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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ETERNOS: ALEX RAYMOND (1909-1956)


  Precursor da Idade de Ouro da BD,  o virtuosismo e a exuberância da sua obra - que teve Flash Gordon como expoente máximo - valeu-lhe o epíteto de "o artista dos artistas". Fazendo-lhe jus, antes e depois da sua morte prematura, influenciou alguns dos seus pares mais ilustres e até cineastas visionários.

Fundada em 1688 por expatriados huguenotes fugidos às perseguições religiosas de que eram vítimas na sua França natal, Nova Rochelle, pequena e próspera cidade no sudeste do estado de Nova Iorque, orgulha-se sobremaneira da sua história e do seu riquíssimo património cultural. Do qual faz parte, entre outras celebridades que lá tiveram o seu berço, Alex Raymond. Um dos mais insignes e incensados mestres da 9ª Arte, cuja magnífica obra conserva um apelo intemporal tanto para os aficionados dos quadradinhos como para os oficiais do mesmo ofício.
Primogénito de um casal aburguesado composto por um engenheiro civil e uma mãe em tempo integral que além dele trouxeram ao mundo mais quatro filhos, Alexander Gillespie "Alex" Raymond, mercê da ascendência irlandesa do ramo materno da sua árvore genealógica entrelaçado nas raízes escocesas do seu pai, foi educado em harmonia com os preceitos do catolicismo numa cidade erigida por protestantes do Velho Mundo.
Desde tenra idade evidenciando excecional aptidão para o desenho, o pequeno Alex foi incentivado pelo pai - de quem herdara o nome e a pertinácia - a sublimar o seu traço. À guisa de recompensa pelo afinco do gaiato, várias das suas primeiras produções artísticas forraram as paredes do escritório do seu ufano progenitor, incansável em exibi-las a todos quantos lá adentravam. E que, não raro, ficavam abismados com o admirável talento do artista de palmo e meio.
Este e outros episódios de uma infância idílica pareciam prenunciar um futuro radioso para Alex Raymond. Futuro esse que ficaria, porém, repentinamente mais sombrio, na esteira do inesperado falecimento do seu pai.

O charme histórico de Nova Rochelle,
a cidade que viu nascer Alex Raymond.
Então um rapazinho de apenas 12 anos de idade e de coração entrevado pela dolorosa perda do seu ídolo, Alex Raymond viu-se obrigado a estugar o passo na sinuosa charneca da puberdade e a repensar todo o seu projeto de vida.
Em virtude da sua precoce orfandade, Alex Raymond tornou-se descrente na possibilidade de vir a construir uma carreira ligada às artes plásticas. Feito adulto antes de tempo, considerou, por isso, prudente expandir os seus horizontes profissionais. Com esse desígnio em mente - e beneficiando de uma bolsa de estudo atlética -, ingressou pouco depois na Iona Preparatory School, prestigiadíssima escola católica frequentada pela prole da fina-flor de Nova Rochelle e com admissão reservada a alunos do sexo masculino.
Concluído, sem sobressaltos de maior, o ensino secundário, Alex Raymond, na antessala da maioridade, conseguiu o seu primeiro emprego como estafeta em Wall Street. No coração financeiro da América, durante os loucos anos 20, prometia-se fortuna fácil a todos quantos se dispusessem a apostar no grande casino bolsista.
Em 1930, com a economia norte-americana já estrangulada pelo abraço viscoso da Grande Depressão após o crash bolsista registado no ano anterior, Alex Raymond garantia agora o seu sustento como solicitador numa corretora de hipotecas.
Sem nunca desistir de cumprir o sonho de, um dia, vir a ganhar a vida a desenhar, Alex Raymond encetara, em paralelo, os seus estudos de Arte e Ilustração na afamada Grand Central School of Art de Nova Iorque, onde a ninguém passou despercebida a invulgar destreza do seu lápis.
Seria, contudo, a preciosa ajuda de Russell Westover, cartunista veterano celebrizado pelo seu trabalho em Tillie the Toiler - uma das mais populares tiras diárias que, naqueles dias de desesperança, distraíam os leitores estadunidenses das deprimentes manchetes dos tabloides - a fazer a diferença na vida de Alex Raymond. Foi, pois, pela mão deste seu antigo vizinho que o jovem Alex deu os primeiros passos na cada vez mais dinâmica indústria dos quadradinhos.
Ao serviço do King Features Syndicate - o lendário consórcio que provia de ilustrações boa parte da imprensa da altura -, Alex Raymond começou por ser o artista "fantasma" de Tillie the Toiler, emulando o traço do próprio Russell Westover. De cujo irmão, Lyman, seria também assistente na série Tim Tyler's Luck cabendo-lhe, além das tiras diárias, a produção das respetivas páginas dominicais.

Foi como artista "fantasma" de Tillie the Toliler
 que Alex Raymond fez a sua estreia nos meandros da 9ª Arte.
Nesses convulsos alvores da década de 1930, quando corria pelo mundo uma aragem de mau agoiro, as tiras de banda desenhada dedicadas às trepidantes aventuras de arquétipos varonis como Buck Rogers, Dick Tracy e Tarzan estavam em franca ascensão.
Enquanto os leitores se embeveciam com a gesta dessas e de outras personagens romanescas aparentadas com os super-heróis modernos, estava em curso uma guerra surda entre os vários syndicates. Cada um deles estava apostado em apresentar a tira mais cativante e o herói mais carismático.
A única exceção parecia ser o King Features Syndicate, à primeira vista alheado dessa acesa disputa pela preferência do público. Na verdade, os seus editores esperavam apenas o momento certo para entrar na liça. Até aí fechada em copas, a companhia fundada em 1914 e por onde passariam também Fantasma, Mandrake e Popeye, preparava-se para lançar, de rajada, uma mão-cheia de trunfos que prometiam virar por completo o jogo a seu favor.
Com efeito, em finais de 1933, Alex Raymond foi incumbido de desenvolver uma nova página dominical protagonizada por um aventureiro interplanetário que deveria competir diretamente com Buck Rogers. Criado 5 anos antes pelo escritor Philip Francis Nowlan, o intrépido herói futurista fora coroado rei da ficção científica, arregimentando, intra e extramuros, uma legião de fãs de todas as idades. Um reinado absoluto que tinha, no entanto, os dias contados.
Em articulação com Don Moore, escritor consagrado da literatura pulp  - e, ao que consta, acolhendo a sugestão feita pelo então presidente do King Features Syndicate, Joe Connolly - , Alex Raymond produziu um épico da ficção científica marcado pela sumptuosidade visual e inspirado no visionarismo da obra literária de Júlio Verne. A protagonizá-lo Flash Gordon, um jogador de polo de fisionomia apolínea e com a coragem de um Aquiles dos tempos modernos. Coadjuvado por Dale Arden - a sua delicodoce namorada - e pelo Doutor Hans Zarkov - génio científico e o mais leal dos seus amigos - o herói desdobrava-se entre a Terra e Mongo, o exótico planeta governado com punho férreo pelo crudelíssimo Imperador Ming, desde logo alcandorado a seu arqui-inimigo.
Um universo onde existia, de facto, mais fantasia do que ficção científica. E que, em derradeira análise, servia para Alex Raymond exercitar a sua pródiga imaginação.


Um dos muitos duelos de Flash Gordon com o Imperador Ming
 e o seu romance com Dale Arden imortalizados pelo primoroso traço de Alex Raymond.
Finalmente resgatado ao anonimato, Alex Raymond ansiava por demonstrar o seu real valor enquanto artista. Imprimiu, por conseguinte, o seu estilo elegante e límpido nas historietas de Flash Gordon, virtuosamente buriladas pelo seu lápis e prenhes de referências mitológicas. Compensando com a sua magistral conceção plástica as debilidades das tramas nas quais se perpetuava um maniqueísmo denunciador dos princípios morais do autor.
A Alex Raymond fora concomitantemente confiada a missão de criar uma personagem capaz de ombrear com Tarzan, cujas tiras diárias o haviam elevado ao estatuto de ícone popular. Foi nesse contexto que despontou Jim das Selvas (Jungle Jim, no original), servindo as florestas luxuriantes do Extremo Oriente de cenário principal às suas aventuras.
Apesar de, por oposição a Flash Gordon, nunca ter logrado superar o seu rival, Jim das Selvas obteve apreciável sucesso. Graças, uma vez mais, ao requinte do traço de Alex Raymond, esta sua segunda criação teve o mérito de se afirmar como uma alternativa consistente ao Homem-Macaco saído da imaginação de Edgar Rice Burroughs.

