3 de maio de 2018

RETROSPETIVA: «SUPERGIRL»


  Primeira super-heroína adaptada ao cinema, à Rapariga de Aço exigiu-se que, de um fôlego, salvasse o último vestígio de Krypton e a decadente franquia herdada do primo. Apenas uma dessas hercúleas missões foi, porém, coroada de êxito num filme em que, pela sua frescura e talento, a protagonista foi a única aposta ganha.
  
Título original: Supergirl
Ano: 1984
País: Reino Unido
Duração: 105 minutos (versão norte-americana) / 124 minutos (versão internacional)
Género: Ação/Aventura/Ficção científica
Produção: Timothy Burrill e Ilya Salkind
Realização: Jeannot Szwarc 
Argumento: David Odell 
Distribuição: TriStar Pictures (Reino Unido) / Columbia-EMI-Warner (EUA)
Elenco: Helen Slater (Kara Zor-El/Linda Lee/Supergirl); Faye Dunaway (Selena); Peter O'Toole (Zaltar); Hart Bochner (Ethan); Mia Farrow (Alura In-Ze); Brenda Vaccaro (Bianca); Peter Cook (Nigel); Simon Ward (Zor-El); Marc McClure (Jimmy Olsen) e Maureen Teefy (Lucy Lane)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas (EUA): 14,3 milhões de dólares

Anatomia de um clássico fracassado

Quando, a meio da década de 1970, os produtores Alexander e Ilya Salkind negociaram a aquisição dos direitos de adaptação do Superman ao cinema, acharam prudente incluir os da Supergirl no pacote. Com a visão que fez deles marajás de Hollywood, os Salkinds acautelaram dessa forma a possibilidade de alguma sequela ou spin-off vir a ser realizado.
Em virtude das reações negativas da crítica e do dececionante desempenho comercial de Superman III em 1983, no ano seguinte os Salkinds resolveram apostar numa longa-metragem protagonizada pela prima do Homem de Aço. A ideia seria refrescar uma franquia que começava a evidenciar sinais de decadência.
Apesar da ligação familiar entre as duas personagens, os produtores consideravam que o novo projeto exploraria uma área totalmente diversa daquela que estivera na base da até aí bem-sucedida saga cinematográfica do Último Filho de Krypton.

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Ilya (esq.) e Alexander Salkind.
Os produtores da Super-franquia são pai e filho.
Richard Lester, que dirigira Superman III e fora chamado a completar Superman II após a demissão de Richard Donner, foi o primeiro realizador a ser sondado pelos Salkinds. Perante o desinteresse de Lester em associar-se ao projeto, os produtores estudaram várias alternativas, acabando a escolha final por recair em Jeannot Szwark.
Com uma carreira construída essencialmente no pequeno ecrã, o cineasta gaulês fora recomendado pelo próprio Christopher Reeve que, em 1980, trabalhara às suas ordens no filme Somewhere in Time (Algures no Tempo).
A banda sonora, essa, teve a assinatura do veterano Jerry Goldsmith, que fez questão de homenagear algumas das memoráveis partituras compostas por John Williams para os dois primeiros filmes do Superman.

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Jeannot Szwark foi o eleito para dirigir
 a primeira longa-metragem
 protagonizada por uma super-heroína.
Assim, dentre um lote de oito anónimas finalistas, a eleita seria a novata Helen Slater. À data com 19 anos, Slater participara apenas num episódio especial da série televisiva ABC Afterschool e nunca antes fizera cinema. O seu papel como Supergirl marcaria, portanto, a sua estreia absoluta no grande ecrã.
Centenas de atrizes foram, entretanto, testadas para o papel principal, com destaque para Brooke Shields (a ninfeta de Lagoa Azul) e Melanie Griffith que, aos 26 anos, contava já com vários filmes de sucesso no currículo. Apesar de a primeira ser a favorita de Alexander Salkind, Ilya e Szwark preferiram apostar numa ilustre desconhecida, mantendo-se fiéis à mesma política que levara à descoberta de Christopher Reeve durante as audições para Superman.
Nos primeiros testes de ecrã que realizou, Helen Slater usou um figurino em tudo semelhante ao uniforme que, por aqueles dias, a Supergirl usava na banda desenhada. Refletindo o estilo dos anos 80, o modelo em causa incluía, por exemplo, uma fita de cabelo vermelha.
Dada a natureza datada desse visual, os produtores acabaram por descartá-lo, optando antes por um  de linhas mais modernas. E, sem o saberem, forneceram a inspiração para a indumentária de Matriz, a Supergirl genérica inserida em 1988 na continuidade da DC após a morte da original em Crise nas Infinitas Terras.

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De cima para  baixo:
O uniforme da Supergirl na BD no início dos anos 80.
Helen Slater testa um protótipo nele baseado.
O figurino oficial.
O visual de Matriz.

Como beleza e talento na representação não bastam quando toca a emprestar corpo a um super-herói (ou, no caso, a uma super-heroína), Helen Slater teve de submeter-se a um rigoroso programa de treino ministrado por Alf Joint, o mesmo preparador físico que, meia dúzia de anos antes, transformara o franzino Christopher Reeve no Homem de Aço.
Christopher Reeve que, de resto, declinou o convite para participar no filme da Supergirl. Presença que, segundo admitiria o próprio Jeannot Szwark, teria contribuído para uma maior visibilidade e credibilidade da produção.
Definido o restante elenco (no qual pontificavam a oscarizada Faye Dunaway e outros astros de primeira grandeza como Peter O'Toole), as filmagens decorreram quase exclusivamente nos londrinos Pinewood Studios, prolongando-se por todo o verão de 1983.
Ainda que a película tenha sido financiada na íntegra pelos Salkinds, a Warner Bros, detentora dos respetivos direitos de distribuição, teve uma palavra a dizer. Com efeito, da rodagem à edição tudo foi feito sob a apertada supervisão da gigante de entretenimento proprietária da DC Comics.

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Faye Dunaway e Helen Slater.: a diva e a debutante.
No entanto, apenas duas semanas antes da estreia de Supergirl (inicialmente programada para julho de 1984, o que só viria a acontecer no Reino Unido e Japão), a Warner Bros. desligou-se da produção devido à prestação insatisfatória de Superman III e ao diferendo com os Salkinds acerca da data de lançamento.
Nos meses seguintes o filme ficou a aboborar numa qualquer prateleira até que a TriStar Picutres se propôs lançá-lo em novembro. Por ser esse o mês em que se celebra o Dia de Ação de Graças, um dos mais importantes feriados do calendário litúrgico norte-americano, fora sempre essa a data preferida dos Salkinds.
A TriStar impôs, contudo, como condição uma nova edição do filme. Totalmente arbitrários, os cortes levados a cabo resultaram num encolhimento da respetiva duração (de 124 minutos passou para 105 minutos) em prejuízo das interpretações de Helen Slater e Faye Dunaway.
Algumas das cenas eliminadas - que, durante largos anos, permaneceram inéditas nos EUA -  continham momentos e diálogos importantes quer para a caracterização das protagonistas quer para o desenrolar da trama.
Um bom exemplo foi o da sequência conhecida como "O Ballet Voador", por sinal uma das mais magistralmente coreografadas de todo o filme.
Ao chegar ao nosso planeta, Kara fica surpreendida ao descobrir ser capaz de fazer praticamente qualquer coisa, incluindo voar. A cena em questão serviria para demonstrar que, além do legado nominal, os seus poderes eram similares aos do Superman. Ora nada disso foi visto pelos espectadores norte-americanos, originando alguma confusão entre os menos versados na mitologia do Homem de Aço.
Também as cenas ambientadas na Zona Fantasma eram originalmente mais longas e dramáticas. Numa delas, a heroína dava provas de grande altruísmo ao  expressar a sua vontade de imolar a própria vida para pôr fim ao reinado sombrio de Selena.
Antes de serem restauradas na primeira edição em DVD (2000), muitas das cenas cortadas haviam já sido incluídas na adaptação oficial de Supergirl aos quadradinhos lançada em 1985 pela DC Comics - e publicada nesse mesmo ano pela Abril em Terras Tupiniquins .

