alegadamente devido a um caso extraconjugal. A sustentar esta macabra tese - categoricamente desmentida por familiares e pelo biógrafo oficial do artista - o facto de, no mês que antecedeu a sua morte, Raymond ter estado envolvido em quatro(!) acidentes rodoviários.

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A paixão de Alex Raymond por bólides desportivos revelar-se-ia fatal.
Acidental ou não, a morte prematura de Alex Raymond teve o condão de aureolar ainda mais a vida e obra de um artista que, pelo esplendor imorredouro do seu legado, viverá para sempre no imaginário coletivo e continuará certamente a inspirar novos talentos dos quadradinhos. Que assim poderão calcorrear o seu próprio caminho alumiados pelo exemplo de um dos mais excelsos mestres da BD.
A ele este humilde escriba - iniciado, muitos anos atrás, no fascinante mundo dos quadradinhos precisamente através das estórias de Flash Gordon - se curva em respeitosa vénia, na esperança de que este singelo tributo sirva para ajudar à celebração da magnífica obra de Alex Raymond, para sempre o suprassumo dos artistas.

Apontamentos finais

*Depois de ter sido contemplado, em 1949, com um Reuben Award - prémio atribuído anualmente pela National Cartoonists Society -, Alex Raymond seria eleito no ano seguinte para presidir à instituição. Cargo que exerceu até 1951;
*Alex Raymond foi nomeado, a título póstumo, para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame (1996) e para o Society of Illustrators Hall of Fame (2014), duas das maiores distinções concedidas aos profissionais da 9ª Arte;
*Casado durante mais de um quarto de século com Helen Frances Williams - mãe dos seus cinco filhos; dois rapazes e três raparigas -, Alex Raymond deu o nome de duas das suas filhas à namorada de Rip Kirby, Judith Lynne Dorian;
*Irmão mais novo de Alex Raymond, Jim Raymond (falecido em 1981), também abraçou uma bem-sucedida carreira como cartunista. No seu currículo destaca-se o seu trabalho como assistente do lendário Chic Young em Blondie, tira humorística publicada pelo King Features Syndicate a partir de 1930;
*Alex Raymond era tio-avô dos atores Kevin e Matt Dillon, filhos da sua irmã Beatrice.

Alex Raymond e Flash Gordon: um legado que ecoa nas estrelas.

Agradecimento muito especial ao meu bom e mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo e providenciou a belíssima montagem que o encerra. 







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