Jungle Jim, um rival à altura de Tarzan.
Cada vez mais aclamado pelos leitores, Alex Raymond depressa se tornou o artista mais requisitado pelos editores do King Features Syndicate. Que, no início, de 1934 (apenas duas semanas após a estreia de Flash Gordon e Jungle Jim), o cooptaram para ilustrar Secret Agent X-9, uma tira de espionagem escrita pelo famoso romancista Dashiell Hammett, e destinada a concorrer com as aventuras de Dick Tracy.
Obrigado a trabalhar a um ritmo infernal para conseguir produzir todas as tiras diárias e respetivas páginas dominicais, Alex Raymond, à beira do esgotamento, aproveitou a saída de Hammett, nos primeiros meses de 1935, para também ele abandonar as histórias do Agente X-9. Deixando para trás um trabalho que não é consensual entre os críticos da 9ª Arte. Entre os que o reverenciam como a melhor arte interior da época e os que lhe apontam algumas falhas narrativas, as opiniões dividem-se.

O menos consensual dos trabalhos de Alex Raymond
 primou, ainda assim, pelo brilhantismo.
A passagem de testemunho nas histórias do Agente X-9 permitiu a Alex Raymond concentrar-se nas suas duas criações - Flash Gordon e Jim das Selvas. Enquanto o fazia, os anos seguintes trouxeram o dealbar da Idade de Ouro dos comics estadunidenses e o cortejo de horrores da II Guerra Mundial. Duas realidades perpendiculares, na medida em que, ao arrepio da neutralidade inicialmente declarada pelos EUA, muitos foram os ilustradores nascidos em terras do Tio Sam a assumirem desde cedo uma posição beligerante, passando a refletir o momento histórico nos seus trabalhos. Basta observar o material publicado à época para constatar essa evidência.
Ao mesmo tempo que Tarzan, Fantasma e outros heróis clássicos enfrentavam nas respetivas tiras a ameaça totalitária que nos anos vindouros colocaria o mundo à beira do precipício, Alex Raymond, por seu turno, fez das histórias de Flash Gordon parábolas do expansionismo nipónico.
Numa época em que o País do Sol Nascente já havia invadido a Manchúria chinesa, não foi fortuita a atribuição de feições vincadamente orientais ao Imperador Ming. Tampouco foi obra do acaso o seu Exército Imperial evocar a claque nazi-fascista que, por esses dias, marchava imparável sobre  o Velho Continente, esmagando a esperança e a liberdade dos povos sob as suas pesadas botifarras.
Quando o ignóbil ataque japonês a Pearl Harbor precipitou a entrada dos EUA num conflito no qual tinha até aí relutado em envolver-se, muitos desenhadores americanos já estavam preparados para  dar o seu contributo à causa aliada. E se a maior parte desse apoio se quedou pelas páginas de banda desenhada, alguns deles transferiram-no mesmo para o campo de batalha.
Entre o contingente de artistas que trocou temporariamente os lápis e os pincéis pelas espingardas e baionetas, incluía-se Alex Raymond. No entanto, como mais adiante se verá, esse seu fervor patriótico render-lhe-ia alguns amargos de boca.
O último dos irmãos Raymond a tornar-se um G.I. Joe, em fevereiro de 1944 Alex Raymond alistou-se nos Fuzileiros Navais norte-americanos, sendo acolhido como uma celebridade pelos seus companheiros de armas - muitos dos quais tinham crescido a ler as histórias de Flash Gordon. À deferência daqueles com quem se relacionava, correspondeu sempre Alex Raymond com a fleuma de um cavalheiro que recusou todos os pedestais em que quiseram colocá-lo.
Integrado no departamento de Relações Públicas da Marinha dos EUA, Alex Raymond produziu cartazes e outra imagética de cunho patriótico que serviam fins propagandísticos. Duas dessas obras - datadas ambas de 1944 - tornar-se-iam icónicas: Marines at Prayer (ilustração para o boletim oficial da tropa, que retratava um grupo de fuzileiros em oração em pleno campo de batalha) e o postal de Natal dos Marines, cuja receita de vendas servia para ajudar ao esforço de guerra.

A icónica ilustração Marines at Prayer serviu de capa ao boletim oficial dos Marines.

Desejoso de desempenhar um papel mais ativo no conflito, Alex Raymond requereu transferência, no início de 1945, para o teatro de operações do Pacífico. A bordo do porta-aviões U.S.S. Gilbert Islands, pôde dessa forma testemunhar in loco a lendária batalha de Okinawa, ainda hoje considerada a maior operação militar marítimo-aeroterrestre da História - vencida, a duras penas, pelas forças aliadas sob comando norte-americano.
Desmobilizado no início de 1946 com a patente de major, o regresso de Alex Raymond à vida civil começou por ficar marcado por um dissabor. Isto porque a sua vontade em retomar o seu trabalho com Flash Gordon esbarrou na intransigência do King Features Syndicate em afastar Austin Briggs, o artista que, com assinável mérito, o substituíra quando ele partira voluntariamente para a guerra.
Apesar de nunca se ter pronunciado publicamente sobre este assunto, familiares e amigos de Alex Raymond asseverariam mais tarde que ele ficara deveras ressentido com aquilo que considerava ter sido um tratamento desrespeitoso por parte dos seus empregadores. Porventura à laia de ressarcimento por tal descortesia, o King Features Syndicate ofereceu-lhe, no entanto, a oportunidade de criar uma nova tira.
Estreada em março de 1946, Rip Kirby - série que, 3 anos depois, valeria a Raymond um Reuben Award, o mais importante galardão com que foi laureado em vida - apresentava as aventuras de um ex-oficial da Marinha que, depois da guerra, se lançara numa carreira como detetive particular. Além das evidentes notas autobiográficas incutidas por Alex Raymond, as estórias tinham como pano de fundo os bastidores da alta burguesia nova-iorquina, nostálgica de um mundo aristocrático em vias de extinção.

Apesar de Flash Gordon ter sido a sua criação suprema,
 Rip Kirby é por muitos considerado a obra-prima de Alex Raymond.
Na tradição das novelas noir, as tramas de Rip Kirby mostravam como a podridão moral enquista amiúde as classes mais abastadas. Suprimindo o maniqueísmo quase pueril que caracterizara as narrativas de Flash Gordon, Alex Raymond explorava agora pontos de vista mais complexos. Deixando claro, por exemplo, que o crime é frequentemente produto de um sistema económico iníquo que gera hordas de excluídos.
Complementarmente à incrível evolução na construção psicológica das suas personagens, Alex Raymond, eterno perfecionista, desenvolveu um método de trabalho que envolvia fotografia, pesquisa exaustiva de ambientes, vestuários e costumes, bem como a utilização de modelos de carne e osso. Este último um expediente a que, de resto, já havia deitado mão quando fora ilustrador de revistas como a Blue Book, Esquire e Cosmopolitan.
A este propósito, diria Alex Raymond o seguinte: «Estou sinceramente convencido de que a banda desenhada é uma forma de arte autónoma. Reflete a sua época e a vida em geral com maior realismo e, graças à sua natureza criativa, é artisticamente mais válida do que uma simples ilustração. O ilustrador trabalha com uma máquina fotográfica e modelos; o artista de BD começa sempre por uma folha de papel em branco e inventa sozinho uma história inteira. É ao mesmo tempo escritor, diretor de cinema, editor e desenhador.»
Alex Raymond foi, de facto, muito mais do que um simples ilustrador ou desenhador. Consagrado ainda em vida como "o artista dos artistas", assumia-se mais como um esteta cuja sofisticação de estilo serviu de bitola a muitos dos seus pares. Bob Kane, Joe Shuster e Jack Kirby, seus contemporâneos, foram apenas alguns dos grandes vultos da 9ª Arte a reconhecerem a influência do criador de Flash Gordon no seu desenvolvimento artístico. Influência que não diminuiu após a morte prematura de Raymond, estendendo-se também ao cinema.
Admirador confesso do trabalho de Alex Raymond, George Lucas nunca fez segredo da inspiração que foi beber a Flash Gordon para idealizar o panteão de Star Wars - saga que, ironicamente, influenciaria a estética e a dinâmica narrativa do filme de Flash Gordon de 1980.