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A adaptação oficial de Supergirl
aos quadradinhos
 incluía a versão estendida do filme.
Foi, no entanto, uma versão amputada(para não dizer vandalizada) da película aquela que chegou aos cinemas americanos em novembro de 1984. Apesar de Supergirl ter liderado o box office no seu fim de semana de estreia, (arrecadando uns razoáveis 8,4 milhões de dólares), as receitas de bilheteira cairiam a pique nas semanas seguintes, convertendo-o no capítulo menos rentável de toda a Super-franquia.
Somadas ao fraco desempenho comercial, as críticas soezes que, de forma desapiedada, fustigaram o filme durante as nove semanas em que se manteve em cartaz, surtiram efeito idêntico ao da exposição prolongada à kryptonita, ditando a morte prematura de Supergirl.
Mercê de todas as vicissitudes acima descritas, a primeira aventura da Rapariga de Aço no cinema seria também a última. Caindo assim por terra o sonho dos Salkinds de iniciarem uma nova franquia que se queria tão lucrativa como havia sido a do Homem de Aço.

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Um dos mais icónicos  posteres promocionais do filme.
Sinopse

A fruir dos últimos dias de uma adolescência despreocupada, Kara Zor-El vive com os pais, Zor-El e Alura, em Argo City, uma colónia perdida que sobreviveu à destruição de Krypton.
Encravada num recesso do espaço inter-dimensional, Argo City tem como principal fonte de energia o Omegahedron. Essa pequena esfera pulsante, fruto da mais avançada tecnologia kryptoniana, consegue, entre outras coisas, manipular matéria a nível molecular e gerar energia ilimitada.
Um belo dia, Zaltar, o precetor de Kara, mostra-lhe o Omegahedron, que havia requisitado sem o consentimento do conselho governativo da cidade. Quando um pequeno construto voador criado por Kara se descontrola e abre um buraco na redoma que protege Argo City, o Omegahedron é sugado pelo vácuo espacial.
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Zaltar mostra a Kara o potencial do Omegahedron.
Ciente de que, sem o Omegahedron, Argo City estará sentenciada a uma morte agonizante, Kara, para grande aflição dos seus pais, voluntaria-se para recuperá-lo. Para isso, terá de viajar através do espaço inter-dimensional a bordo do paraquedas binário projetado por Zaltar.
Durante a sua vertiginosa jornada até à Terra, Kara transforma-se na Supergirl e fica maravilhada com os formidáveis poderes que lhe são concedidos pelo nosso sol amarelo.
O Omegahedron foi, entretanto, encontrado por Selena, uma bruxa sedenta de poder e ansiosa por libertar-se da influência de Nigel, um feiticeiro dos tempos modernos de quem é, simultaneamente, discípula e concubina.
Mesmo sem saber do que se trata, ou qual a origem do Omegahedron, Selena intui o seu imenso poder e depressa descobre que ele lhe permite conjurar feitiços verdadeiramente eficazes.
Longe dali, a Supergirl segue no encalço do Omegahedron. Após ter escapado a uma tentativa de violação por parte de dois camionistas, a jovem toma consciência dos perigos de um mundo que não é o seu e resolve agir disfarçada.
Apresentando-se como prima de Clark Kent (alter ego do Superman), Kara assume a identidade de Linda Lee e matricula-se no colégio feminino de Midvale. É lá que trava amizade com Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois Lane, de quem herdou o espírito irrequieto e aventureiro.
Enquanto se tenta integrar com a ajuda de Lucy e do seu namorado, Jimmy Olsen, Linda conhece também Ethan, o apolíneo zelador da escola por quem de pronto se enamora.

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Linda Lee e Lucy Lane tornam-se amigas inseparáveis.
Sem o saber, Ethan captou também a atenção de Selena, a agora autoproclamada "Princesa da Terra". Resoluta em fazer dele seu consorte, a vilã droga Ethan com uma poção do amor que o fará apaixonar-se pela primeira pessoa que vir quando voltar a si.
Para azar de Selena, Ethan recobra a consciência quando ela está ausente e, após escapulir-se do covil da bruxa, vagueia sem rumo pelas ruas da cidade.
Furiosa, Selena faz uso dos seus recém-adquiridos poderes mágicos para animar uma escavadora com a qual pretende recapturar o seu objeto de desejo. À sua passagem o veículo desgovernado deixa um rasto de destruição obrigando à intervenção da Supergirl.
Quando a ameaça é por fim debelada, a Rapariga de Aço, já sob o disfarce de Linda Lee, resgata Ethan que, assim, se perde de amores por ela, passando a cortejá-la de todas as formas possíveis e imagináveis.
Culminado uma série de ferozes recontros entre ambas, Selena usa o Omegahedron para lançar a Supergirl na Zona Fantasma, o purgatório onde, outrora, eram aprisionados os piores criminosos de Krypton. Privada dos seus poderes, a heroína perambula pela paisagem desolada e quase se afoga num pântano. É, no entanto, salva no último instante por Zaltar, que ali se exilara para expiar os seus pecados.
Graças ao sacrifício supremo do seu antigo precetor, a Supergirl consegue escapar da Zona Fantasma e regressar à Terra através de um espelho. Com o seus poderes restaurados, a heroína confronta uma vez mais Selena. Que, por sua vez, usa o Omegahedron para invocar um gigantesco demónio das sombras.

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Kara chora a morte do seu mentor.
Prestes a ser subjugada pelo monstro, a Rapariga de Aço ouve a voz etérea de Zaltar exortando-a a lutar. Nigel, por seu turno, revela-lhe que a única maneira de derrotar Selena será virando contra ela o demónio das sombras.
Agindo com rapidez e precisão, Supergirl usa a sua supervelocidade para gerar um enorme redemoinho, cuja força centrípeta suga a bruxa e o demónio para a Zona Fantasma.
Finalmente livre do feitiço de Selena, Ethan declara o seu amor por Linda Lee, mesmo sabendo que ela e Supergirl são uma só pessoa, e que os dois nunca poderão ficar juntos.
A cena final do filme mostra a Supergirl a voar em direção a uma Argo City escurecida que prontamente se ilumina graças à energia emanada pelo Omegahedron.

Trailer



Curiosidades

*À semelhança do que se verificara no primeiro filme do Superman com Christopher Reeve, em Supergirl o cachê pago à atriz que interpretou a vilã (Faye Dunaway) foi consideravelmente superior ao recebido pela protagonista. A atuação de Dunaway seria, contudo, arrasada pela crítica, valendo-lhe mesmo uma nomeação para a Framboesa de Ouro de Pior Atriz. Por contraste, a novata Helen Slater ficou muito perto de conquistar um Saturn Award na categoria de melhor atriz;
*O primeiro poster promocional do filme mostrava. erradamente, a Estátua da Liberdade a segurar a tocha na mão esquerda;

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A Estátua da Liberdade virou canhota
 num dos cartazes de Supergirl.

*Na gravação da cena em que a Supergirl sai a voar do lago foi utilizada uma fotografia de Helen Slater colada num recorte de madeira. Já a produção do genérico de abertura cifrou-se em um milhão de dólares;
*Único filme baseado no Universo DC a não ser distribuído pela Warner Bros, Supergirl nunca foi incluído em qualquer antologia da saga cinematográfica do Superman, apesar de dela ser oficialmente parte integrante;
*Criação de Otto Binder e Al Plastino, Supergirl fez a sua primeira aparição em maio de 1959, nas páginas de Action Comics nº252 (fiquem a saber mais em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/02/heroinas-em-acao-supergirl.html). Um quarto de século após a sua estreia na banda desenhada, tornar-se-ia a primeira super-heroína de língua inglesa a protagonizar o seu próprio filme;
*Nos quadradinhos, Argo City escapa à destruição de Krypton graças à genialidade científica de Zor-El (pai de Kara), que prepara antecipadamente a cidade para sobreviver à iminente implosão do planeta. Nessa versão clássica da sua origem, Kara nasce vários anos após o seu primo, Kal-El, ter sido enviado para a Terra;
*Em 2017, 33 anos após o advento da Rapariga de Aço aos cinemas, a personagem Selena ganhou estatuto canónico ao ser introduzida em Supergirl nº10. Uma ironia considerando que, apenas dois meses antes do lançamento do filme, a DC Comics havia inopinadamente cancelado a série mensal da heroína. Como se isso não bastasse, em 1985 removeria a Supergirl da sua continuidade após  sua morte às mãos do Antimonitor num dos capítulos mais dramáticos da saga Crise nas Infinitas Terras;
*Dada a ausência do Superman no filme, coube a Jimmy Olsen fazer a ponte com a saga original. Marc McClure foi, aliás, o único ator a fazer o pleno de participações nas cinco produções que compõem a franquia;

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Marc McClure marcou presença em todos os filmes da Super-família.
*Num dos rascunhos iniciais do enredo estava prevista a participação do Superman. O herói marcaria presença em duas cenas: na primeira daria as boas-vindas à prima no momento da sua chegada ao nosso mundo; na segunda seria salvo por ela depois de ter perdido os seus poderes e de ter envelhecido precocemente por causa da magia de Selena. Apesar de nada disto se ter concretizado, o Homem de Aço é duplamente referenciado na película. Através de um noticiário escutado atentamente por Selena, ficamos a saber que o herói se encontra temporariamente ausente da Terra em missão de paz numa galáxia distante. Na parede do quarto partilhado por Linda Lee e Lucy Lane, está também colado um poster do Superman;
*Superman e Supergirl encontraram-se no mundo real. Helen Slater e Christopher Reeve combinaram encontrar-se certa noite em Nova Iorque para discutirem o significado de interpretar um super-herói. Enquanto conversavam sentados num banco do Central Park foram surpreendidos pelas sirenes dos bombeiros que acorriam a um incêndio nas redondezas. Percebendo a ironia da situação, Reeve, segundo relatou a própria Helen Slater, terá gracejado: "Parece que é a nossa noite de folga";
*Atualmente com 56 anos de idade, em 2001 Helen Slater retomou contacto com o Universo DC ao interpretar Lara - a mãe kryptoniana do Superman - em três episódios de Smallville. Já na série televisiva da Supergirl no ar desde 2015, coube-lhe o papel de Eliza Danvers, mãe adotiva de Kara;

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Helen Slater no papel de mãe adotiva
 da atual Supergirl (Melissa Benoist).
*Tanto na adaptação oficial de Supergirl aos quadradinhos como na novela posteriormente editada, fica claro que decorreram vários anos entre o momento da partida de Kara de Argo City e a sua chegada à Terra. Devido ao desejo dos produtores de usarem Helen Slater desde o início, esse elemento foi omitido do filme;
*Quando Linda Lee e Lucy Lane se encontram pela primeira vez, a irmã mais nova de Lois Lane estava ler uma revista do Hulk, propriedade da rival Marvel Comics. Este é, de resto, um dos muitos easter eggs plantados ao longo do filme que convido os meus sagazes leitores a descobrirem.

Veredito: 58%

Logo a seguir à Mulher-Maravilha, Supergirl ocupa o segundo lugar no meu pódio de super-heroínas favoritas. Dada a minha elevada estima pela prima do Homem de Aço, seria o primeiro a zurzir o seu filme se este fosse realmente tão mau como o pintaram.
Mais frustrante do que o fraco apuro de bilheteira, foi o linchamento de que Supergirl foi sendo vítima ao longo dos anos quer por parte da crítica dita especializada quer por parte de pretensos fãs. Acredito até que, neste como em tantos outros casos, esses ataques virulentos terão partido de quem nunca viu o filme ou prefira os da concorrência.
Infelizmente, essa é uma prática consagrada que tem vindo a ganhar maior expressão nos últimos anos, mercê da rivalidade entre os Universos Estendidos da Marvel e da DC. E que, em última instância, serve, essencialmente, para condicionar o julgamento dos mais desavisados. Tendo como efeito colateral a morte prematura de franquias em favor da prosperidade de outras.
Em todo o caso, não há como negar certos aspetos negativos de Supergirl. Trama incoerente, interpretações sofríveis e vilões insípidos são alguns dos problemas mais frequentemente apontados a um filme que, não obstante, possui também pontos positivos que importa realçar.
O maior trunfo de Supergirl é, sem sombra de dúvida, a sua protagonista. Tal como Christopher Reeve foi O Superman sem, contudo, deixar de ser convincente no papel de Clark Kent, Helen Slater também teve o condão de ser duplamente competente na sua interpretação. Sem prejuízo da graciosidade da Rapariga de Aço, a jovem atriz transmitiu na perfeição a ingenuidade de Linda Lee.
Helen Slater partilha, de resto, com Christopher Reeve o dom de usar uma roupa espampanante sem parecer ridícula. Isto apesar de ter disposto de menos tempo para aprimorar esse talento do que a sua contraparte masculina.

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Helen Slater foi uma aposta ganha como Supergirl.
Mesmo à luz dos padrões técnicos atuais, os efeitos especiais de Supergirl - numa época que não existia CGI - são bastante aceitáveis. Ao contrário, por exemplo, de Superman IV, a produção não olhou a despesas nesse capítulo, possibilitando dessa forma sequências de rara beleza como o "ballet voador" de Kara aquando da sua chegada ao nosso planeta.
Outro dos pontos positivos do filme é o desenvolvimento de alguns conceitos herdados da saga original. Caso, por exemplo, da Zona Fantasma cuja representação consistira até esse momento num espelho rodopiante.
Em Supergirl conseguimos finalmente espreitar o que se esconde por trás do espelho. Contudo, a estética da Zona Fantasma poderia ter sido ainda mais fascinante se o realizador não tivesse desistido da ideia de filmar as respetivas cenas a preto em branco, o que teria reforçado a natureza etérea desse território povoado pelos mais perigosos malfeitores de Krypton.
Também o recurso à magia foi uma jogada de mestre. A par da kryptonita, essa é outra das vulnerabilidades dos kryptonianos. Como os argumentistas já tinham usado e abusado das pedras verdes nos filmes do Homem de Aço, desta feita deitaram mão às artes arcanas para dificultar a vida à heroína.
O único problema desta opção foi não ter sido devidamente explanada na trama. Por conseguinte, não deverá ter faltado quem tenha achado patético ver uma heroína capaz de dobrar barras de aço com as mãos a ser afetada por bruxarias de uma aprendiz de feiticeira.
Estranho foi também que, para salvar uma franquia em declínio, os produtores tenham laborado nos mesmos erros que ditaram o fracasso de Superman III. Embora mais doseado, o histrionismo está presente em Supergirl, sobretudo em cenas envolvendo os vilões - já de si caricaturais.
Por mais que essa vertente cómica seja apreciada pelo público em geral, os verdadeiros fãs de super-heróis não vão ao cinema para ver os seus ídolos fazerem umas palhaçadas. Fazem-no para recapturar alguma da inocência perdida da infância e em busca de um salutar escapismo à amoralidade do mundo real, onde é cada vez mais difusa a fronteira entre o certo e o errado.
Duas raridades nos filmes de super-heróis mais recentes mas que podem ser encontradas em Supergirl, esse clássico injustiçado que merece ser visto com um olhar menos cínico.

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De certo modo, a Supergirl continua cativa na Zona Fantasma
 para onde os críticos a atiraram.








10 de abril de 2018

ETERNOS: ROY THOMAS (1940 - ...)


Stan Lee confiou-lhe a chave da Casa das Ideias e ele, não mais despindo a pele de guardião do templo, salvou-a da ruína iminente. Da sua incansável pena saíram histórias e personagens emblemáticas, pelas quais nem sempre foi reconhecido. Fascinado pela mitologia da Idade do Ouro, na DC - onde deu os primeiros passos e que quis rebatizar - cumpriu o sonho de trabalhar com os seus ídolos de infância.

De seu nome completo Roy William Thomas, Jr., aquele que, aos ombros de um gigante da 9ª Arte, entraria para os anais da Marvel Comics como seu segundo editor-chefe veio ao mundo a 22 de novembro de 1940 em Jackson, pitoresca cidade impregnada do charme sulista do Missouri.
Leitor voraz de banda desenhada desde que aprendera a juntar as primeiras letras, era ainda pessoa de palmo e meio quando começou a produzir as suas próprias historietas aos quadradinhos. Entre esses projetos editoriais dos seus verdes anos, recorda com especial carinho All-Giant Comics, título totalmente da sua autoria que tinha Elephant Giant (Elefante Gigante) como cabeça de cartaz.
Coincidindo com a (re)fundação da Marvel Comics, em 1961 Roy Thomas diplomou-se em Ciências Educativas (com dupla especialização em História e Literatura Americana) através da Southeast Missouri University, instituição pública com extensos pergaminhos na área da formação pedagógica.
Nesses idos de 60 era ainda intenso o fulgor da Idade da Prata, período em que se assistiu ao recrudescimento do género super-heroico após o declínio registado no pós-guerra. Fiel à sua paixão de sempre, Roy Thomas, recém-chegado à idade adulta, era, por aqueles dias, um dos mais dinâmicos membros da comunidade de fãs. Que tinha em Jerry Bails o seu fundador e mais venerado guru.
Doutorada em Física, Bails foi pioneiro no estudo do impacto cultural dos super-heróis, tendo sido também o primeiro a reconhecer-lhes valor académico. Instado pelo à época editor-chefe da DC, Julius Schwartz, em 1961 o bom doutor lançaria  Alter Ego, um fanzine que, malgrado o seu grafismo tosco, depressa se converteria no evangelho dos seus cada vez mais numerosos apóstolos.