Star Wars e Flash Gordon: um círculo de influências
 que teve em Alex Raymond o seu eixo comum.
Há quem defenda que os artistas atingem o seu zénite criativo aos 50 anos, por ser nessa idade que o talento e a experiência se equilibram de forma harmoniosa. A existir algum vestígio de verdade nesse aforismo, Alex Raymond foi roubado ao mundo quando tinha ainda muito para oferecer-lhe.
Naquele fatídico dia 6 de setembro de 1956, a menos de um mês de cumprir o seu 47º aniversário, o criador de Flash Gordon, que tinha nos automóveis outra das suas paixões, seguia ao volante do elegante Corvette descapotável do seu amigo e colega de ofício Stan Drake. Segundo consta, para tentar fugir à chuva que começara entretanto a cair, circulava duas vezes acima do limite de velocidade estabelecido numa estrada de Westport, no estado norte-americano do Connecticut, quando se despistou e colidiu violentamente com uma árvore. Ao contrário de Drake, salvo pelo cinto de segurança que levava colocado, Raymond teve morte imediata.
Durante algum tempo as circunstâncias em que se deu o despiste fatal suscitaram especulações. Com o próprio Drake a dizer-se firmemente convencido que Raymond teria querido suicidar-se, alegadamente devido a um caso extraconjugal. A sustentar esta macabra tese - categoricamente desmentida por familiares e pelo biógrafo oficial do artista - o facto de, no mês que antecedeu a sua morte, Raymond ter estado envolvido em quatro(!) acidentes rodoviários.

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A paixão de Alex Raymond por bólides desportivos revelar-se-ia fatal.
Acidental ou não, a morte prematura de Alex Raymond teve o condão de aureolar ainda mais a vida e obra de um artista que, pelo esplendor imorredouro do seu legado, viverá para sempre no imaginário coletivo e continuará certamente a inspirar novos talentos dos quadradinhos. Que assim poderão calcorrear o seu próprio caminho alumiados pelo exemplo de um dos mais excelsos mestres da BD.
A ele este humilde escriba - iniciado, muitos anos atrás, no fascinante mundo dos quadradinhos precisamente através das estórias de Flash Gordon - se curva em respeitosa vénia, na esperança de que este singelo tributo sirva para ajudar à celebração da magnífica obra de Alex Raymond, para sempre o suprassumo dos artistas.

Apontamentos finais

*Depois de ter sido contemplado, em 1949, com um Reuben Award - prémio atribuído anualmente pela National Cartoonists Society -, Alex Raymond seria eleito no ano seguinte para presidir à instituição. Cargo que exerceu até 1951;
*Alex Raymond foi nomeado, a título póstumo, para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame (1996) e para o Society of Illustrators Hall of Fame (2014), duas das maiores distinções concedidas aos profissionais da 9ª Arte;
*Casado durante mais de um quarto de século com Helen Frances Williams - mãe dos seus cinco filhos; dois rapazes e três raparigas -, Alex Raymond deu o nome de duas das suas filhas à namorada de Rip Kirby, Judith Lynne Dorian;
*Irmão mais novo de Alex Raymond, Jim Raymond (falecido em 1981), também abraçou uma bem-sucedida carreira como cartunista. No seu currículo destaca-se o seu trabalho como assistente do lendário Chic Young em Blondie, tira humorística publicada pelo King Features Syndicate a partir de 1930;
*Alex Raymond era tio-avô dos atores Kevin e Matt Dillon, filhos da sua irmã Beatrice.

Alex Raymond e Flash Gordon: um legado que ecoa nas estrelas.

Agradecimento muito especial ao meu bom e mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo e providenciou a belíssima montagem que o encerra. 







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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

RETROSPETIVA: «X-MEN - DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO»


 Mutantes de duas épocas entrelaçadas procuram desesperadamente reescrever a História a fim de prevenir um distópico porvir. Missão, ainda assim, menos complicada do que o reajustamento da cronologia de uma franquia que faz gala dos seus paradoxos. Mesmo tendo falhado esse objetivo, o filme - vagamente inspirado no clássico epónimo e o primeiro dos X-Men indicado para um Óscar - arrebatou a crítica e os fãs.

Título original: X-Men: Days of Future Past
Ano: 2014
País: EUA
Duração: 131 minutos
Género: Ação/Fantasia/Super-heróis
Produção: 20th Century Fox, Marvel Entertainment e The Donners' Company
Realização: Bryan Singer
Argumento: Simon Kinberg (baseado na obra homónima de Chris Claremont e John Byrne)
Distribuição: 20th Century Fox
Elenco: Hugh Jackman (Logan/Wolverine); James McAvoy e Patrick Stewart (Professor Charles Xavier), Michael Fassbender e Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto); Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística);  Nicholas Hoult e Kelsey Gremmer (Dr. Hank McCoy/Fera); Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade); Ellen Page (Kitty Pryde/Lince Negro); Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo); Peter Dinklage (Bolivar Trask); Evan Peters (Peter Maximoff/Mercúrio); Josh Helman (Major William Stryker); Omar Sy (Bishop); Daniel Cudmore (Piotr Rasputin/Colossus); Fan Bingbing (Blink); Adan Canto (Mancha Solar); Booboo Stewart (Apache); Anna Paquin (Marie/Vampira); Famke Janssen (Jean Grey) e James Marsden (Scott Summers/Ciclope)
Orçamento: 200 milhões de dólares
Receitas globais: 747,9 milhões de dólares


Pré- produção e desenvolvimento

Face aos resultados dececionantes de X-Men 3: The Final Stand (2006), a 20th Century Fox , mesmo sem o assumir publicamente, perspetivou X-Men: First Class (2011) como o capítulo inaugural de uma nova trilogia baseada nos heróis mutantes criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby.
As primeiras informações veiculadas apontavam para os regressos de Matthew Vaughn e Bryan Singer. Ao primeiro, que dirigira X-Men: First Class, ficaria novamente reservada a cadeira de realizador. Ao passo que Singer, realizador de X-Men e X-Men 2, vestiria agora a pele de produtor.
Simon Kinberg, coargumentista de X-Men 3 e coprodutor de X-Men: First Class, foi contratado, em novembro de 2011, para escrever o enredo do novo filme. Tendo, para esse efeito, estudado vários clássicos da 7ª Arte que abordavam as viagens no tempo. Casos, por exemplo, de The Terminator ou Back to the Future.
Quando, em outubro de 2012, Vaughn trocou a direção do projeto pela de Kingsman, Singer perfilou-se como a escolha natural para o substituir.


Dança de cadeiras:
Bryan Singer substituiu Matthew Vaughn (cima) na direção do projeto.
Já depois de ter anunciado a data de estreia da película, em agosto de 2012 a Fox confirmou oficialmente o respetivo título: X-Men: Days of Future Past.
Com um orçamento de 200 milhões de dólares, Days of Future Past começou a ser rodado em abril de 2013. Cumprindo o cronograma estipulado, as filmagens ficaram concluídas cinco meses depois, em setembro do mesmo ano. A Cité du Cinema e outras localizações da cidade canadiana de Montreal - como o seu icónico Estado Olímpico - serviram de cenário às gravações. Chris Claremont, coautor da saga original, foi contratado como consultor.
Além de ter sido a segunda produção mais dispendiosa da Fox depois de Avatar (2009), Days of Future Past foi também a primeira longa-metragem dos X-Men filmada em 3D.
A 10 de maio de 2014, o Centro de Convenções Jacob Javits, em Nova Iorque, foi o palco escolhido para acolher a antestreia mundial de X-Men: Days of Future Past. Onze dias depois o filme chegaria às salas de cinema de todo o mundo.

Caça aos mutantes.

Enredo: Em 2023, robôs Sentinelas são programados para identificar e exterminar mutantes e seus aliados humanos. Durante um raide na Rússia que praticamente erradica a população local de Homo superiores, Kitty Pryde faz a consciência de Bishop retroceder alguns meses de modo a prevenir a chacina. Apesar de bem-sucedido, o expediente tem eficácia e alcance limitados devido ao seu impacto na fisiologia do viajante temporal.
Após ser contactada telepaticamente pelo Professor Xavier, Kitty reúne-se aos mutantes sobreviventes acantonados num remoto templo chinês. É lá que fica a conhecer a origem dos Sentinelas. Projetados por Bolivar Trask - assassinado por Mística em 1973 - os robôs tornaram-se virtualmente invencíveis graças a uma amostra do ADN da mutante.

Num futuro não muito distante,
 os Homo superiores encaram a ameaça de extinção.
Kitty sugere usar a sua habilidade para enviar alguém ao passado por forma a impedir o assassinato de Trask e, desse modo, alterar o curso da História. Xavier pondera ser ele a viajar no tempo, mas Wolverine voluntaria-se, alegando que o seu fator de cura lhe garantiria maiores hipóteses de sobreviver ao processo.
Logo depois de ter acordado em 1973, Wolverine visita a Mansão X, onde quase já não existem vestígios da Escola para Jovens Sobredotados fundada por Charles Xavier. É lá também que o herói canadiano encontra o seu antigo mentor, com notórios sintomas de alcoolismo e depressão.
Graças a um soro especial desenvolvido pelo Dr. Henry McCoy (o Fera), Xavier recuperou a capacidade de andar. Em contrapartida, os seus poderes psíquicos foram desabilitados pela substância.
Na esperança de que isso lhe permita reencontrar Mística, Xavier concorda em auxiliar Wolverine a resgatar Magneto da prisão especial localizada no subsolo do Pentágono. O que, contudo, só é possível graças à supervelocidade de Mercúrio, o jovem mutante entretanto recrutado para a operação.