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O primeiro número de Alter Ego foi lançado em 1961.
Entre aqueles que, com fervor religioso, alimentavam essa borbulhante subcultura ia sobressaindo um jovem professor de Inglês do Missouri chamado Roy Thomas. Em comum, ele e Bails possuíam ainda um profundo fascínio pela Idade do Ouro, mormente pelo respetivo panteão heroico.
Por meio de doutas análises e dissertações, Roy Thomas colaborou em Alter Ego desde o primeiro número, tornando-se dessa forma o braço-direito de Jerry Bails. Isto ao mesmo tempo que via serem publicadas várias cartas da sua lavra nas secções de correspondência da Marvel e da DC, onde granjeara o estatuto de habitué. Afirmando-se, sem embargo, como uma das vozes mais respeitadas no fandom norte-americano.
Quando, em 1964, Jerry Bails abandonou o fanzine para se dedicar a outros projetos, foi com naturalidade que passou o testemunho a Roy Thomas. Facto que poderá por alguns ser percecionado como um curioso prenúncio do seu percurso ascendente na Casa das Ideias ao longo da segunda metade desse decénio.
A despeito da sua determinação em não deixar Alter Ego definhar, privando desse modo os fãs de uma inestimável fonte de informação numa época em que a Internet pertencia ao domínio da mais delirante ficção científica, em 1965 Roy Thomas recebeu uma proposta irrecusável. A convite de Mort Weisinger, o temperamental editor das séries periódicas do Superman, Thomas abalou para Nova Iorque, para trabalhar como seu assistente.
Segundo contaria o próprio Roy Thomas, em entrevista datada de 2005, o surpreendente convite de Weisinger (com quem trocara apenas uma ou duas cartas) surgiu poucos dias depois de lhe ter sido concedida uma bolsa académica para financiar os seus estudos em Relações Internacionais na George Washington University, na capital federal dos EUA.
A esta escolha não deverá, contudo, ter sido alheia a circunstância de, poucos meses antes, Roy Thomas ter assinado uma história de Jimmy Olsen. Tal como Lois Lane, o fotógrafo do Daily Planet amigo do Homem de Aço dispunha na altura de série mensal em nome próprio.

Cover
A história de Roy Thomas
 publicada neste número da Superman's Pal Jimmy Olsen
rendeu-lhe um convite para trabalhar na DC.
Radiante com o se lhe prefigurava um emprego de sonho, Roy Thomas não pensou duas vezes antes de aceitar o convite de Weisinger. Este não era, no entanto, conhecido pelo seu trato fácil e logo despontaram as primeiras fricções entre ambos.
Ao fim de um dia de trabalho particularmente tenso, Roy Thomas, prestes a desmoronar emocionalmente, sentiu uma premente necessidade de extravasar as suas frustrações. Ocorreu-lhe fazê-lo através da escrita. A partir do seu minúsculo quarto de hotel em Manhattan, redigiu uma carta endereçada a ninguém menos do que Stan Lee. Essas singelas linhas mudariam para sempre a sua vida.
Thomas era um profundo admirador do trabalho que Lee vinha desenvolvendo no posto de editor-chefe da Marvel, e disso mesmo lhe deu conta na missiva que lhe enviou. Na esperança de que o mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias se lembrasse dele do tempo em que colaborara no fanzine Alter Ego, Thomas convidou o seu ilustre interlocutor para uma bebida e dois dedos de prosa.
Tratou-se, todavia, de um gesto de simples cortesia. Conforme Roy Thomas reiterou em diversas ocasiões, apesar da sua insatisfação laboral, não tinha em mente candidatar-se a um emprego na concorrente que mordia os calcanhares à companhia para a qual trabalhava na altura.
A resposta de Stan Lee surgiu logo no dia seguinte sob a forma de um telefonema. O Papa da Marvel lembrava-se bem de Roy Thomas e desafiou-o a realizar o teste de escrita a que a editora submetia os aspirantes a roteiristas.
Embora constrangido, Roy Thomas resolveu de todo o modo juntar o útil ao agradável. Com o referido teste a consistir, tão-somente, na inserção de diálogos em quatro páginas a preto e branco de Fantastic Four Annual nº2 desenhadas por Jack Kirby. Seria, de resto, uma das últimas vezes em que esse método de seleção de candidatos foi aplicado na Casa das Ideias.
No dia seguinte, quando trabalhava no seu cubículo no quartel-general da DC, Roy Thomas recebeu o telefonema de um funcionário da Marvel que lhe transmitiu o convite de Stan Lee para que almoçassem juntos naquele mesmo dia.
Durante o repasto partilhado num modesto restaurante na baixa de Manhattan, Stan Lee propôs a Thomas que trocasse a DC pela Marvel. Proposta que o segundo, embora aturdido, aceitou de bom grado.
Regressado à Editora das Lendas, Roy Thomas logo cuidou de informar Mort Weisinger da sua decisão de ir trabalhar em breve para a arquirrival. Com a rispidez que o caracterizava, Weisinger ordenou-lhe, porém, que limpasse de pronto a sua secretária.
Apenas oito dias após ter sido contratado pela DC - e menos de uma hora depois de ter aceitado o convite de Stan Lee -, Roy Thomas mudou-se de armas e bagagens para a Casa das Ideias. Onde tinha já à sua espera a sua primeira empreitada literária: uma história para Modeling With Millie (decana das séries humorísticas da Marvel) que, em virtude do prazo apertado, escreveu contrarrelógio. E pela qual, devido a um alegado lapso editorial, não chegaria a ser creditado.

Modeling with Millie #52
A primeira história de Roy Thomas para a Marvel
 foi publicada nesta série humorística.
Roy Thomas recorda assim esses seus frenéticos primeiros dias na Casa das Ideias: «A minha primeira categoria profissional na Marvel Comics foi "escritor de apoio". O meu trabalho consistia em datilografar manuscritos 40 horas por semana com o gerente de produção Sol Brodsky e a sua secretária. Toda a gente que aparecia no escritório passava por mim e os telefones não paravam de tocar. Como se isso não perturbasse suficientemente a minha concentração, Stan Lee, seguindo uma prática consagrada, verificava pessoalmente cada uma das histórias finalizadas, trocando impressões com Brodsky a pouco passos da minha secretária. Era também comum Stan pedir-me para fazer outras coisas, ou perguntar-me em que edição tivera lugar determinada história, dado o meu sólido conhecimento da continuidade da Marvel naquela altura. Depressa, porém, ficou claro para todos que aquilo não estava a funcionar e Stan promoveu-me a redator assistente.»
Naqueles dias de glória em que das suas paredes a imaginação escorria em cascata, a Casa das Ideias tinha em Stan Lee e no seu irmão, Larry Lieber, os seus principais escribas. Recolhendo, numa primeira fase, as sobras das tramas planeadas por Lee, Roy Thomas, para despeito de alguns escritores veteranos ao serviço da editora,  logrou tornar-se presença assídua.

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Da esq. para a dir.: Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber,
os Três Mosqueteiros da Casa das Ideias.  

Roy Thomas seria o seu D'Artagnan. 