Magneto prestes a ser resgatado da prisão especial
onde passara os últimos meses.
Mística descobre que Trask tem vindo a usar mutantes como cobaias para as suas sinistras experiências científicas e resolve matá-lo durante a cerimónia dos Acordos de Paz de Paris que serviriam para  pôr fim à Guerra do Vietname. Sendo, no entanto, impedida de consumar os seus desígnios por Xavier e Magneto. Este resolve matar a ex-amante por forma a certificar-se que o futuro apocalíptico descrito por Wolverine jamais terá lugar.
Ao intervir para salvar a vida de Mística, o Fera acaba por expor-se a si e aos seus companheiros como mutantes.
Tirando proveito da histeria anti-mutante potenciada pelo incidente, Trask consegue persuadir o Presidente Nixon a autorizar o Programa Sentinela. Entretanto, Magneto assume em segredo o controlo dos Sentinelas já construídos.

"Mutantes são o inimigo", clama um cartaz das Indústrias Trask.
Novamente confinado a uma cadeira de rodas depois de abandonar o soro que suprimia os seus talentos psíquicos, Xavier socorre-se deles para comunicar com o seu eu mais velho. Que o inspira a manter vivo o seu sonho de uma coexistência harmoniosa entre humanos e mutantes.
Depois de usar Cérebro (o supercomputador que permite a deteção remota de portadores do gene X) para localizar Mística, Xavier e seus aliados rumam a Washington D.C. com o propósito de fazerem abortar os planos da mutante transmorfa para assassinar Trask.
Enquanto Nixon apresenta, com pompa e circunstância, os Sentinelas, Xavier, Fera e Wolverine procuram Mística. Que, disfarçada de agente dos Serviços Secretos, se encontra perigosamente perto do Presidente e de Bolivar Trask.
Antes que Mística consiga agir, Magneto entra em cena controlando os Sentinelas e fazendo levitar um estádio de basebol acima da Casa Branca. Wolverine ataca o mestre do magnetismo mas é prontamente rechaçado, acabando atirado para as águas do rio Potomac.
No meio da confusão instalada, Nixon, Trask e Mística (ainda disfarçada de agente dos Serviços Secretos) procuram abrigo num bunker subterrâneo instalado sob a Sala Oval. O qual é arrancado por Magneto para fora da Casa Branca com a intenção de matar todos os seus ocupantes.


A cerimónia de apresentação dos Sentinelas presidida por Nixon.
No futuro, os Sentinelas invadem o templo que dá guarida aos mutantes, matando vários deles, incluindo Tempestade. Também Magneto é gravemente ferido durante o ataque e a capitulação parece iminente.
Entretanto, no passado, Mística impede Magneto de assassinar Nixon mas não desiste da sua intenção de liquidar Trask. No último instante Xavier consegue demovê-la de o fazer, explicando-lhe que isso apagará os Sentinelas da existência, poupando assim muitas vidas inocentes.
Mística parte com Magneto e Trask é posto atrás das grades por ter tentado vender segredos militares norte-americanos a dignitários vietnamitas.
No presente, Wolverine desperta na Mansão X e encontra todos os outros X-Men vivos e de boa saúde. Sendo, contudo, o único a estar ciente das alterações ocorridas na História.
Numa cena pós-créditos, uma multidão em transe venera com os seus cânticos En Sabah Nur (nome de batismo de Apocalipse) enquanto este faz flutuar pelo ar enormes blocos de pedra que servem para construir uma antiga pirâmide egípcia. Proeza testemunhada à distância pelos seus quatro Cavaleiros.

Trailer:



Versão alternativa

A 14 de julho de 2015, data em que a franquia dos X-Men cumpria o seu 15º aniversário, a 20th Century Fox Home lançou uma versão alternativa de Days of Future Past. Sob o título genérico The Rogue Cut, incluía 17 minutos de cenas cortadas e uma subtrama envolvendo Vampira (Rogue, no original), cuja participação no filme, recorde-se, se resumira a um brevíssimo cameo de poucos segundos.
Em Rogue Cut a narrativa é mais complexa e o papel desempenhado nela por Vampira menos inconsequente. Quando, devido à ação de William Stryker, a consciência de Wolverine balança entre o passado e o futuro - levando-o a ferir acidentalmente Kitty Pryde com as suas garras - o Professor X chama a atenção para a necessidade de Logan dispor de mais tempo no passado. O Homem de Gelo propõe então invadir a antiga Escola Xavier para Jovens Sobredotados, onde Vampira se encontra confinada sob a apertada vigilância dos Sentinelas.
Levada a cabo pelo Professor X, Magneto e Homem de Gelo, a operação de resgate é coroada de êxito, mas apenas os dois primeiros escapam com vida.
A partir do baluarte da resistência mutante, Vampira, embora devastada pela perda do namorado, assume o lugar de Kitty Pryde durante o tempo necessário para que, em 1973, Wolverine consiga alterar o curso da História.

Em Rogue Cut, é Vampira a assegurar
 o sucesso da missão de Wolverine.
Os Sentinelas conseguem, porém, encontrar o esconderijo dos mutantes graças a um dispositivo de localização que um dos robôs havia conseguido colocar no Pássaro Negro (o sofisticado jato dos X-Men) no momento da fuga do comando mutante da Mansão X.
A versão alternativa inclui ainda duas outras cenas: a primeira mostra Mística a visitar a Mansão X enquanto Xavier e Logan dormiam o sono dos justos. Após uma tórrida noite de amor com o Fera, Mística sai furtivamente antes do alvorecer, não sem antes sabotar Cérebro, de modo a evitar que Xavier lhe siga o rasto. Já a segunda mostra como a prisão especial do Pentágono está a ser reparada enquanto recebe um novo recluso. Ninguém menos do que Bolivar Trask.

Fera e Mística: paixão em tons de azul.

Prémios e nomeações

Além da inédita indicação para um Óscar na categoria de Melhores Efeitos Visuais, Days of Future Past recebeu nomeações para dezenas de outros prémios. Arrecadaria, no entanto, apenas quatro. A saber: um Empire Award para Melhor Filme de Ficção Científica, um Saturn Award para Melhor Edição Especial em DVD e dois Visual Effects Society Awards para Melhor Fotografia e Melhores Efeitos Especiais.

Curiosidades

*Quando Wolverine acorda em 1973, a mulher deitada ao seu lado na cama chama-lhe Jimmy. Algumas revisitações recentes da origem do mutante canadiano estabeleceram James Howlett como seu nome de batismo. Logan, por seu turno, corresponde ao apelido herdado do seu pai biológico, Thomas Logan. Originalmente, nessa mesma cena, Logan deveria usar boxers ao sair da cama. Alegando que, na sua Austrália natal, nenhum homem a sério acorda vestido ao lado de uma mulher bonita, Hugh Jackman vetou essa diretriz e brindou a plateia com uma visão do seu traseiro desnudo;
*Halle Berry teve o seu papel como Tempestade substancialmente reduzido em consequência da sua gravidez. Não obstante, o seu nome surge em destaque nos créditos do filme;
*Com o intuito de assegurar a verosimilhança e a exequibilidade do conceito de viagens no tempo na película cuja direção assumiu após a saída de Matthew Vaughn, Bryan Singer discutiu durante duas horas com James Cameron (Exterminador Implacável, Avatar) alguns teoremas da física quântica, mormente a complexa Teoria das Cordas. Singer resumiu desta forma aquela que é a pedra angular do enredo de Days of Future Past: "Até um objeto ser observado, ele é inexistente. Ao viajante do tempo, cuja consciência retrocede até a uma determinada época, eu chamo, portanto, Observador. Enquanto o Observador não regressar ao seu ponto de partida, esse futuro será apenas um cenário em aberto. É por isso que, em teoria, seria possível alterá-lo. No filme, Wolverine é o Observador a quem compete reescrever cirurgicamente o passado para precaver um Amanhã de pesadelo.";
*Na sua audiência no Senado norte-americano, Bolivar Trask lê em voz alta alguns excertos de uma dissertação académica que explica como a emergência do Homo sapiens induziu a extinção do Homem de Neandertal, seu antepassado na escala evolutiva. A referida dissertação fora elaborada por Charles Xavier que, em X-Men: First Class, também lera as mesmas passagens a Mística. Len Wein (cocriador de Wolverine, recentemente falecido) e Chris Claremont (o autor da saga original) são dois dos congressistas que assistem à preleção de Trask;
*Desde The Dark Knight Rises (2012) que nenhum filme de super-heróis reunia um elenco tão sumptuoso. Além de três atrizes oscarizadas (Anna Paquin, Halle Berry e Jennifer Lawrence), Days of Future Past contabilizou ainda cinco nomeados pela Academia de Hollywood: Hugh Jackman, Michael Fassbender, Ellen Page, Michael Lerner e Ian McKellen;

Um elenco que era uma verdadeira constelação.
*Quando aos comandos do projeto estava ainda Matthew Vaughn, caberia ao Fanático a missão de resgatar Magneto da prisão. Escalado para o papel que, em X-Men 3: The Final Stand (2006), pertencera ao britânico Vinnie Jones, Josh Helman acabaria por encarnar o jovem William Stryker depois de Bryan Singer ter decidido colocar Mercúrio no lugar do Fanático. Troca que, curiosamente, só se verificou após a confirmação de que o filho de Magneto também marcaria presença em Vingadores: Era de Ultron (2015). Especula-se que esse poderá ter sido o estratagema encontrado pela Fox para salvaguardar os seus os direitos sobre a personagem;
*Enquanto Magneto faz levitar um estádio inteiro sobre Washington D.C., é possível ver uma pequena Jean Grey de olhos postos no céu, indiferente à multidão espavorida que a rodeia.

Uma Jean Grey de palmo e meio
assiste às proezas de Magneto.

Diferenças em relação à BD

Obra capital no repertório dos Filhos do Átomo, Days of Future Past granjeou há muito o estatuto de clássico da 9ª Arte de leitura obrigatória para qualquer "bedéfilo".
Publicada originalmente em janeiro e fevereiro de 1981, nos números 141 e 142 de The Uncanny X-Men, a história teve o cunho de Chris Claremont* e John Byrne**, o binómio criativo responsável  por aquela que é quase unanimemente considerada a fase áurea dos heróis mutantes.
Antes da sua transposição ao grande ecrã, Days of Future Past tivera já direito a duas adaptações televisivas em outras tantas séries animadas dos X-Men: X-Men (1992-97) e Wolverine and the X-Men (2009).
No entanto, se essas adaptações prévias tiveram na fidelidade ao conceito original o seu eixo comum, o mesmo não se poderá dizer da sua versão cinematográfica.
Tantas são, de facto, as discrepâncias relativamente à saga original que, quanto muito, poderá considerar-se que o filme é vagamente inspirado nela.
De tão extensa que é a lista, limito-me, por isso, a identificar apenas algumas das diferenças fundamentais relacionadas com o protagonista, a trama e o desfecho desta.

A capa de Uncanny X-Men nº141 (1981)
 ocupa lugar de relevo na iconografia da 9ª Arte.
Comecemos então pelo protagonista. Na história original, esse posto cabe a Kitty Pryde. É a sua consciência que é enviada para o passado com a missão de alertar os X-Men para o lúgubre futuro que os espera. O facto de ela ser, à época, a novata da equipa foi preponderante para a escolha de Kitty. Ademais, a ausência de bloqueios mentais facilitaria a leitura dos seus pensamentos por parte do Professor X, fornecendo ao líder dos X-Men uma visão mais nítida do porvir.
No filme, como sabemos, é Wolverine a viajar ao passado. E há uma boa razão para isso: o seu fator de cura torna-o o único capaz de suportar os danos cerebrais decorrentes de passar longos períodos de tempo com a consciência numa época diferente.
No que à trama diz respeito, na história original Kitty Pryde regressa aos anos 1980 (e não a 1973) para prevenir os X-Men para as consequências catastróficas do assassinato do Senador Robert Kelly, o promotor político de uma virulenta campanha anti-mutante.  Crime cometido por Sina, da Irmandade de Mutantes, e que motivaria o Governo dos EUA a autorizar a produção em massa dos Sentinelas, já velhos conhecidos dos X-Men.
Apesar da premissa comum, no filme é a morte do Major William Stryker às mãos de Mística  a pôr em marcha essa trágica cadeia de eventos.
Também o tratamento aplicado pelos Sentinelas aos mutantes é um aspeto pouco explorado na película. Na BD os robôs de Trask promovem uma segregação entre humanos que podem procriar, humanos portadores do gene X latente (proibidos de se reproduzirem) e Homo superiores. A estes últimos restam duas opções: o extermínio ou o confinamento em campos de concentração onde são obrigados a usar colares inibidores de poder. Sendo este o único elemento presente no filme, no qual pouco mais é revelado acerca do destino dado aos mutantes capturados.

Lápides com os nomes de X-Men
 testemunham o genocídio mutante na saga original.
Previsivelmente, todas estas divergências conduzem a desfechos distintos para as duas versões da mesma história. Enquanto na BD os X-Men chegam a tempo de evitar o assassinato do Senador Kelly - daí resultando um acirrado conflito com a Irmandade de Mutantes - no filme é Mística quem, ironicamente, impede Magneto de cometer uma chacina.
Todas estas licenças poéticas não deturpam, ainda assim, a essência e o escopo da saga que serviu de base ao enredo da película. Algo que por si só é digno de louvor, atendendo ao ror de adaptações que, de tão heterodoxas, deixam irreconhecíveis as respetivas matrizes.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/search?q=chris+claremont
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Veredito: 70%

Ironia das ironias: Days of Future Past foi escolhido pelos mandachuvas da Fox porque a história permitiria atar as muitas pontas soltas na cronologia de uma franquia que, recorde-se, além dos X-Men integra também Wolverine e Deadpool.
Ora, o filme não só falhou redondamente em resolver este ponto problemático como ainda acrescentou mais uns quantos fios emaranhados a um novelo que poucos se atreverão a tentar desembaraçar. Alguns exemplos: além de ficar intangível, Kitty Pryde parece ter descoberto da noite para o dia possuir a habilidade de enviar consciências alheias de volta no tempo; o Professor X regressou do além-túmulo depois de ter sido assassinado por Jean Grey em X-Men 3; e também Wolverine recuperou as suas garras de adamantium perdidas no seu segundo filme a solo.
Para nenhuma destas inconsistências é aventada qualquer justificação. O que não deixa de causar estranheza se consideramos que o enredo de Days of Future Past ambicionava conectar a trilogia original dos X-Men, os dois filmes de Wolverine e ainda X-Men: First Class.
Se fizermos vista grossa a estes pecadilhos cronológicos e nos focarmos na trama, o núcleo futurista é uma das suas mais-valias. O peso dramático de um mundo pós-apocalíptico é sentido perfeitamente pelo espectador e as cenas de combate com os Sentinelas são soberbas.
Perante essa atmosfera sufocante, é mais do que bem-vindo o alívio cómico proporcionado pelas sequências protagonizadas por Mercúrio. Sendo, de resto, muito interessante a forma como as duas perceções - do próprio e dos outros - da sua supervelocidade foram mostradas. Curioso notar, a este propósito, como Evan Peters emprestou o seu carisma a uma personagem que nunca o possuiu na BD.

O impagável Mercúrio em ação.
Apesar do natural destaque concedido a Wolverine na trama, ele é um falso protagonista. Pela primeira vez na franquia, Charles Xavier é o coração e a alma da história. E o resultado é sensacional, muito por conta da magistral representação de James McAvoy.
Quase sempre retratado como um rochedo inabalável nas suas convicções, desta feita o mentor dos X-Men debate-se com uma crise de fé. Ficando bem patente o quanto esse seu estado de alma se reflete na comunidade Homo superior e, por irradiação, no mundo inteiro.
Outro ponto positivo do filme é, aliás, a ausência de maniqueísmo: as retaliações de humanos e mutantes afiguram-se justificáveis e inevitáveis porque, no fundo, todos estão errados. Cabendo dessa forma a Charles Xavier a ingrata missão de se assumir como o fiel de uma balança que pende cada vez mais para o ódio inter-espécies.
Boa parte desses e de outros méritos da produção devem ser atribuídos a Bryan Singer, cineasta que já deu sobejas provas do seu amor ao género super-heroico e do seu profundo conhecimento do universo dos X-Men.
De facto, mais importante do que a estética ou a cronologia, é o conteúdo social, moral e filosófico que sempre esteve no cerne das melhores histórias dos Filhos do Átomo. E é por isso que as imperfeições de Days of Future Past merecem ser perdoadas.






sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: CAPITÃO MARVEL


  Nos anos de chumbo da guerra e da Grande Depressão, fulminou o desalento de uma geração com os seus relâmpagos de otimismo. Velha glória da Fawcett Comics, demoliu o mito da invencibilidade do Homem de Aço e foi o primeiro super-herói adaptado ao cinema. Mesmo sem o fulgor de outrora, continua a ser uma das personagens mais acarinhadas pelos fãs, e um garrido lembrete de uma época de maior simplicidade.