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Em janeiro de 1966, uma história do Homem de Ferro saída da pena de Roy Thomas foi publicada em Tales of Suspense nº73, marcando assim a sua estreia com aqueles que eram os maiores astros da companhia: os super-heróis.
Nesse mesmo mês, duas outras histórias da sua lavra foram também dadas à estampa pela Charlton Comics*, editora com a qual colaborara brevemente como autor freelancer. Apesar de não ter ficado particularmente impressionado com esses trabalhos de Thomas para a rival, em abril de 1966 Stan Lee confiou-lhe o seu primeiro título.
Durante exatamente um ano, Sgt. Fury and his Howling Commandos teve as suas histórias ambientadas na II Guerra Mundial escritas por Roy Thomas. Que, logo depois, assumiria Uncanny X-Men e The Avengers, duas das séries mais emblemáticas da Marvel.
A uma forte noção de continuidade, Roy Thomas aliava uma notável versatilidade narrativa que lhe permitia abordar com idêntico à-vontade histórias de caráter intimista ou epopeias cósmicas, como a guerra Kree-Skrull.
A este propósito declarou Thomas numa entrevista dada em 1981: «Uma das razões pelas quais Stan Lee apreciava o meu trabalho era porque sentia que podia confiar em mim ao ponto de não ter que ler nada do que eu escrevia. Quanto muito, leria uma ou duas páginas apenas para garantir que eu permanecia no caminho certo.»

Sgt Fury Vol 1 30


Avengers Vol 1 58

X-Men Vol 1 39
Três dos títulos Marvel em que Roy Thomas imprimiu o seu cunho.
Cada vez mais requisitado, em julho de 1968 Roy Thomas escapuliu-se durante alguns dias para casar com Jean Maxey, a sua primeira mulher. Mas nem durante a lua-de-mel do casal Thomas deu descanso à pena. Durante as suas férias caribenhas escreveu o casamento de Hank Pym e Janet Van Dyne ( o Homem-Formiga e a Vespa), aquele que se tornaria um dos capítulos mais memoráveis da história dos Vingadores.
O ano de 1969 teve um travo agridoce para Roy Thomas. Investido da espinhosa missão de contrariar a morte anunciada de Uncanny X-Men - título que se havia transformado num cemitério de roteiristas - Roy Thomas mais não conseguiu do que adiar o inevitável. Meses depois seria, porém, agraciado com o primeiro prémio de relevo da sua carreira pejada deles: o Alley Award para melhor escritor.
No que alguns consideram ter sido uma jogada de alto risco, em 1970 Roy Thomas introduziu o género Espada e Feitiçaria no Universo Marvel. Fê-lo através de Conan the Barbarian, título baseado na personagem homónima idealizada por Robert E. Howard em 1932, e que fora um dos maiores expoentes da literatura pulp.
Combinando o texto ágil de Thomas com as belíssimas ilustrações de Barry Windsor-Smith, a série do errático gigante cimério redundou num estrepitoso sucesso, abrindo caminho para a sua transposição ao cinema. A meias com Gerry Conway**, em 1984 Roy Thomas assinou o enredo de Conan the Destroyer, sequela de Conan the Barbarian. Filme que, recorde-se, um par de anos antes, apresentara ao mundo o ex-Mister Olímpia Arnold Schwarzenegger.

Conan the Barbarian 1


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Primeiro na BD e depois no cinema,
Conan foi um sucesso com o dedo de Roy Thomas.
Mesmo depois de, em 1972, Stan Lee lhe ter confiado as chaves do reino dourado, Roy Thomas, assim alcandorado a editor-chefe da Marvel, continuou a produzir histórias a uma cadência estonteante. Dedicando-se de alma e coração à sua nova missão, lançaria também séries inéditas que se revelariam apostas ganhas. Casos, por exemplo, de The Defenders e What If?, esta última introduzindo o conceito de realidades alternativas.
Ao mesmo tempo que, animado pelo seu imorredouro fascínio pela Idade do Ouro, criava os Invasores (coletivo que agrupava alguns dos ícones dessa era, como Capitão América e o Príncipe Submarino), a sua prodigiosa imaginação gerou uma nova safra de personagens icónicas. Punho de Ferro, Motoqueiro Fantasma e Miss Marvel seriam adições de peso ao panteão da Casa das Ideias.
Ainda hoje um acérrimo defensor dos direitos autorais, Roy Thomas teve um amargo de boca ao não ser creditado como cocriador de Wolverine. Nome que, na sua qualidade de editor-chefe, havia sugerido a Len Wein e John Romita, em alternativa a The Badger. Curiosamente, anos depois, seria essa a alcunha dada por Mike Baron ao seu anti-herói celebrizado pela First Comics***.
Levando em conta esses e outros precedentes, Roy Thomas preferiu amiúde a reciclagem de conceitos preexistentes à criação de personagens inéditas. Entre os que por ele foram resgatados das brumas da memória destacam-se Adam Warlock, Visão e Cavaleiro Negro, cujas versões modernas se tornaram casos sérios de popularidade.

Foto de Ricardo Cardoso.


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Miss Marvel, Punho de Ferro e Motoqueiro Fantasma:
três criações icónicas de Roy Thomas para a Casa das Ideias.
Apesar de ter abandonado as funções de editor-chefe da Marvel em 1974, Roy Thomas não mais despiu a pele de guardião do templo. Tendo a sua intervenção sido providencial para, volvidos três anos, salvar a editora da bancarrota iminente.
Graças à sua perseverança e capacidade negocial, a adaptação oficial do primeiro filme da saga Star Wars foi lançada sob a chancela da Marvel. Projeto que antecedeu uma lucrativa série mensal baseada no universo imaginado por George Lucas, e cujas histórias ficaram inicialmente a cargo do próprio Roy Thomas.

Marvel Special Edition Featuring Star Wars Vol 1 1
A adaptação aos quadradinhos de Star Wars
 foi o deus ex machina da crise financeira que afetava a Marvel.
Após um longo braço-de-ferro com Jim Shooter (o novo editor-chefe da Marvel), motivado por disputas criativas, em 1981 Roy Thomas assinou um contrato de exclusividade com a DC válido por três anos. Nesse mesmo ano casou, em segundas núpcias, com Danette Couto, que se tornaria sua parceira criativa nessa nova fase seminal da sua carreira. Pela mão do marido, Danette (celebrizada como Dan Thomas) seria, aliás, a primeira mulher a escrever as histórias da Princesa Amazona.
Numa altura em que a Editora das Lendas fora já destronada pela Marvel na preferência dos leitores, Roy Thomas conseguiu dar novo impulso a vários dos seus títulos de charneira. Graças ao seu toque de Midas, Wonder Woman, DC Comics Presents e Legion of the Super-Heroes recuperaram a vitalidade de outrora.
Embalado por estes sucessos - e tendo em mente projetar uma imagem de maior dinamismo -, Roy Thomas propôs rebatizar a DC. Iniciais que, no seu entendimento, deveriam doravante corresponder a Dynamic Comics.
Apesar desta sua ideia ter sido liminarmente rejeitada pela direção da empresa, Roy Thomas cumpriria entretanto um sonho de infância: escrever as histórias da Sociedade da Justiça da América.  Grupo que reunia alguns dos maiores heróis da Idade do Ouro e que, graças à sua mestria e dedicação, foi devolvido à ribalta nas páginas de All-Star Squadron.
Já com mais de uma dúzia de comendas a adornar-lhe o currículo, em 1985 Roy Thomas foi uma das 50 personalidades homenageadas pela DC, no âmbito das comemorações do 50º aniversário da editora. Outras honrarias se seguiriam, invariavelmente recebidas com a humildade que sempre caracterizou aquele que é, sombra de dúvidas, um dos maiores vultos da 9ª Arte.

Sociedade da Justiça da América em All-Star Squadron:
o regresso de um clássico com a assinatura de Roy Thomas.
 A partir da década seguinte, começaram no entanto a rarear as colaborações de Roy Thomas com as grandes editoras, preteridas em relação às companhias independentes. 
Numa espécie de regresso às origens, em 1999 relançou Alter Ego, agora como uma revista formal editada pela TwoMorrows Publishing.A residir desde 2006 na Carolina do Sul, em anos mais recentes Roy Thomas tem-se desdobrado entre a atividade literária e as suas funções de dirigente da Hero Initiative. Organização solidária sem fins lucrativos que presta assistência aos deserdados da indústria dos quadradinhos. Pelo meio, em 2014, escreveu 75 Years of Marvel: From  the Golden Agen to the Silver Screen, um imponente volume de 700 páginas que compila a história da Casa das Ideias desde a sua fundação até à atualidade.
Ontem como hoje, Roy Thomas possui o condão de ser o homem certo no lugar certo e no tempo certo. Ter crescido à sombra de titãs da  9ª Arte, serviu apenas para o transformar num deles.

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A rediviva Alter Ego.

Roy Thomas com Stan Lee na apresentação de
 75 Years of Marvel: from the Golden Age to the Silver Screen.
Uma obra para a eternidade.