Nota prévia: Para uma melhor compreensão da génese do Capitão Marvel, do seu impacto cultural durante a Idade de Ouro da banda desenhada e das incidências do processo judicial em que se viu enredado, é altamente recomendável a leitura do meu artigo anterior.

Denominação original: Captain Marvel (renomeado oficialmente de Shazam em 2011)
Licenciadora: Fawcett Comics (1939-1953) e DC Comics (desde 1972)
Criadores: Bill Parker (história) e Charles Clarence "C.C." Beck (arte conceptual)
Estreia: Whiz Comics nº2 (Fevereiro de 1940)
Identidade civil: William Joseph "Billy" Batson
Local de nascimento: Fawcett City
Parentes conhecidos: C.C. e Marilyn Fawcett (pais, falecidos); Mary Batson/Mary Marvel (irmã gémea); Ebenezer Batson (tio) e Sinclair Batson (primo, falecido)
Ocupação: Repórter, locutor radiofónico e aventureiro
Base operacional: Fawcett City e Pedra da Eternidade (originalmente, o covil do Mago Shazam onde os 7 Pecados Mortais se encontravam aprisionados, é hoje descrita como um nexo interdimensional e um estação de poder para os portadores do relâmpago mágico)
Poderes, armas e habilidades: Acrónimo de Salomão, Hércules, Aquiles, Zeus, Atlas e Mercúrio, sempre que a palavra "Shazam" é proferida por Billy Batson, a entidade mística conhecida como Capitão Marvel é invocada.
Apesar desta conexão do herói com as figuras mitológicas enumeradas ter vindo a esbater-se em versões mais recentes, ele continua a extrair delas as suas assombrosas habilidades. Assim, o Capitão Marvel possui a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a coragem de Aquiles, o poder de Zeus, o vigor de Atlas e a velocidade de Mercúrio. Cujo somatório justifica plenamente o epíteto de Mortal Mais Poderoso da Terra.
A este impressionante catálogo clássico de poderes e habilidades foram acrescentados mais uns quantos recursos no âmbito da sua reformulação em Os Novos 52. Além de conseguir agora teletransportar-se, o Capitão Marvel adquiriu nesse contexto a capacidade de manipular o relâmpago mágico responsável pela sua transformação. Aporte que, entre outras proezas, lhe permite lançar rajadas elétricas pelas mãos.
Outra novidade consiste no facto de, uma vez proferida a palavra mágica, a metamorfose de Bill Batson só ocorrer se for esse o seu desejo.

Shazam: com 6 letrinhas apenas se escreve uma história de sucesso.

Vulnerabilidades: Apesar da sua elevada resistência à magia, o Capitão Marvel não lhe é completamente imune. Sendo, portanto, suscetível a ataques místicos de grande envergadura lançados por magos de primeira grandeza como o Senhor Destino ou Zatanna.
Originalmente, nas situações em que a Família Marvel atuava em conjunto, sobrevinha daí um fracionamento dos respetivos poderes. Se, por exemplo, três dos seus membros estivessem ativos em simultâneo, cada um deles dispunha apenas de um terço da magia de Shazam. Esse constrangimento foi, contudo, abolido após a reformulação do Capitão Marvel no âmbito dos Novos 52, passando dessa forma o herói a conservar a plenitude dos seus poderes mesmo quando secundado pela Família Marvel.
Por outro lado, o mesmo relâmpago mágico que transforma o pequeno Billy Batson no Mortal Mais Poderoso da Terra pode também ser usado para reverter o processo. Expediente ao alcance de poucos mas que, no passado, foi já utilizado por Adão Negro para sobrepujar o herói.
Criança em corpo de adulto, o Capitão Marvel (pelo menos na sua versão clássica) tende a ser excessivamente otimista, e até mesmo ingénuo. Se em determinados contextos isso o investe de uma certa superioridade moral, noutros representa uma fraqueza passível de ser explorada pelos seus adversários ou de o tornar alvo da condescendência dos seus pares.
De igual modo, também a inexperiência do herói condiciona muitas vezes a forma como emprega os seus poderes, cuja real extensão ele desconhece ainda.

A ingenuidade de Billy Batson
 é um dos pontos fracos do Capitão Marvel.
Conceção 

Ia já adiantado o ano de 1939 quando, em resposta ao enorme sucesso alcançado por Superman e Batman (ambos propriedade da National Comics, antepassada da atual DC), a Fawcett Publications  resolveu lançar a sua própria linha de super-heróis.
Escriba talentoso, Bill Parker foi cooptado para criar o naipe de personagens que deveriam abrilhantar o novo título periódico que sinalizaria o ingresso da Fawcett no cada vez mais apetecível mercado dos quadradinhos. Além de Spy Smasher, Dan Dare, Ibis the Invincible e Golden Arrow, Parker imaginou também um sexteto heroico em que cada um dos elementos que o compunham detinha um poder concedido por uma figura mitológica.
Quando Parker explanou esta última ideia a Ralph Daigh, o diretor-executivo da Fawcett Comics sugeriu-lhe que combinasse os seis poderes num só herói. Parker anuiu e, poucos dias depois, regressou ao gabinete de Daigh para lhe apresentar Captain Thunder. Personagem que, como mais adiante se perceberá, serviu de protótipo ao Capitão Marvel.
A tarefa de desenhar a história de Parker foi confiada a Charles Clarence Beck, artista veterano da Fawcett com um estilo fortemente influenciado pela estética dos cartunes. Esse traço quase caricatural tornar-se-ia, de resto, a imagem de marca das aventuras do Capitão Marvel ao longo da Idade do Ouro.

C.C. Beck (1910-1989),
um dos mais brilhantes iconoclastas da Idade do Ouro dos comics.
Anos mais tarde, Beck recordaria em entrevista como tudo se processou: "O chefe (Roscoe K. Fawcett, fundador da Fawcett Comics) queria um Superman que fosse também um menino.Quando eu e o Bill começámos a trabalhar nas histórias do Capitão Marvel, constatámos quão precárias eram a escrita e a arte da generalidade das publicações com super-heróis. Chegavam a ser medíocres! Decidimos, por isso, brindar os nossos leitores com material de qualidade. O que era sinónimo de histórias bem escritas, bem ilustradas e que não se limitassem a reproduzir as estafadas fórmulas narrativas da literatura pulp. Era isso que nos propúnhamos fazer. Porque, em boa verdade, ninguém o fizera ainda. E uma boa maneira de o conseguirmos seria revisitando conceitos retirados do folclore e da mitologia clássica."
Diferentes fontes de inspiração influenciaram a conceção do Capitão Marvel. Que teve, contudo, no ator Fred MacMurray (muito popular à época) o seu principal modelo anatómico. Pese embora sejam igualmente legítimas as comparações com outros galãs de Hollywood seus contemporâneos, como Cary Grant e Jake Oakie.

O Capitão Marvel foi tirado a papel químico
 do ator Fred MacMurray.
Na base da escolha do nome do alter ego do herói - um rapazote chamado Billy Batson - esteve a alcunha castrense através da qual o fundador da Fawcett Publications se notabilizara: Capitão Billy.
A estes elementos averbaram-se outros decalcados daquele que era então o super-heróis mais popular da Idade do Ouro. Tal como o Superman, também o Capitão Marvel possuía força descomunal, supervelocidade e um repórter como identidade secreta. Características comuns que lhe valeram a preferência dos leitores, mas, também, um danoso processo por plágio movido pela National Comics.

Histórico de publicação 

Apenas para fins de depósito legal e de divulgação, a primeira - e única - historieta de Captain Thunder foi dada à estampa no outono de 1939 e inclusa tanto em Flash Comics nº1 como em Thrill Comics nº1. Nenhum deles pôde, no entanto, ser registado dada a existência de conceitos homónimos já detidos por outras editoras.
Em virtude desses constrangimentos, e por sugestão do ilustrador Pete Costanza, Captain Thunder seria rebatizado de Captain Marvelous antes de ver o seu nome abreviado para Captain Marvel pelos editores da Fawcett. Quanto à série mensal destinada a acolhê-lo, teve o seu título alterado para Whiz Comics, em singela homenagem ao almanaque humorístico que, duas décadas antes, estivera na base da fundação da Fawcett Publications.
Datado de fevereiro de 1940, o segundo número de Whiz Comics não serviu, contudo, apenas de palco à estreia do Capitão Marvel. Também aquele que seria o seu arqui-inimigo - o diabólico cientista conhecido como Doutor Sivana - se deu a conhecer nessa edição histórica. Com meio milhão de exemplares vendidos, dificilmente a estreia da nova coqueluche da Fawcett poderia ter sido mais auspiciosa.