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/03/eternos-gerry-conway-1952.html
***http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/03/fabrica-de-mitos-first-comics.html



















































21 de março de 2018

GALERIA DE VILÃS: RAINHA BRANCA


  Como Rainha Branca do Clube do Inferno ou ao lado dos X-Men, à sua maneira lutou sempre em prol da revolução mutante. Telepata poderosa de passado trágico e nebuloso, a sua personalidade dúbia faz dela uma incógnita indecifrável. 

Denominação original: White Queen
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Chris Claremont (história) e John Byrne (história e arte conceitual)
Estreia: X-Men nº129 (janeiro de 1980)
Identidade civil: Emma Grace Frost
Local de nascimento: Boston, Massachusetts
Espécie: Homo superior (designação científica para indivíduos portadores do gene X)
Parentes conhecidos: Winston e Hazel Frost (pais), Christian Frost (irmão), Adrienne Frost (irmã, falecida), Cordelia Frost (irmã) e Irmãs Stepford (também conhecidas como Irmãs Cuckoos, as trigémeas têm em Emma Frost uma figura maternal embora sejam na verdade seus clones).
Ocupação: Ex-dançarina exótica, ex-Rainha Branca do Clube do Inferno, ex-presidente do Conselho de Administração da Frost Internacional, ex-vice-reitora do Instituto Xavier para Jovens Sobredotados, ex-diretora da Academia de Massachusetts, é atualmente professora da Nova Escola Xavier para Mutantes, terapeuta sexual encartada e aventureira.
Base operacional: No seu mapa de localizações temporárias pontuam geografias tão díspares como Nova Iorque. São Francisco, Canadá ou Genosha.
Afiliações: Clube do Inferno, Frost Internacional, Cabala, Satânicos, Geração X, Quinteto Fénix e X-Men
Armas, poderes e habilidades: Telepata de Classe Ómega (o máximo na escala utilizada para classificar os detentores de poderes psíquicos), a Rainha Branca já demonstrou reiteradas vezes ser capaz de proezas extraordinárias ao ponto de rivalizar com o próprio Professor Xavier.
No seu extenso índice de habilidades telepáticas avultam, por exemplo, a leitura de mentes, a telecinesia, a projeção astral, de rajadas e escudos psiónicos, a cura de traumas, a camuflagem psíquica, bem como a alteração de memórias e perceções alheias.
Efeito da sua mutação secundária, a Rainha Branca adquiriu num passado recente a capacidade de transmutar os seus tecidos orgânicos numa substância com características similares às do diamante. Quando assume essa forma, o seu corpo torna-se translúcido e virtualmente indestrutível conservando, porém, total flexibilidade acrescida de força sobre-humana.

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Um coração de gelo num corpo de diamante.
Exímia no combate astral, a Rainha Branca está longe de ficar indefesa se privada dos seus poderes no plano terreno. Ou não fosse ela uma atleta treinada que domina várias técnicas de autodefesa.
Aliando a sua exuberante sensualidade a um quociente de inteligência acima da média, a Rainha Branca é extremamente persuasiva, circunstância que faz dela uma hábil manipuladora mesmo quando não recorre aos seus talentos mutantes.
No que a competências técnicas concerne, a sua reconhecida vocação pedagógica constitui uma mais-valia para o corpo docente de qualquer instituição de ensino. É também altamente qualificada no campo da Eletrónica, tendo já projetado diversos aparatos para, entre outros fins, amplificar os seus poderes mentais.
Levando em consideração estes e outros recursos que a Rainha Branca tem à sua disposição, não é pois de espantar que quase todos prefiram tê-la como aliada em vez de inimiga.
Fraquezas: Quando assume a sua forma diamantina, Emma Frost tem os seus poderes psiónicos desabilitados, apesar de permanecer imune a ataques telepáticos. Desenvolveu também problemas de alcoolismo após ter assassinado a sua irmã Adrienne (ver Geração X, o elo perdido), adição de que parece nunca ter-se curado por completo.

A Rainha Branca é uma das cinco telepatas
 mais poderosas do mundo.

Conceção e histórico de publicação

Outro produto de sucesso com a assinatura da dupla-maravilha composta por Chris Claremont e John Byrne, na sua estreia em X-Men nº129 (edição datada de janeiro de 1980 que correspondia a um dos capítulos iniciais da ovacionada Saga da Fénix Negra), Emma Frost havia já sido entronizada como Rainha Branca do Clube do Inferno, título através do qual se notabilizaria no imaginário coletivo.
Facto menos consabido, foi a um antigo episódio da popular série de espionagem britânica Os Vingadores (no ar entre 1961 e 1969) que Claremont foi beber inspiração para criar o Clube do Inferno (Hellfire Club) e as suas voluptuosas Rainha Negra e Rainha Branca.
Investida, no referido episódio, da missão de se infiltrar numa poderosa sociedade secreta que cultivava o hedonismo ao mesmo tempo que urdia planos de dominação mundial, a escultural Emma Peel - que, com John Steed, coprotagonizava a série - criou a sensual persona Rainha do Pecado. Envergando um corpete negro, uma coleira e botas de cano alto a condizer, a sua insinuante indumentária serviu de modelo àquelas que fariam da Rainha Negra e da Rainha Branca (que mais não é que uma declinação da primeira) dois dos maiores símbolos sexuais da banda desenhada.

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X-Men nº129 (1980) apresentou
 a Rainha Branca aos fãs dos Filhos do Átomo.
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O insinuante figurino da Rainha do Pecado (cima)
 inspirou os paramentos
 das Rainhas do Clube do Inferno.
Sempre como vilã, após o epílogo da Saga da Fénix Negra, a Rainha Branca continuou a ser presença assídua nas histórias dos X-Men e, paralelamente, nas dos Novos Mutantes, onde surgia acolitada pelos seus Satânicos (vide respetivo prontuário infra).
Em busca de redenção após a chacina dos seus pupilos, a Rainha Branca desempenhou papel capital em Phalanx Covenant (Aliança Falange), saga em que ajudou a salvar a próxima geração de mutantes de um tenebroso destino. Em virtude disso, tornar-se-ia personagem central em Generation X, spin-off dos X-Men que serviu também para revisitar o passado de Emma Frost anterior à sua filiação no Clube do Inferno. Nesta fase seriam ainda apresentadas as suas duas irmãs, Adrienne e Cordelia, a primeira das quais ficaria inextricavelmente associada a um dos momentos definidores da carreira da Rainha Branca.
Ao cancelamento de Generation X seguiu-se, na viragem do século, uma revitalização dos títulos estrelados pelos Filhos do Átomo. Em 2001, Emma Frost reapareceu em New X-Men como professora da população Homo superior de Genosha, nação imaginária conhecida em tempos por escravizar mutantes e que, depois de libertada, era agora governada por Magneto.
Na sequência de um ataque dos Sentinelas a Genosha, os X-Men resgataram Emma Frost dos escombros fumegantes da capital e perceberam que ela tinha sofrido uma mutação secundária que conferia à sua pele a densidade e aparência de um diamante.
A ideia de Emma Frost se unir aos X-Men foi sugerida por um fã a Grant Morrison. Até aí, o escriba britânico de New X-Men não tinha qualquer intenção de incluí-la na série. A recente morte de Colossus deixara, contudo, uma vaga por preencher na equipa, o que motivou Morrison a acolher a sugestão, criando para esse efeito a mutação secundária de Emma Frost.
Integrada nos X-Men, Emma envolver-se-ia romanticamente com Ciclope quando o casamento deste com Jean Grey atravessava uma profunda crise. A série revelaria também mais alguns segredos do passado de Frost, designadamente a turbulenta relação que ela mantivera na puberdade com o seu austero progenitor, assim como a sua cumplicidade com Christian, o seu irmão homossexual. Elementos que seriam posteriormente desenvolvidos em Emma Frost, série em nome próprio que, ao longo de 18 edições, revisitou capítulos até então desconhecidos da história familiar da ex-Rainha Branca do Clube do Inferno.

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Quando o impensável acontece: Emma Frost nos X-Men.
Personagem central no terceiro volume de Uncanny X-Men, Emma Frost viu a sua lealdade aos X-Men ser testada uma e outra vez, ao mesmo tempo que participava como convidada especial noutros títulos estrelados pelos Filhos do Átomo.
Após as mortes de Jean Grey e do Professor Xavier, nos últimos anos Emma Frost, agora uma das mais poderosas telepatas à face da terra, tem vindo a reforçar a sua influência na nova revolução mutante conduzida por Ciclope. Independentemente do que o futuro lhe vier a reservar, ela será a eterna Rainha Branca que, mesmo destronada, conserva intacta a sua majestade.

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Ciclope e Rainha Branca 
personificam a nova revolução mutante.
Origem

Nascida em berço de prata, no seio de uma das mais abonadas e conservadoras famílias de Boston, com raízes na Velha Albion, contrariamente ao que seria expectável Emma Frost não teve uma infância de sonho. Muito pelo contrário.
A segunda de três irmãs (todas portadoras do gene X), Emma tinha no seu irmão mais velho, Christian, o seu confidente e único amigo. Em virtude da sua recém-assumida homossexualidade, Christian era no entanto o alvo preferido das judiarias de Winston, o abusivo patriarca do clã Frost.
Se em casa a atmosfera era praticamente irrespirável, a escola era território ainda mais hostil para a pequena Emma. Aluna medíocre e desajeitada, era sistematicamente humilhada pelas suas colegas no seleto colégio feminino que frequentava. Assim transformada numa pária social, já adolescente, encontraria consolo num jovem e compassivo professor chamado Ian Kendall, por quem se perderia de amores.
Foi também durante essa atribulada fase da vida de Emma que os seus poderes telepáticos despontaram. Quando aprendeu a controlá-los, usou-os para ler as mentes das pessoas que a rodeavam, o que lhe permitiu obter excelentes notas.

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A jovem Emma Frost e o seu irmão Christian.
Entretanto, após anos de tensões acumuladas, a família Frost começou finalmente a desmoronar. Às constantes retaliações do pai, inconformado com a homossexualidade do primogénito, Christian respondia com o consumo de drogas e várias tentativas de suicídio. Perante a passividade da mãe, entupida com calmantes e cada vez mais alheada da dolorosa realidade circundante, Adrienne, a filha mais velha, começou a evidenciar uma personalidade psicopática, ao passo que Cordelia, a problemática benjamim, tudo fazia para chamar a atenção.

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Como muitas adolescentes, Emma
 teve uma paixoneta por um professor.
Incapaz de continuar a suportar semelhante calvário, Emma fugiu de casa, numa altura em que ignorava ainda a real origem e extensão dos seus poderes. Após algumas semanas a viver na rua, conheceu Troy, um jovem simpático pelo qual ela se apaixonou e que a convidou a morar com ele. O casal, no entanto, não viveu feliz para sempre.
Troy tinha uma avultada dívida para com um agiota, que prometia matá-lo caso não a saldasse. Temendo pela vida do namorado, Emma simulou o próprio rapto para extorquir dinheiro ao pai. Porém, as coisas não correram como planeado e Troy acabou mesmo executado pelos comparsas do agiota. Enfurecida, Emma usou os seus poderes mentais para projetar ilusões, levando dessa forma os bandidos a matarem-se uns aos outros.
Outra vez entregue à sua sorte, Emma resolveu dar nova guinada na sua vida. Depois de ter tingido o cabelo de loiro (uma das suas marcas registadas), usou o dinheiro do seu resgate para se mudar para Nova Iorque. Matriculada na Universidade Empire State, revelou-se uma aluna brilhante obtendo dois graus académicos: um mestrado em Sexologia e um bacharelato em Gestão Empresarial.
Numa altura em que os mutantes começaram a vir a público, Emma descobriu por fim a origem das suas habilidades. Mas também o doloroso estigma do preconceito. Depois de ter usado os seus poderes para ilibar o namorado de um crime que ele não cometera, foi rejeitada por ele devido ao facto de ser portadora do gene X.
Convidada a trabalhar como dançarina exótica no Clube do Inferno, grémio elitista que tinha por membros alguns dos indivíduos mais ricos e poderosos do planeta, Emma Frost foi abordada pelo Professor Xavier, que pretendia recrutá-la para os seus X-Men. Face à recusa de Emma, Xavier apagou da mente da jovem a memória do encontro.
Pouco tempo depois, Emma tornou-se aliada e amante de Sebastian Shaw, também ele um Homo superior e proeminente membro do Conselho dos Escolhidos. Aquele que era o núcleo duro do Clube do Inferno conspirava secretamente para impor uma nova ordem mundial livre de mutantes.
Com a ajuda de Frost e de outros mutantes infiltrados na organização, Shaw levou a cabo um golpe palaciano que culminou na execução dos membros do Conselho dos Escolhidos.
Entronizada Rainha Branca do Clube do Inferno, Emma Frost usou o seu cargo de presidente-executiva da Frost Internacional (conglomerado por ela fundado pouco tempo antes) para financiar as atividades subversivas do Rei Negro e restantes Lordes Cardinais.


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De stripper a Rainha Branca do Clube do Inferno.
O primeiro de muitos confrontos da Rainha Branca com os X-Men ocorreu quando ela tentou recrutar Kitty Pryde para a sua Academia de Massachusetts, instituição rival da Escola Xavier. Durante o processo, ela e os agentes do Clube do Inferno capturaram e torturaram vários pupilos do Professor X, nomeadamente Tempestade, Colossus, Wolverine e Fénix (codinome pelo qual atendia então Jean Grey).
Começava assim a lendária rivalidade entre o Clube do Inferno e os X-Men, e a ainda mais lendária rivalidade entre Emma Frost e Jean Grey.

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Tempestade torturada às mãos da Rainha Branca.

Caracterização e evolução

Emma Frost evoluiu de uma das mais perigosas antagonistas dos X-Men para uma das mais devotas defensoras da causa mutante. Pela qual, de resto, à sua maneira muito peculiar, sempre se bateu.
Contudo, mesmo depois de tantos anos ao lado dos X-Men, prevalecem ainda dúvidas sobre o que terá realmente motivado a ex-Rainha Branca do Clube do Inferno a unir-se aos seus velhos inimigos. Terá sido essa a forma por ela encontrada para expiar os seus pecados (alguns deles certamente imprescritíveis)? Ou apenas um meio para atingir um fim maior - e, quiçá, maligno - ainda por desvelar?
Emma Frost detém, com efeito, uma das personalidades mais dúbias do Universo Marvel. Devido aos seus dons telepáticos, as suas verdadeiras intenções permanecem imperscrutáveis para qualquer um. Até mesmo para aqueles que, como Ciclope, com ela mantiveram um relacionamento íntimo.
Epítome de frieza e calculismo, Emma Frost consegue como ninguém dissimular as suas emoções mesmo nas situações mais críticas. Recorrendo para esse efeito a um desarmante sarcasmo, ou até mesmo ao humor negro.

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Que segredos se escondem
 no coração de Emma Frost?
Por tudo isto, foi naturalmente com desconfiança que Emma Frost foi acolhida por alguns dos seus novos companheiros de equipa. Consciente de que o lastro de suspeição é difícil de enxaguar, ela não se tem, porém, poupado a esforços para provar a sua lealdade aos X-Men.
A par da ambiguidade moral que a caracteriza, Emma Frost teve desde sempre na sua ousada indumentária outra das suas imagens de marca. Curiosamente, aos olhos dos detratores da excessiva sexualização das personagens femininas da BD, configura, contudo, uma exceção.
Embora erotizado, o visual da Rainha Branca é consentâneo com a sua índole. Sendo mesmo apontada por certos setores feministas como modelo de mulher emancipada que, em vez de rejeitá-las, usa a seu favor as convenções sociais que oprimem a sexualidade das descendentes de Eva. Figura bíblica que ela tão bem imitou ao fazer Ciclope cair em tentação...

Satânicos: anjos ou demónios?

Versão simétrica dos Novos Mutantes arregimentados por Charles Xavier, os Satânicos (Hellions, no original) eram um grupo de mutantes adolescentes recrutados e treinados pela Rainha Branca na sua Academia de Massachusetts. Patrocinados pelo Clube do Inferno, da sua formação primordial faziam parte Apache (irmão mais novo de Pássaro Trovejante,o primeiro X-Man morto em combate), Roleta, Empata, Tarot, Jato e Olhos-de-Gato.
Apesar de os pupilos de Emma Frost terem antagonizado os Novos Mutantes em diversas ocasiões, na maior parte do tempo a relação entre as duas equipas invocava mais uma rivalidade entre escolas. Chegando mesmo alguns dos Satânicos a namoriscarem com os seus adversários.
Privados de uma vida normal devido aos seu talentos especiais, ao longo dos vários anos em que permaneceram juntos os Satânicos estabeleceram entre si fortes vínculos afetivos. Uma família de proscritos que seria desfeita numa noite fatídica.
Num gesto de desagravo que objetivava apaziguar a tensão entre o Clube do Inferno e os Filhos do Átomo, Emma Frost organizou uma festa na sua escola para a qual convidou a equipa dourada dos X-Men, à época liderada por Tempestade.