A trepidante estreia do Capitão Marvel
em Whiz Comics nº2 (1940).
De facto, inebriados pelo otimismo que infundia as histórias do Capitão Marvel, os leitores - que nelas encontravam uma escapatória a um opressivo quotidiano marcado pela guerra e pela incerteza - depressa fizeram dele o novo campeão de vendas, em detrimento do Superman.
Além do tom divertido das aventuras do Mortal Mais Poderoso da Terra - amiúde salpicadas por notas de surrealismo - , parte do seu sucesso poderá também ser explicado pela circunstância das histórias serem quase sempre narradas sob o ponto de vista de uma criança.
Era Billy Batson quem, ao microfone da estação de rádio WHIZ, ia relatando as façanhas da sua persona heroica. Conseguindo dessa forma estabelecer uma forte empatia com a sua audiência maioritariamente composta por pessoas de palmo e meio como ele.

Era o próprio Billy Batson quem muitas vezes
 servia de narrador às aventuras do Capitão Marvel.
Ano de glória para o Capitão Marvel, 1941 ficou marcado pela sua adaptação ao cinema (ver Noutros media) e pela sua ubiquidade nas publicações da Fawcett Comics. A Whiz Comics, o herói acrescentou um título em nome próprio - Captain Marvel Adventures - e participações regulares em Master Comics e Wow Comics. Ainda nesse ano seria lançado o primeiro spin-off. Capitão Marvel Jr. - que, ao contrário do original, não se transformava em adulto ao pronunciar "Shazam" - inaugurou uma igualmente bem-sucedida franquia.
Com efeito, entre 1945 e 1954, a Família Marvel (cujo núcleo duro incluía ainda Mary Marvel) teve as suas aventuras publicadas em The Marvel Family, outro dos títulos de charneira da Fawcett Comics, e um dos mais populares durante a Idade do Ouro. Mas que, à semelhança do restante catálogo super-heroico da editora, teria morte prematura em resultado do acordo extrajudicial negociado com a National Comics após longa e inconclusiva batalha travada na barra dos tribunais.

As aventuras da Família Marvel
encantaram toda uma geração de leitores.
Do purgatório onde se viu preso durante quase uma vintena de anos, o Capitão Marvel assistiu impotente ao desvanecimento da Idade do Ouro e à progressiva decadência dos super-heróis. Mas também a algumas tentativas frustradas de reabilitação.
Como aquela levada a cabo, logo em 1953, pela L. Miller and Son, pequena editora britânica que republicava histórias antigas de super-heróis em terras de Sua Majestade.
Ao ver-se subitamente privada do material original que lhe era fornecido pela Fawcett Comics, a L. Miller and Son requisitou uma versão genérica do Capitão Marvel ao escritor Mike Anglo.
Nascia assim Marvelman, galante herói com poderes idênticos aos do Capitão Marvel, obtidos sempre que ele vociferava "Kimota" ("Atomik" lido de trás para a frente). Até 1963, ano em que teve as suas histórias suspensas, Marvelman (atualmente conhecido como Miracleman) substituiu o Mortal Mais Poderoso da Terra no imaginário popular da Velha Albion. Tendo também aportado em Terras Tupiniquins, onde atendia pelo nome de Jack Marvel.
Em 1966, seria a vez da M.F. Enterprises (obscura editora nova-iorquina que cerraria portas no ano seguinte) lançar o seu pastiche do Capitão Marvel. Alegadamente baseado numa personagem criada por Carl Burgos ("pai" do Tocha Humana original), este herói com prazo de validade curto era um androide de origem extraterrestre cuja principal habilidade consistia em dividir o seu corpo em várias partes autónomas. Processo desencadeado sempre que ele gritava "Split" (palavra inglesa para "dividir") e revertido quando proferia "Xam"(sem tradução aplicável). Outra das suas originalidades residia no facto de ter um mentor humano chamado Billy Baxton.

Nasceu em terras de Sua Majestade
o primeiro genérico do Capitão Marvel.
No que muitos percecionarão como um ato de justiça poética (ou de inenarrável cinismo), em 1972, no rescaldo da chamada Idade de Prata da banda desenhada, a DC Comics, por iniciativa do seu editor-chefe, Carmine Infantino, adquiriu os direitos de licenciamento da quase totalidade das personagens da Fawcett Comics. Lote que incluía, obviamente, toda a Família Marvel, ou não tivesse sido esta a franquia que a Editora das Lendas mais cobiçara à antiga rival.
Assim resgatado do ostracismo por quem a ele o havia condenado, esperava-se um regresso triunfal do Capitão Marvel. Sucede que a sua incorporação na continuidade da DC foi seriamente dificultada por consecutivos percalços.
Começando pela impossibilidade de o Capitão Marvel dispor de um título em nome próprio. Isto porque, durante o seu longo exílio, a Marvel Comics havia patenteado uma personagem homónima, obrigando desse modo a titular de Shazam a nova série mensal do Mortal Mais Poderoso da Terra, que deveria ter servido para devolvê-lo à ribalta.

Cover
Em 1973, a estreia do Capitão Marvel
 no Universo DC foi apadrinhada pelo Superman.
No entanto, fruto de circunstâncias várias, em momento algum a antiga joia da coroa da Fawcett Comics conseguiu recuperar o seu fulgor de outrora. Tardando mesmo em afirmar-se no Universo DC, conforme demonstra o fracasso de todas as séries epónimas lançadas até à data.
Reduzido a uma espécie de coadjuvante de luxo e supletivo da Liga da Justiça, o Capitão Marvel foi oficialmente renomeado de Shazam em 2011. Ano a que remonta também, no contexto mais amplo dos Novos 52, a última tentativa de revitalização de que foi alvo. Além da mudança de nome, teve também a sua origem e visual retocados (mais pormenores no texto seguinte). Mas nem por isso os resultados foram mais satisfatórios.

Origem 

Na sua primeira aparição em Whiz Comics nº2 (fevereiro de 1940), Billy Batson era um pequeno órfão que sobrevivia graças ao seu trabalho como ardina e que tinha numa estação de metro abandonada o seu lar improvisado.
Conduzido, certo dia, por uma misteriosa figura ao covil subterrâneo do Mago Shazam, Billy ficou a saber como o ancião vinha usando os poderes das divindades cujas iniciais compunham o seu nome para combater o Mal nos últimos 3 mil anos.
Demasiado velho para prosseguir tão exigente missão, Shazam escolhera Billy para seu sucessor por causa do infortúnio do rapaz. Sendo nesse momento revelado que ele fora vítima da ganância de um tio que, após o falecimento dos seus pais, o expulsara de casa, para assim se poder assenhorar da sua herança. Apesar desta explicação, em revisitações posteriores da história acrescentar-se-ia que a escolha de Billy se ficara a dever também à sua pureza de coração.
Conforme profetizado, ao transmitir os seu poderes a Billy, o mago Shazam morreu esmagado por uma gigantesca pedra que, qual espada de Dâmocles, impendia sobre o seu o trono. Voltaria, no entanto, na forma de espírito, para servir de mentor ao seu novo campeão.

O Mago Shazam saúda o seu novo campeão.
Na sua primeira aventura como Capitão Marvel, Billy teve pela frente o Doutor Sivana. Com tanto de genial como de perverso, este cientista careca e de aspeto raquítico tornar-se-ia o arqui-inimigo do herói.
Foi também nessa história inaugural que Billy conseguiu o seu emprego como repórter e locutor da rádio WHIZ. Atividade que lhe permitia viajar e investigar o submundo do crime. Sempre que isso o metia em apuros, bastava-lhe gritar "Shazam" para assim convocar o seu poderoso alter ego.
Salvo por pequenas cambiantes introduzidas após a sua passagem para a DC (como a imputação da morte dos pais de Billy ao Adão Negro), a origem do Capitão Marvel permaneceu praticamente inalterada até aos Novos 52. Na nova versão que daí resultou, Billy Batson passou a ser retratado como um adolescente problemático e arrogante, num flagrante contraste com a docilidade do seu antecessor.
Quando o Doutor Sivana libertou o Adão Negro da sua tumba, o Mago Shazam convocou Billy para fazer dele o seu novo campeão. Apesar do jovem estar longe de ser o candidato ideal, Shazam, em desespero de causa, acabou mesmo por imbuí-lo do seu poder.
Depois de, num primeiro momento, usar as suas recém-adquiridas habilidades para ganhar dinheiro, o Capitão Marvel aprendeu lentamente o significado de ser um herói.