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A primeira turma de Satânicos.
O evento seria contudo violentamente interrompido pelo ataque de robôs Sentinelas às ordens de Trevor Fitzroy, também ele um mutante filho de um membro do Círculo Interno do Clube do Inferno.
Do banho de sangue que se seguiu resultaram as mortes de praticamente todos os Satânicos. Apache e Empata foram os únicos sobreviventes.
Também ela gravemente ferida por Fitzroy, a Rainha Branca ficou em estado comatoso, do qual emergiria apenas ao cabo de vários meses.
Em consequência deste trágico incidente, a Academia de Massachusetts foi encerrada e os Satânicos tornaram-se mártires improváveis da causa mutante. Culpando-se pelo sucedido, Emma Frost juntar-se-ia anos mais tarde aos X-Men. Como mentora da Geração X (vide texto seguinte) procurou redimir-se das suas falhas e conquistar a confiança do restante corpo docente do Instituto Xavier.
Criados por Chris Claremont e Sal Buscema na esteira do sucesso obtido pelos Novos Mutantes, os Satânicos (atualmente extintos), fizeram a sua primeira aparição em junho de 1984, nas páginas de New Mutants nº16.

Geração X,  o elo perdido

Coincidindo com o enorme apelo popular suscitado à época pelos títulos estrelados por mutantes, em finais de 1994 a Marvel Comics lançou novo spin-off dos X-Men.
Sucessora dos Novos Mutantes, a Geração X (Generation X) recuperava a fórmula de um coletivo de heróis adolescentes portadores do gene X, que pretendia refletir a complexidade das relações entre a comunidade Homo superior e a maioria humana. No entanto, esgotavam-se aí as semelhanças entre as duas equipas.
Diferente dos Novos Mutantes, a Geração X não era tutelada pelo Professor Xavier, tampouco fora formada no seu Instituto para Jovens Sobredotados. Em vez disso, o grupo operava sob a liderança bicéfala (e nem sempre harmoniosa) do X-Man Banshee e da - aparentemente - regenerada Rainha Branca. Como quartel-general tinha a Academia de Massachusetts entretanto reabilitada.

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Uma nova geração de mutantes
 para o 3º milénio.
Por causa destas inovações (ou apesar delas), a Geração X afirmou-se prontamente junto dos fãs e não tardou a ter direito a uma bem-sucedida série mensal em nome próprio, marcada por uma boa dose de humor e irreverência.
Reflexo desse sucesso quase instantâneo, em 1996 foi produzido um obscuro telefilme epónimo, que assinalou igualmente a estreia da Rainha Branca em ação real (ver Noutros media).
Conceito desenvolvido por Scott Lobdell e Chris Bachalo, a Geração X estreou-se em X-Men nº317 (outubro de 1994), quando estava em marcha o diabólico plano da Falange (uma raça de conquistadores alienígenas dotada de uma mente coletiva) para assimilar todos os mutantes, começando pela próxima safra de Homo superior.
Originalmente, a Geração X era composta por Derme, Câmara. Jubileu (a benjamim dos X-Men), Suplício, Escalpo, M e Sincro. Esta última sucumbiria às mão de Adrienne Frost, o que, por sua vez, levou a Rainha Branca a assassinar a própria irmã. 
Após o fim trágico dos Satânicos, Emma Frost viu-se novamente impotente para impedir a morte de uma das suas discípulas, aumentando assim o sentimento de culpa que a atormenta desde então.
Embora se propusesse formar a próxima leva de X-Men,  a Geração X seria desmantelada pouco tempo depois, tendo apenas Câmara transitado para a equipa sénior. 

Trivialidades

*Princesa do Gelo era o pseudónimo usado por Emma Frost quando trabalhava como stripper no Clube do Inferno;
*Emma adotou o branco como imagem de marca depois de o seu irmão Christian ter comentado ser essa a cor que mais a favorecia enquanto ela experimentava um vestido para o baile de finalistas do liceu;
*Durante o longo período em que controlou o corpo do Homem de Gelo, Emma Frost usou as habilidades mutantes do seu colega de equipa de formas que ele nunca imaginara sequer serem possíveis;
*Singular a vários níveis, Emma Frost é também um dos raros casos de portadores do gene X a terem desenvolvido uma mutação secundária. Especula-se que o primeiro a fazê-lo terá sido o Fera, quando teve o seu corpo recoberto por uma espessa pelagem azulada;

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As sucessivas metamorfoses do Fera,
um dos X-Men fundadores.
*Num flashback narrado pela própria, Emma Frost descreveu de forma pormenorizada a temporada que teria, alegadamente, passado numa instituição psiquiátrica para onde fora enviada pelos pais. Relato inconsistente, no entanto, com a sua biografia oficial, onde não existe qualquer registo que o comprove. Ao que parece, Emma ter-se-á inspirado na provação do seu irmão Christian para fabricar essa história, por forma a obter a compaixão dos seus jovens pupilos;
*Do currículo amoroso de Emma Frost fazem parte celebridades como Namor, o Príncipe Submarino, Tony Stark (o Homem de Ferro),  Sebastian Shaw (o ex-Rei Negro do Clube do Inferno) e Ciclope. De momento encontra-se, no entanto, solteira após o fracasso da sua relação com o ex-líder dos X-Men;
*Na lista das cem mulheres mais sensuais da banda desenhada organizada pelo Comic Buyer's Guide, Emma Frost encerra o respetivo Top 5, logo atrás, ironicamente, da sua arquirrival Jean Grey. Ciente da importância da sua beleza como arma de sedução e instrumento de poder, Emma admitiu ter já realizado várias cirurgias plásticas e não dispensa o uso de saltos altos em qualquer circunstância.


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Jean Grey e Emma Frost:
rivais em poder e sensualidade.

Noutros media

Por conta da apreciável popularidade de que gozava há vários anos na banda desenhada, foi sem surpresa que, em 1989, a Rainha Branca integrou o elenco de X-Men: Pryde of the X-Men, série animada que marcou a sua estreia no segmento audiovisual. Nesta versão, ela fazia parte da Irmandade de Mutantes e, entre outras originalidades, era capaz de voar.
Quase sempre com papel de relevo, a Rainha Branca participaria nos anos seguintes em várias séries animadas dos X-Men, como Wolverine and the X-Men (2009) e X-Men Anime (2011). Ao passo que, na primeira, surgia como membro de pleno direito dos X-Men, na segunda teve a sua personalidade suavizada, revelando uma faceta mais empática que contrastava com a sua proverbial frieza.
Ainda pelo pequeno ecrã, mas agora em ação real, em 1996 Finola Hughes foi a primeira atriz a emprestar corpo à Rainha Branca, no telefilme Generation X, que deveria ter servido de episódio-piloto para uma série nunca produzida da Geração X.

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Finola Hughes foi a primeira atriz
a encarnar a Rainha Branca.
Não tivesse sido pelo abandono de Bryan Singer da cadeira de realizador de X-Men 3, e logo em 2006 a Rainha Branca teria feito a sua estreia cinematográfica - ao que consta, interpretada por Sigourney Weaver. Papel que cinco anos mais tarde seria assumido em X-Men: First Class por January Jones.
Misturando elementos clássicos e modernos da personagem, nesta sua nova encarnação a Rainha Branca, além dos seus talentos telepáticos, possuía a capacidade de transformar o seu corpo em diamante e era consorte de Sebastian Shaw, o Rei Negro do Clube do Inferno.
Embora fisicamente ausente de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), a Rainha Branca é citada por Magneto como sendo uma das mutantes que haviam perecido na sequência dos experimentos científicos realizados pelas Indústrias Trask. Vicissitude que, pelo menos em teoria, inviabiliza a participação da vilã em vindouros capítulos da franquia dos Filhos do Átomo.

January Jones como Rainha Branca
 em X-Men: First Class.