Agora rebatizado de Shazam, o Mortal Mais Poderoso da Terra
foi reimaginado nos Novos 52.

 Coadjuvantes

Nas suas histórias clássicas da Fawcett Comics, era comum o Capitão Marvel liderar a Família Marvel na sua interminável luta contra o Mal. Do grupo faziam parte também o Mago Shazam, Mary Marvel e Capitão Marvel Jr. (respetivamente, o mentor, a irmã gémea e o protegido do Mortal Mais Poderoso da Terra).
A este núcleo duro superpoderoso acrescia um conjunto de membros ocasionais destituídos de habilidades sobrenaturais. Eram eles o Tio Marvel, o Coelho Marvel e os Tenentes Marvel, reunindo estes últimos três homónimos de Billy Batson.
Ainda na categoria dos aliados tradicionais do Capitão Marvel, destacavam-se o tigre falante chamado Senhor Malhado e Beautia e Magnificus Sivana, os amáveis filhos do Doutor Sivana. Que, por sua vez, presidia ao índice de arqui-inimigos do Mortal Mais Poderoso da Terra onde pontificavam também Adão Negro ( Black Adam, o corrompido primeiro campeão do Mago Shazam), Capitão Nazi (Captain Nazi,supersoldado ao serviço do 3º Reich) e o Senhor Mente (Mister Mind, uma minhoca com talentos telepáticos).


Doutor Sivana (cima) e Adão Negro:
dois dos arqui-inimigos do Capitão Marvel.
Inicialmente incorporadas no Multiverso DC, algumas destas personagens tiveram contudo a sua existência apagada no período pós-Crise nas Infinitas Terras. Casos, por exemplo, do Tio Marvel e dos Tenentes Marvel.
Na realidade emanada dos Novos 52, Billy Batson possuía cinco irmãos adotivos, com os quais podia compartilhar os seus poderes. Mary Batson, Freddy Freeman, Pedro Peña, Eugene Choi e Darla Dudley formavam a nova (e multicultural) Família Marvel, cuja mascote era um tigre do zoológico de Fawcett City chamado Malhado.
Nos Novos 52 a Família Marvel ganhou novos membros.

Versões alternativas

Desde a sua migração para o Universo DC, o Capitão Marvel teve direito a um número significativo de sósias e versões alternativa. Tão significativo que me limitarei a elencar aqui os mais notórios.

Captain Thunder: Em Superman nº276 (junho de 1974), o Homem de Aço deparou-se com o formidável Captain Thunder. Crismado de Capitão Corisco no Brasil, era um super-herói procedente de uma dimensão paralela que obtinha os seus poderes ao esfregar um cinturão mágico enquanto gritava "Thunder" - acrónimo para Tornado, Hare, Uncas, Nature, Diamond, Eagle e Ram. O seu nome derivava daquele que fora originalmente atribuído ao Capitão Marvel.


Capitão Trovão foi o primeiro sósia
do Mortal Mais Poderoso da Terra no Universo DC.
Captain Thunder (2011): Na linha temporal divergente acidentalmente criada pelo Flash e apresentada na minissérie Flashpoint (Ponto de Ignição), a Terra tinha em Captain Thunder um dos seus maiores campeões. Esta contraparte do Capitão Marvel possuía não um mas seis alter egos. Seis crianças conhecidas coletivamente como S.H.A.Z.A.M., cada uma delas dispondo de um atributo mágico específico. A invocação do seu avatar só era possível quando os seis gritavam "Shazam" em uníssono.
Note-se que esta declinação remete para o conceito originalmente imaginado por Bill Parker quando foi incumbido da criação do Capitão Marvel.

Kingdom Come
: Em 1997, a minissérie Kingdom Come (Reino do Amanhã) apresentava um possível futuro distópico no qual os super-heróis tradicionais haviam sido substituídos por uma nova geração de justiceiros adeptos de métodos radicais e ultraviolentos.
Agora um adulto, Billy Batson mantivera-se durante vários anos na sombra devido à crescente hostilidade da opinião pública para com os meta-humanos. Seria, no entanto, descoberto por Lex Luthor que, com a ajuda dos filhos do Senhor Mente, o submeteu a uma lavagem cerebral.
Assim transformado num lacaio de Luthor, o Capitão Marvel acabaria por redimir-se ao sacrificar a própria vida para salvar milhões de inocentes. A sua capa serviria de símbolo para a nova era de harmonia entre humanos e meta-humanos imposta pelo Superman e seus aliados;

Corrompido por Luthor, o Capitão Marvel
 esteve do lado errado da história em Kingdom Come.
Mazahs: Introduzido em 2013 na minissérie Forever Evil (Vilania Eterna), este sósia maligno do Capitão Marvel foi trazido como prisioneiro para o nosso mundo pelo Sindicato do Crime - versão simétrica da Liga da Justiça originária da Terra-3. Tratava-se do alter ego superpoderoso de Alexander Luthor que, em conluio com a Superwoman (mescla da Mulher-Maravilha e Lois Lane), pretendia dominar o nosso mundo.
Assassinado pelo Luthor da Terra-1, deixou órfão o filho que a Superwoman lhe carregava no ventre.

Noutros media

Com forte penetração em praticamente todos os segmentos culturais, o Capitão Marvel foi o primeiro super-herói a ganhar vida no grande ecrã. Logo em 1941, a Republic Pictures produziu Adventures of Captain Marvel. Protagonizado por Tom Tyler (e com Frank Coghlan Jr. no papel de Billy Batson), este folhetim em 12 episódios a preto branco, epifenómeno de sucesso,  usou efeitos especiais que haviam sido desenvolvidos para uma produção idêntica do Superman que nunca saiu do papel.
A fazer fé nos inúmeros rumores postos a circular no ciberespaço, o Mortal Mais Poderoso da Terra deverá regressar ao cinema em 2019. Por ora são, contudo, mais as dúvidas do que as certezas em torno do projeto. Desde logo acerca do nome do ator escolhido para emprestar corpo ao herói. Isto apesar de Alan Ritchson ter recentemente confirmado, via Twitter, ser ele o eleito para o papel.
Fora dos quadradinhos, foi, porém, através de Shazam!, icónica série televisiva produzida pela Filmation e exibida pela CBS de 1974 a 1977, que o Capitão Marvel recuperou alguma da sua popularidade de outrora junto do grande público. Interpretado por Jackson Bostwick na primeira temporada e por John Davey nas duas seguintes, o herói praticava nela uma espécie de justiça itinerante ao viajar através dos EUA para defender os fracos e oprimidos.


Capa da edição DVD de Adventures of Captain Marvel (cima)
e os dois atores que encarnaram o herói na série televisiva
dos anos 70.
Ainda no pequeno ecrã, pouco tempo depois do cancelamento da sua série, o Capitão Marvel (agora encarnado por Garret Craig) seria um dos super-heróis da DC a participar em Legends of the Super-Heroes, paródia de baixo orçamento em dois episódios produzida em 1979 pelos estúdios Hanna-Barbera.
No campo da animação, além das suas numerosas participações em filmes e séries com a chancela da Warner, o Capitão Marvel teve em Shazam! um dos pontos mais altos da sua carreira audiovisual. Sob o selo da Filmation e emitida pela NBC entre 1981 e 1982, esta série animada representou uma fidelíssima adaptação do imaginário do herói, onde não faltaram personagens emblemáticas como a Família Marvel e o Doutor Sivana.

A Família Marvel reunida em Shazam! (1981-82).
Ao atribuir-lhe um módico 50º lugar na sua lista dos melhores super-heróis de todos os tempos, a equipa do site IGN classificou o Capitão Marvel como "um lembrete duradouro de uma época de maior simplicidade". Definição igualmente lisonjeira consta na plataforma de entretenimento UGO Networks: "No seu melhor, o Capitão Marvel foi sempre um Superman com um sentido de humor irresistível."
Irresistível continua a ser, de facto, o fascínio que este magnífico expoente da Idade do Ouro dos comics continua a exercer nos fãs. Sobretudo entre aqueles que, como eu, tiveram uma infância mais divertida por conta das  mirabolantes aventuras do "Capitão Fraldinha" - nas imortais palavras de Guy Gardner durante a fase cómica da Liga da Justiça.

Um herói à prova de bala e de melancolia.